Da tromba do elefante ao sertão pernambucano: Uma viagem à terra de Luiz Gonzaga

Manoel Cavalcante
Destaque
Luiz Gonzaga.12

Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989) é o principal artista da cultura nordestina

Descambou mais um 13 de dezembro e, mais do que o dia de Santa Luzia, o nordeste comemorou o nascimento de um certo Luiz Gonzaga do Nascimento.

Lá no sertão brabo de Pernambuco, nas brenhas do Araripe, Zona Rural de Exu-PE, cidade com cerca de 30 mil habitantes, árida, provincial, a 610 km de Recife, a 69 do Crato-CE e a 80 do Juazeiro do Norte do Padim Ciço.

Falar de seu Luiz, apesar de justo e necessário é, de certa forma, repetitivo (mas nunca demais), uma vez que ele está presente no nosso cotidiano, na formação de nossa identidade cultural, de nossa formação antropológica e, definitivamente, como diria João Claudio Moreno: “Gonzaga é nossa cartilha”.

O “Mestre Lua” cantou a seca, o inverno, o amor, o desmando dos políticos, o êxodo rural, nossa religiosidade, o povoamento de nossa região e musicou nossa terra por completo, nos traduziu em Forró (o pé-de-serra chamado), Baião, Xaxado, Xote e Arrasta-pé.

Isso, isso mesmo, Luiz criou e difundiu 5 ritmos musicais, coisa que desconheço em qualquer outro músico do universo.

Quer um Pé-de-Serra? Pé-de-Serra (1942)

Quer um Baião? Apois “eu vou mostrar pra vocês como se dança um baião…” Baião (1949) e uma tal de Asa Branca (1947).

Quer um Xaxado? É que o “xaxado é a dança dos cabras de Lampião”. Xaxado (1952).

Quer um Xote? Numa sala de reboco (1964).

Quer um arrasta-pé? Então “olhe pro céu, meu amor…” Olha pro céu (1951).

Luiz ainda tocou e cantou danças e ritmos de estilo europeu como mazurca, valsa e polca, e sul-americanos, como Tango. Mas sua ‘vibe’ foi entranhar a personificação do nordestino e do sertanejo em sua sanfona. Obra pra Beethoven e Bach nenhum botar defeito. O Rei do Baião foi o maior músico do universo. Eu defendo isso.

Luiz Gonzaga_3

Na fachada da casa amarela tem os dizeres: “Casa de Januário, aqui em 1946 chegou o sanfoneiro Luiz Gonzaga”. Fotografia: Manoel Cavalcante

Origem do mito da cultura brasileira

Para quem nasceu no nordeste, ouvir Gonzagão é tarefa religiosa, mesmo que o cabra não goste, seus ouvidos não escapam do choro e do arranco alegre de uma sanfona.

E, além disso, você leitor, aumentará a dimensão de Luiz Gonzaga quando for ao Exu-PE, quando conhecer o Araripe, quando sentir a aridez e desertificação não apenas climática do lugar de onde saiu Luiz Gonzaga.

Luiz nasceu na fazenda Caiçara, numa casa de barro batido que evidentemente não existe (foi levada por uma enxurrada quando ele tinha 11 anos).

Aos 17 ele fugiu de casa após uma confusão por conta de Nazinha, seu amor adolescente.

Quando voltou, 16 anos depois, seus pais moravam numa singela casinha amarela, aquela da cena do filme. Aquela do “louvado seja nosso senhor Jesus Cristooo”.

Por lá mesmo, já com certa fama, Luiz também construiu uma casa para seu pai, Januário, onde vinha sempre passar as férias com a família.

Luiz Gonzaga.7

Roda de sanfona na Casa do Rei do Baião com Marquinhos Café, Flávio Baião, Targino Gondim, Joquinha Gonzaga e Chambinho (acordeonista piauiense que fez o papel de Luiz Gonzaga no filme “De pai pra filho”). Quem assiste a uma roda dessa, se num chorar, tira um fino.

Viva Gonzagão

Consoante a isso, todos os anos, por volta do 13 de dezembro, desde o início dos anos 1990, ocorre o Viva Gonzagão, evento que festeja o nascimento de nosso rei.

O Exu-PE, pequena cidade, fica menor ainda com tanta gente, mas gigante com tanta energia cultural espalhadas pelas ruas.

Pessoas de todo o Brasil, sanfoneiros, artistas, fãs, devotos admiradores, todos numa festa solene de preservação da identidade, num canto nativo de independência, numa confraternização bairrista e de fé.

Luiz Gonzaga.6

Falar de seu Luiz, apesar de justo e necessário é, de certa forma, repetitivo (mas nunca demais), uma vez que ele está presente no nosso cotidiano, na formação de nossa identidade cultural, de nossa formação antropológica e, definitivamente, como diria João Claudio Moreno: “Gonzaga é nossa cartilha”.

O evento se molda a cada ano. Até quando Dominguinhos viveu (materialmente), foi um dos enfrentantes, lutou contra governos que não davam o devido valor e destaque ao mestre maior, e fez o que pôde para manter viva a festa do Viva.

