Viajantes e apaixonados em transe

3 de fevereiro de 2012 às 10:39 - 11 Comentários

Por Milton Hatoum
ESTADÃO

Bem-aventurados os apaixonados, que se esquecem por algum tempo das mazelas do mundo. Deitam-se numa rede de fios bem trançados, numa cama estreita, num tapete persa ou numa esteira de palha e se entregam às malícias do amor. Ou deitam-se no piso de tábuas de uma casa modesta e se esquecem dos magistrados, dos burocratas, das chuvas destruidoras, dos políticos inativos, dos impostores e dos pássaros agourentos. Já não se lembram da segunda-feira árdua e rotineira, do chefe ranzinza ou do subalterno distraído, do trânsito e seus motoristas alucinados, nem daquele casamento que se reduziu a bocas engessadas e momentos de silêncio que insinuam sentenças hostis.

Apaixonados: seres sonhadores antes do primeiro duelo, que só às vezes rima com inverno. Ali, sentado na praça, vi um velho conhecido que perdeu sua amada há seis anos. Ele dorme em calçadas e praças do meu bairro, nas vésperas do Natal eu o encontrava triste e lacônico: artesão pobre e solitário que vende violas sem cordas, construídas com dejetos fisgados nas ruas da metrópole, esse vasto museu contemporâneo do consumo. Mas agora esse artesão encontrou uma amada:

‘Minha outra música’, ele disse.

Eu, distraído ou perdido em algum devaneio, ouvi ‘musa’ em vez de ‘música’, e logo comprei uma viola desse artista errante que lembra certos viajantes, esses outros bem-aventurados.

Muitos partem sem bússola e se lançam a uma aventura. Ou partem em busca de uma paisagem insólita, de um sabor estranho, de rostos mais ainda estranhos, de lugares sonhados desde sempre, de noites que se emendam ao dia e novamente à noite, como se houvesse só espaço nesse mundo regido pelo tempo. Viajantes com pouca bagagem, movidos pelo desejo de conhecer o que amanhã será esquecido, ou de esquecer o que irremediavelmente será lembrado além da nossa fronteira. Alguém te envia uma mensagem do deserto de Atacama, de uma mesquita de Istambul, de um pueblo de Missiones, de uma praça de Teresina, Belém ou Sabará, do pátio de um convento de Olinda; alguém escreve à mão no verso de um postal palavras sobre o assombro e a beleza da ilha de Creta, onde um mito antigo resiste aos descalabros do nosso tempo.

Quantas mensagens via satélite… E só uns poucos postais com a fotografia de um lugar visitado e cinco frases escritas por calígrafos anacrônicos.

Invejo a energia quase cósmica desses viajantes e apaixonados, que celebram suas façanhas com uma comoção incomum. Posso imaginá-los em transe, e de algum modo eles me inspiram para escrever estas linhas num quarto úmido, depois da tempestade. Admiro a beleza das romãs rosadas no pequeno jardim, sinto o cheiro dessas frutas desventradas por pássaros famintos, e logo me vem à mente os versos do poeta que escreveu A Falta Que Ama:

‘Uma viagem é imóvel, sem rigidez./ Invisível, preside/ ao primeiro encontro. Todo encontro,/ escala que se ignora’.

11 Comentários

  1. Paulo César
    4 de fevereiro de 2012

    Sr. Tácito,

    Pelo que eu saiba jornais não permitem a transcrição de artigos da forma como o senhor vem fazendo no seu site. Colocar um link é uma coisa, transcrever e fazer o leitor continuar no seu site, quando o artigo tem direitos autorais e está hospedado em outro local e tem regras de uso.O utilização da forma como o senhor vem fazendo denota pirataria, palavra muito em voga e contraditória, mas ainda passível de sanções pelas atuais leis do país.
    Não alerto apenas por alertar, mas sugiro consultar – se me permite a sugestão – um advogado para entender a sua situação atual(devidamente gravada e arquivada para uso, mesmo que esse e outros conteúdos sejam retirados do ar imediatamente).

    Com muito respeito,

    Paulo César

  2. 4 de fevereiro de 2012

    Sr. Paulo. Grato pelo alerta. Não tiro nenhuma vantagem pessoal desse trabalho. Não temos anúncios e nem patrocinadores e apoiadores monetários. Move-me somente o desejo de democratizar o acesso ao conhecimento. Vamos continuar. Somos favoráveis a cópia sem fins lucrativos.

