Viagem ao Inferno

26 de janeiro de 2010 às 15:44 - Comentar

Ganhei no final do ano passado dois livros, um de ficção, “O Compromisso”, da Nobel de Literatura de 2009 Herta Müller, e um de não ficção, “Viagem ao Crepúsculo”, de Samarone Lima. Li o primeiro ainda no ano passado e o segundo acabei há poucos dias. Coincidentemente, ambos tratam da vida sob ditaduras. No primeiro, a ditadura de Ceausescu, na Romênia. No segundo, a Cuba de Fidel e Raul. A primeira constatação: como são parecidas as ditaduras! Opressão, delação, medo, autoritarismo, mercado negro, culto à personalidade, privilégios para a casta do poder…

O livro de Samarone foi editado pela editora Casa das Musas, dos poetas Gustavo de Castro e Florence Dravet. Samarone é jornalista, mora em Recife, é amigo de Gustavo e de esquerda. Faço essas observações porque um desavisado poderá pensar que trata-se de mais um panegírico de direita contra Cuba. Samarone passou um mês em Cuba, morou e conviveu com pessoas comuns, o povão. Vivenciou de perto as agruras cotidianas das pessoas sob à ditadura.

Eu sabia que a situação na ilha não era das melhoress. A ficção de Pedro Juan Gutierrez já tinha me adiantado alguma coisa do que se passa na ilha. Mas não chega nem perto do relato de Samarone, que é chocante do começo ao fim.

A escassez de tudo em Cuba obriga as pessoas a todo tipo de suborno e golpes para sobreviver. O mercado negro começa nos escalões intermediários do governo e se espalha por toda a sociedade. Máfias e miséria por toda parte.

O descontentamento com o regime é geral. Mas poucos ousam reagir. Os onipresentes Comitês de Defesa da La Revolución – máquina de delação e repressão – tratam de manter todos amofinados.

A luta diária não é por liberdade, um luxo que a maioria dos cubanos não conhece. Mas por pão, leite, carne, gêneros de primeira necessidade. O sistema de saúde, que a propaganda do governo cubano propaga, está falido. Perto dele, o nosso SUS é padrão suíço.

“Aqui em Cuba, há muitos delatores, que ficam nas filas, fingindo que vão buscar o pão, a ração. Há também umas Brigadas de Resposta Rápida, que agem se acontecer qualquer ameaça de tumulto, mobilização do povo. Na verdade, são policiais vestidos de civis. Você não pode falar de jeito nenhum, em voz alta, nem citar que o sistema está mal, que aqui vivemos uma vida miserável, que rapidinho te pegam, prende, e é pior”. É uma vida de cão, Samá, a revolução serve para os que estão perto de Fidel”, relata um cubano.

Samarone custa a acreditar no que vê. E nós, no que lemos. Hoje, quem quiser saber como está Cuba tem de ler “Viagem ao Crespúsculo”.

Falei tanto do livro de Samarone e quase nada do de Herta Muller. É que “O Compromisso” não me empolgou, achei um livro fraco para alguém que ganhou o Nobel (meu parâmetro de comparação aqui são escritores do porte de Coetzee e Pamuk, para citar dois mais recentes). Tomara que os outros livros dela sejam melhores.

