Vida vadia

22 de janeiro de 2010 às 9:47 - Comentar
Por Denise Araújo

Embalada por O mundo é um moinho, de Cartola

“Te avisei que a vida é um vão”. A mãe sempre repetia isso. Queria alertar que a vida é curta. Mas embora sabendo que qualquer situação de desgaste é passageira, ela teve que sair de casa cedo. Sem certezas. Sem planos. Estava fatigada do pai, que a abusava. Procurava-a todo dia, toda hora. A infância passou rápida e suja. A adolescência veio como num porre, com gargalos de garrafa e bitucas de cigarro atiradas a esmo. O som era o de uma seresta mal arranjada. As horas perdiam em cor, até que veio o vácuo, quando ela desapercebeu qualquer céu, qualquer chão, então realmente foi chegada a hora de abandonar aquela casa de alvenaria. Pura miséria.

Depois da resolução, pouca coisa a amedronta. Não teme ruas vazias ou vielas escuras, pois ela também é o submundo. A vida na zona não é tão diferente da que levava com a família: privação, violência, abandono. E foi numa noite dessas que a música mudou. Foi quando no carro de mais um homem ela ouviu uma melodia diferente. Apesar da pouca embriaguez, pôde escutar: “Em cada esquina cai um pouco a tua vida/ e em pouco tempo não serás mais o que és” . Estarreceu. As músicas frívolas do seu dia a dia não consternavam aquela vida sem vida, aquela vida tão sua.

Quem nasceu na vala encara diferente todos os valores sociais. Qualquer alegria é festa. Qualquer vantagem é arrombo. Qualquer maleita é algo já sentido. Quem vem de baixo pode conformar-se com tudo. Pode também soterrar os poucos restos que restam, basta sonhar. Por isso ela não entende sonhos. Não sente saudades do passado nem espera alegre o futuro. Nada a escandaliza, nem ela mesma. Se é o corpo que prostitui, mais fácil a limpeza. Sabe que o movimento é inverso: o que ela faz não é desconcertante para a sociedade, o meio foi que a desconcertou. Sem nenhuma vida boa. Sem farsas aos de casa. Sem sorrisos aos cretinos. Sem o garbo que a grana solta traz. Sem nada. Só o aroma chinfrim da colônia tipo Patchouli a permeia.

Dizem que os corpos nunca esquecem que um dia se pertenceram. Isso para ela é mentira, pois só lembra que aquele homem era alto, tinha no toque das mãos o peso da surra e cheirava a mosto. Aquele mesmo do carro. Aquele da música que a fez chorar, pois resta-lhe esta falha nos nervos. São fracos, por isso a emoção vem fácil. Ao perguntar pela música ao homem, quase nada ouviu. Apenas balbúcios. Algo como Cartola. Algo como samba. Cantado devagar, preguiçoso. Com uma tristeza muito simpática. Nunca ouviu uma canção tão chorada, e uma admoestação cantada com tanta doçura. Nada no mundo vence a beleza daquele samba, pois naqueles minutos ela foi quase feliz. Sentiu-se levitar. Era agora passarinheira. Em mais um programa casual ela quase apagou. O samba bonito a deu vertigem. É ela que agora agoniza.

“ Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida…”

Sinto que minha vida ainda não começou. Há pouco ainda retirava as cascas das baratas nas duas meias do meu pai. Na falta de lugar, guardava-as em cima de uma taba. O solerte me expelia e me precisava. Em minha boca, o cuspe enojado era constante. Alguns acham que ainda tenho quinze anos.

“ … Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar…”

É só na miséria e na indigência que as relações verdadeiras aparecem. Ontem, minha família fazia em mim o serviço do verme atinente às carnes do cadáver fresco. Corroía, doía. Hoje, alguns acham que eu tenho AIDS; outros, porfíria; os demais, os dois. Tanto faz. Entre mim e o outro pode haver abismos bastantes, mas não na miséria da errância. Não sou como toda a gente que passa em gargalhadas. É tudo tão igual, parecido, que lembra um bloco. Pensamentos iguais, palavras iguais, movimentos iguais. É tudo tão tanto faz, que todos assemelham-se a porcos. Pensamentos tanto faz, palavras tanto faz, movimentos tanto faz. Diante de tantas regras, não passamos de seres domesticados pela sociedade. Quase animais de coleira guiados pelo intangível. Se transgrido as normas, o dever ser, o meu conviva também. Minha lascívia não supera a de ninguém. Somos todos filhos da culpa ou redimidos. As diferenças existentes são que meu ar não é solene, meu garbo não é nobre. A minha coisa é toda diferente das outras, pois enquanto planejam, eu angustio; enquanto negam o abismo, eu me abrigo nele com calor; enquanto só cuidam da aparência, eu sou verminose nesse meio hostil.