  3. gustavo de castro
    5 de fevereiro de 2012

    Tácito, não sou advogado, nem entendo do assunto, mas a dica do Sr. Paulo é importante. É bom vc procurar mais informações. Pelo que sei, os princípios constitucionais do direito à educação (art. 6º, caput, art. 205) e de acordo com o direito de acesso à cultura, à ciência e à educação (art. 23, V) e ainda pela determinação de que a propriedade intelectual deve atender função social (art. 5º, XXIII), é admissível a publicação apenas de trechos, ainda que a obra seja protegida. As imagens, os textos e as obras audiovisuais, quando utilizadas para fins didáticos e sem fins lucrativos podem ser disponibilizadas no site, além do que estão disponíveis na internet. O tema da pirataria cultural é importantíssimo…

  4. Fernando Monteiro
    6 de fevereiro de 2012

    BELA — E ALTIVA — RESPOSTA, TÁCITO, do alto da sua
    absoluta integridade de jornalista, intelectual, editor e, acima
    de tudo, homem de bem (conforme reconhecem até os seus
    – poucos — inimigos).
    Os que aqui colaboram – posso falar em nome de todos? (eu humildemente pergunto) — assumem a responsabilidade coletiva, junto contigo, por tudo que aparecer “copiado” aqui no democrático, aberto, limpo e desarmado SUBSTANTIVO PLURAL.
    Sanções que por acaso venham a cair sobre a cabeça de Tácito Costa deverão ser um “sombrero” suficientemente vasto para abarcar também todas as cabeças que aparecem aí do lado esquerdo (são 26 “quengos”, eu contei, dos mais ILUSTRES, com a exceção deste escriba que aqui também assume qualquer culpa por cópias, neste honestíssimo espaço, “sem fins lucrativos”, nas palavras de Tácito Costa, apoiadíssimo)…

  5. françois silvestre
    6 de fevereiro de 2012

    Só hoje, pois ando meio longe da net, tomei conhecimento dessa bobagem. BOBAGEM. Tácito, você não tem ferido qualquer diploma legal, nem qualquer versículo moral ou ético. Basta ler o que define a Lei vigente sobre esse assunto. Isso é coisa de falta de assunto. Caso você precise de um bom advogado, contrate. Se um rábula servir, aqui estou. Honorários a serem acertados na serra, regados a cachaça de cabeça com mel de jandaíra, com direito a cerveja gelada para lavagem.

  6. Danclads Andrade
    6 de fevereiro de 2012

    Caro Tácito, você não está infringindo qualquer diploma legal. A transcrição in totum do artigo com a menção do autor e o local onde foi encontrado não gera ofensa ao direito autoral. E isto eu digo com base na Lei nº 9.610/98 (Lei dos Direitos Autorais), que em seu art.46 diz textualmente que:

    “Art. 46. Não constitui ofensa aos direitos autorais:

    I – a reprodução:

    a)- na imprensa diária ou periódica, de notícia ou de artigo informativo, publicado em diários ou periódicos, com a menção do nome do autor, se assinados, e da publicação de onde foram transcritos;”

    Observe-se, ainda, que a lei não menciona sites, posto que não havia ainda esta difusão tão grande da internet em 1998. Entretanto, aplicando-se a analogia, o art.46 dá suporte legal à questão posta em discussão neste site.

    Assim, entendo que qualquer publicação deste tipo, sem que haja intuito de lucro, em detrimento dos direitos do autor, não ofende o direito autoral.

    E… Desde já, caso precise de advogado, já tens nome, endereço e telefone… Rsrsrs…

  7. Paulo Gades
    6 de fevereiro de 2012

    Primeiro quero explicar que sou um defensor acérrimo do copyleft e vou até além:comungo com o lema do Coletivo Sabotagem que marcou época uns 10 anos atrás:

    “Conhecimento não se compra! Se toma!”