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    COMENTÁRIOS

    • Tácito Costa: Sr. Paulo. Grato pelo alerta. Não tiro nenhuma vantagem pessoal desse trabalho. Não temos anúncios e nem patrocinadores e apoiadores monetários. Move-me somente o desejo de democratizar o acesso ao conhecimento. Vamos continuar. Somos favoráveis a cópia sem fins lucrativos. - Viajantes e apaixonados em transe
    • Anne Guimarães: Um poema ensolaradamente gris em tons de azul.... A vida simples e sagrada de quem encontra no mar a sua honra, a sua luz. Admiro tudo que eleva a vida de um pescador.... Lindos versos, bela vida natural potiguar! :) - Tarrafas
    • Anne Guimarães: Poeta Anil.... Sempre bom ler seus poemas.... Ouvir sua voz, receber sua alma.... "Abracei novas incertezas /Sussurro, nem sempre é gozo/ Só o agora é urgente" afff mexeram aqui dentro, rsrs. Esse também é o papel da poesia, motivar, emocionar, contar aquilo que a gente não disse , mas viveu ou vive - em silêncio - na quietude dos sentimentos mais intensos.Você sabe bem o que isso significa, vive poesia e respira versos na beleza do cotidiano sagrado. Beijos,querida! :) - Fio de luz
    • Anchieta Rolim: ...só o agora é urgente...Belo poema, Ednar. - Fio de luz
    • Anne Guimarães: Querida poeta-flor! ô coisa lindaaaa.... Lembrei agora de um poema de Carlos Nejar para sua filha Carla, em um dos versos sábios ele diz: " é no simples que as coisas são completas." É isso mesmo, quanto mais simples, mais doce, mais prazer nessa vida breve vida. Estarei sempre contigo, menina! Suas palavras serenas me mostram que - de uma forma ou de outra - é especial cada segundo de leitura aqui. Beijos no espírito. :) - Vagalume da Paz
    • Anchieta Rolim: Romana, é justamente isso que falta no mundo minha amiga, luz e paz. Bela poesia! Parabéns ! - Vagalume da Paz
    • Anchieta Rolim: Beleza de texto J. Paiva. Só espero que os meninos de hoje também sonhem com um Brasil melhor...Pois ainda há muito a ser feito.Parabéns! - Política de menino
    • Paulo César: Sr. Tácito, Pelo que eu saiba jornais não permitem a transcrição de artigos da forma como o senhor vem fazendo no seu site. Colocar um link é uma coisa, transcrever e fazer o leitor continuar no seu site, quando o artigo tem direitos autorais e está hospedado em outro local e tem regras de uso.O utilização da forma como o senhor vem fazendo denota pirataria, palavra muito em voga e contraditória, mas ainda passível de sanções pelas atuais leis do país. Não alerto apenas por alertar, mas sugiro consultar - se me permite a sugestão - um advogado para entender a sua situação atual(devidamente gravada e arquivada para uso, mesmo que esse e outros conteúdos sejam retirados do ar imediatamente). Com muito respeito, Paulo César - Viajantes e apaixonados em transe
    • Jarbas Martins: Qualquer seleção de poemas, antologia, florilégio, ou que outro nome tenha, sempre passou, no período histórico chamado de Modernidade, pelo crivo da parcialidade. Baudelaire, que além de poeta, era crítico de poesia, e da arte de um modo geral, sabia disso.O poeta e antologista Paul Éluard,à época da festiva revolução surrealista, tanto sabia que lançou a sua parcialíssima seleção - "Le Meilleur choix de poèmes est celui que l'on fait pour soi- 1818-1918". (A Melhor seleção de poemas é aquela feita para si mesmo -1818-1918"). Nestes rasos tempos da Pós-Modernidade - o prestígio, uma espécie de capital simbólico, segundo Bourdieu (e viva as lições do meu colega e amigo, professor-doutor Emmanuel Barreto), teria que entrar como um critério.O mercado assim determina.Daí a razão porque Ferreira Itajubá e Jorge Fernandes (mesmo com o aval de nomes como Luís da Câmara Cascudo,Mário de Andrade e Manuel Bandeira) - sempre são "esquecidos" das antologias feitas no preconceituosíssimo e longínquo Sudeste. Pobres, marginalizados e insulados em sua província submersa - não contam com uma "fortuna crítica" que merecem. - A identidade do verso brasileiro
    • Jairo llima: Fernando Monteiro está no centro do cânone de nossa literatura. Fico feliz de ser contemporâneo e conterrâneo deste artista. - As asas da noite que surgem (1)