No Centenário, muitos artistas conhecidos nacionalmente por lá tocaram. Todos os anos a programação se edifica sobre a cultura de raiz, sobre aquele forró que Luiz deixou pra nós, como oração regional.

Grande parte da programação acontece no Parque Asa Branca, onde está o Museu, o Mausoléu e um memorial na casa onde ele morou com sua esposa, além de um grande palco para apresentações culturais, uma estrutura de certa forma, invejável.

A memória do Rei, no Parque Asa Branca, podemos dizer que está bem guardada.

O evento de 2016 quase não acontece por falta de incentivo público

No fim de 2016, só se viu a notícia da ameaça da festança não ocorrer por falta de incentivo. Artistas protestaram em redes sociais, se uniram, se rebelaram contra o governo do estado de Pernambuco, que não pagou os cachês do ano anterior, mas fizeram em grande estilo (e como fizeram o aniversário).

Luiz Gonzaga.8_Fulor de Mandacaru

Os meninos de Caruaru da Fulô de Mandacaru cantaram “Na Cabana do Rei”, programa de rádio feito ao vivo no Parque Asa Branca. Fotografia: Manoel Cavalcante

Na base do tocar de graça, na linha do se apresentar sem cachê, Flávio Leandro, Joquinha Gonzaga (sobrinho de Luiz) e Targino Gondim, convidaram e saíram chamando artistas e colegas para não deixarem a festa morrer e foi assim que ela foi mais maravilhosa do que se algum governo tivesse contratado sem pagar, foi por amor ao forró, como diria Pinto do Acordeon.

Artistas como Jorge de Altinho, Kátia Silene, Flávio Baião, Targino Gondim, Joquinha Gonzaga, Flávio Leandro e outros da região, fizeram forró pras bandas voarem.

Mas uma coisa ganhou destaque: a Banda Fulô de Mandacaru, vencedora de um grande reality musical na Globo, foi, tocou de manhã, de tarde, de noite, dançaram, beberam, brincaram, tiraram foto e disseram em palco que só chegaram onde chegaram por causa de Luiz Gonzaga do Nascimento.

Quando ligaram pra eles, não contaram nem conversa, vieram dar vivas e bater continência para o Rei. Foi um show à parte.

Outro detalhe da festa, é que não tem tempo ruim. Começa sexta e vai até ao domingo, a segunda, até ao dia que precisar. E tem forró de manhã, de tarde e de noite, os artistas estão por lá toda hora e em todo canto onde uma sanfona chiar.

Uma programação que estreou esse ano foi a Feijoada de Joquinha Gonzaga. Lá os artistas, mais uma vez, se confraternizaram e fizeram do baião e do forró, uma mistura para o feijão. O palco ficou pequeno pra tanta gente boa.

Luiz-Gonzaga_14

Seu Eurides de garra do fole é o pai do grande Waldonys, a quem Luiz Gonzaga apelidou de “Garoto Atrevido”. Seu Eurides é acordeonista amador e foi o maior incentivador do filho.

A saga dos gonzagueanos pauferrenses

Mas como eu disse tanta coisa aqui, com tanta foto? Não, eu não tirei do google! Há três anos, vou ao Exu, junto amigos. Pego minha musa e me mando. Mas tem quem faça isso há muito mais tempo do que eu.

Em Pau dos Ferros, na tromba do elefante, no sertão do Rio Grande, existe um fã clube de Luiz Gonzaga, fundado em agosto de 2011, através de três entusiastas da obra de Luiz Gonzaga, três cabras arretados, Hélio Diógenes, Eusébio e Epifânio.

Essa trinca visita a festa do Viva Gonzagão há bastante tempo e proporcionou a seus conterrâneos a oportunidade de irem à terra do Rei do Baião.

Todo ano sai uma excursão para viajar 320 km, enfrentar serra, chapada, etc, para ir ao Exu e celebrar sua identidade. Um ônibus lotado com sanfoneiro, zabumbeiro, farofa, ‘a branquinha’, alegria e muita descontração.

Luiz Gonzaga.10

Excursão rodou 320km, de Pau dos Ferros, no Alto Oeste potiguar, até Exu (PE), no sertão pernambucano

Tudo planejado durante todo o ano, nas reuniões mensais do fã clube Eterno Cantador, que leva o nome de uma das mais belas canções gravadas por Luiz Gonzaga.

Por fim, meu povo, é quase isso. Falar de Gonzaga é inesgotável, é sempre infinito. Aconselho até quem quiser se aprofundar, procurar um cidadão chamado Paulo Wanderley, o maior pesquisador de Gonzaga do Brasil.

Aqui em nosso Estado, temos o Kydelmir Dantas, mestre que lançou o livro Luiz Gonzaga e o Rio Grande do Norte, no qual mostra a passagem do Rei do Baião por nosso Estado e lista os compositores potiguares gravados pelo Mestre Lua.

Ademais, “quem viu a vida derramar amor, não vai deixar de ser um cantador”!

Share:
Manoel Cavalcante

Comentários

Leave a reply