    Nesse link abaixo tem alguma coisa sobre ele.

    http://cai.xtreemhost.com/cdc-galiza/sabotagem.htm

    No entanto, nesses tempos de SOPA, ACTA e quetais achei de bom alvitre alertar, pois mesmo não tendo finalidades lucrativas, o blog é muito bem visitado e tem grande visibilidade, correndo o risco de ser processado por transcrever integralmente textos de outras publicações.
    Seria bom o Sr. François Silvestre se informar melhor, pois no rodapé do jornal O Globo tem:

    © 1996 – 2012. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

    Se isso não significa nada e é apenas “BOBAGEM” como rotula o Sr. François, então eu peço desculpas por ter trazido à baila tal assunto e recolho-me à minha ignorancia juridica diante de autoridade tão peremptória, autoritária e taxativa.

  8. 6 de fevereiro de 2012

    Obrigado Monteiro, François e Danclads. Até o momento não há nenhuma ameaça concreta contra a gente. Mas, caso apareça, vamos resistir. De todas as formas e com todas as armas. François e Danclads, aceito os serviços jurídicos de ambos com uma condição, que Cecília Costa, que está terminando Direito este ano, participe como estagiária ou assistente, senão está criada uma crise familiar e o meu banimento como pai – rsrsrs. Tem a muito a aprender com vocês dois. Abração em todos.

  9. 6 de fevereiro de 2012

    Caros Colegas,

    Felizmente temos no sp alguns advogados que podem recorrer das leis . Lembro tambem a todos que a maioria dos artigos postados pelos colunistas do sp possuem autoria e precisam ser referenciados quando usados em outros blogs e mídias.
    Essa é uma discussão necessária, sim. .

  10. Danclads Andrade
    6 de fevereiro de 2012

    Caro, amigo, que seja bem vinda a nobre colega Cecília. Parabéns Tácito pela filha advogada.

    PS: Ednar está aqui na maior gargalhada ao meu lado. Imagine o som estridente desta gargalhada… Rsrsrs… Você conhece de perto… Rsrs…

  11. françois silvestre
    6 de fevereiro de 2012

    Meu caro Paulo, eu chamei de bobagem o fato dessa limitação, pela própria ineficácia do policiamento ou restrição. E não o seu texto ou o seu alerta. Se foi essa a impressão passada, eu peço desculpas a você. Mantenho o que disse a Tácito: Essa restrição é uma bobagem. E nenhuma publicação, por mais sulista e importante que seja pode legislar ou proibir o que a Lei não proíbe expressamente. Artigo publicado em jornal é material público. Não pode ser usado para alguém lucrar com ele. Aí entra o resíduo do direito autoral. Fora disso, a limitação é inócua. Reitero minhas desculpas.

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POESIA

    Névoa
    16-05-2012 às 9:40 - 7 Comentários
    Por Jarbas Martins

    Carl Sandburg

    Vem a névoa
    em breve pisar de gata.

    Queda-se olhando
    o porto e a cidade
    sentada em seu silêncio e
    esgueirando-se em seguida.

    (Tradução de Jarbas Martins)

    * * *

    Fog

    The fog comes
    on litlle cat feet.

    It sits looking
    over harbor and city
    on silent haunches
    and then moves on.

    (Carl Sandburg, “Selected Poems”, G.Books,1992)

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Amigo Carlão, Vejo com muita alegria a sua inquietação e leitura. Tb indico fortemente o livro .Jerônimo, A Técnica do Livro de autoria do grande Dom Paulo Evaristo Arns ( Sua tese de doutorado) , trad. de Cleone Augusto Rodrigues e prefácio de Alfredo Bosi . Belíssimo livro em capa dura Jeronimo traduziu a vulgata da biblia e é considerado o patronomo dos bibliófilos e amantes do livro. Saudações bibliófilas. ab imo corde - Help
    • edjane linhares: Muito lindo, Jarbas. A experiência do haicai, como Fernando nos lembrou, ajuda muito neste processo de contemplação e silêncio, ato solitário e sublime. Quero agradecer a homenagem às mães no seu último haicai (único vestígio da data por aqui). Aguardo coletânea deles. Um abraço. - Névoa
    • Jarbas Martins: Amigo Jóis: gosto da sua poesia e da sua prosa digressiva, inflada de saberes e sabores, biscoito fino para raros paladares.Nem precisava dizer isso, mas como em seu comentário você se reportou a um incógnito Aguinaldo Soares, usando termos utilizados por ele contra mim - deu-me vontade de voltar ao assunto. Repito mais uma vez: Aguinaldo Soares sabe escrever, e a expressão "sólida cultura" é tão infeliz que não me restou outra alternativa: pedi desculpas ao ilustríssimo desconhecido.Não conheço o Aguinaldo, mas presumo que ele, como eu, temos algo em comum: fizemos o curso de direito.Daí o nosso gosto pelas sentenças líquidas e certas. Abraços, Poeta ! - Ditirambo
    • Marcos Silva: Li um livro interessante sobre Jerônimo, A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo, de Paulo Evaristo Arns - Help
    • Jarbas Martins: Tradução inventiva a tua, Marcos. Nenhuma novidade nisso. Você é um reconhecido mestre na arte tradutória. - Névoa
    • Jóis Alberto: O poema é bom! Afirmo isso, embora não tenha plena consciência do ofício de poeta. Porque se eu for intelectual, sou dos mais incompletos – em meio a preconceitos, totens e tabus, como vocês já tiveram oportunidade de ler mais de uma vez, aqui neste democrático SP. Além do mais, como posso ter sólida base cultural nesses tempos em que tudo que é sólido se desmancha no ar? Tempos de modernidade e amores líquidos, de fodas em excesso e entediadas, blasé até – foda blasé é ‘foda’! – de gente que trepa com a mesma rotina de quem escova os dentes, tema objeto das sátiras ingênuas de meia dúzia dos meus poemas eróticos. Ingênuas não só se comparadas às sátiras e poemas eróticos/pornográficos de um grande poeta, Bernardo Guimarães, por exemplo, mas ‘ingênuas’ também no sentido libertino, filosófico, da palavra ‘ingênuo’! Ou então as fodas são escassas como as leituras de gente que, se leram os gregos, leram em traduções, não no original, e fazem a pose erudita de quem muito entende esses clássicos da filosofia, da poética e da ética, da antiguidade greco-romana. O que danado é ‘inveja poética’? Se é inveja não é poética, nem ética! Porque a ética, é verdade, pode tratar da inveja, da emulação, mas a inveja despreza a ética. O que danado significa ‘fracasso moral da estética’? De qual moral estamos falando? Da moral burguesa? Sinceramente! Qual o poeta que não esconde a fonte onde bebe? Como poeta bissexto, escondo e revelo fontes. Sem maiores dificuldades coloco as cartas na mesa, porque nesse jogo de cartas – de cartas muitas vezes marcadas, e viciadas – uma das minhas cartas prediletas é a do coringa, do joker! Porém, como há muito não jogo nem pif-paf, buraco ou sueca, uso essa expressão ‘jogo de cartas marcadas’ como um dos inúmeros clichês que pululam por aí, em discussões de intelectuais de prestígio... - Ditirambo
    • Cássio: Biografia eu não sei, mas recomendo o filme do júlio bressane. No seu livro Cinemancia tem também uma tradução interessante da "epifania" de são jerônimo. - Help
    • Marcos Silva: Belo poema, bom poeta, boa tradução. Sugiro a alternativa: NÉVOA. Névoa vem em pés de gatim Senta e olha sobre porto e cidade ancas silêncio e se moveu - Névoa
    • Jarbas Martins: Tenho a honra e o dever de confessar que a tradução que fiz do poema "Dormire", de Ungaretti, publicado há alguns dias neste SP - teve a orientação do poeta Fernando Monteiro ! Obrigado, mestre Fernando, obrigado poetas Anne Guimarães e Lívio Oliveira. - Névoa
    • Nina Rizzi: "A capa já dá o tom da revista. Uma foto de Câmara Cascudo passeando de riquexó (uma espécie de carroça de duas rodas e movida a tração humana) em Moçambique, ao lado de uma pessoa não identificada. A foto - de autoria desconhecida - foi clicada em 1963, quando o folclorista estudava costumes e tradições africanos. As observações e anotações depois seriam o mote para o livro Made in África. A imagem foi cedida pela família. E a filha, Ana Maria Cascudo, escreve artigo contando as inúmeras viagens do pai, em um diálogo emblemático entre Natal e o estrangeiro." Viu, neguinho não existe não, ô rapá! - Tributo ao mar