“… Preste atenção querida,
embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco a tua vida
e em pouco tempo não serás mais o que és…”

Ontem acordei com o desejo de morrer. Nada latejava, a não ser a alma. Dela emanava um choro feliz insano, assim meio confuso. Chorava com tanta força que as lágrimas fartas escoavam em cócegas no inteiro rosto acneico. Feito isso, logo um sorriso involuntário aparecia. E mais um dia começava. Desencorajado, por demais longo. As miudezas minhas podem fazer desconfiar. Podem até alardiar saber, mas as fomes do meu corpo e do meu eu só eu bem conheço. Podem mais uma vez duvidar, desconfiar do que sinto, mas música mais bonita que aquela ainda não ouvi. Agora ela até parece um espetáculo de fogos:

“… Ouça-me bem amor,
preste atenção, o mundo é um moinho.
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos.
Vai reduzir as ilusões a pó…”

Olho como quem toca. Toco como quem abre. Farejo como quem descobre, mas de nada adianta. Todos estão embriagados de si, ensimesmados. Em mim correm larvas de efusivo descontrole. O que poderia ter quisto para mim, não quis. O que poderia ter feito, também não fiz. Até o colorido dos meus penduricalhos já perdeu o furta-cor. A vida vadia arrastou comigo todas as náuseas. Os vômitos diuturnos, que até fazem bem, limpam o estômago. Neles, regurgito todas as amarguras da lua acesa, da vida, dos homens, de mim. Ao fim da noite, é como se explodisse nos espaços do meu corpo o tédio comprimido dentro daqueles ternos caros. Meus fluídos todos já curaram mais que elixir.

“ …Preste atenção, querida
De cada amor tu levarás só o cinismo…”

Sempre achei que os homens fossem feitos de nove partes de vaidade e uma parte de alguma outra coisa. Quando comecei na vida, tive a certeza disso. São vaidosos e alardiosos. Não acredito em alardes. Pessoas felizes não têm gritos. A quem for descuidado: cuidado. A solidão que por aí verseja não é menor que a minha. As mágoas nossas não acordam mais a um ou a outro.

“…Quando notares, estás à beira do abismo.
Abismo que cavastes com teus pés.”

O meu atrevimento é verdade. A minha tristeza é mero revide. Ambas, estratégias de comércio. Sem escândalos ou exclamações. O dinheiro pode comprar apartamentos, antiguidades ou uma mulher. Tenho o olhar morto, a boca encarnada e o corpo precário, por demais usado. Alguns fingem que não me veem, outros tratam-me como se tivesse cometido um latrocínio ou o pior dos desvios morais. Ao cabo de tudo, não há que se consternar, não há solução entre ninguém. Anoiteço meu fim como a cobra que morre ao ser atingida pela própria peçonha. Eis a vida vadia. Cartola cantou sem saber.

Ilustração: Pablo Picasso

Comentários fechados.

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    No bar
    08-02-2012 às 22:17 - 7 Comentários
    Por Jairo Lima

    Chegaste a mim não como lume
    Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
    E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
    E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

    Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

    E eu te vi.
    Te vi como se vê mares e dunas
    Como coisas que são sem oráculos nem seitas
    Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
    Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
    E parecia que contigo aquela noite estava feita

    Te vi coxas, riso, ombros e mãos
    Perdidos entre afago e maldição

    Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
    Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

    Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
    Se colam, se penetram, se invadem;
    Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
    Destruindo colheitas

    Aquela noite só prometia suores
    Conquistados a cada beijo
    Os latifúndios do desejo
    Eram cada vez maiores

    (———–)

    Vim de longe
    Em hora incerta
    Vim de lunas
    Vim de céus perfurados de estrelas
    Vim de amores submersos em dores e desfeitas
    Para que celebrasses a consagração bizarra
    Que faz a carne virar pão
    O sangue virar vinho
    E a cama virar mesa
    Onde a fome dispõe as suas facas
    Para cortar as carnes e sugar a seiva

    (—————–)

    ******

    Tácito, aqui vai um pequeno FAQ para explicar porque voltei a enviar poemas:
    1. Porque JL parou de mandar poemas para o SP?
    Não sei
    2. E porque voltou a envia-los agora.
    Sei lá.

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Anchieta: Obrigado, lerei e comentarei depois. - Ai Hay Hai
    • Fernando: Nossa, nunca li um artigo tão fraco como esse, nunca vi tantas falácias coligidas em um artigo de um abortista (não nos parece um jornalista, já que demonstra nada ter lido efetivamente sobre o aborto). Vejamo-las: 1) Aborto não é questão de controle populacional: mentira. Basta ver a origem da defesa do aborto nos EUA e basta ver quem financia o aborto ainda hoje. Para quem nada sabe do assunto, estudar a história das fundações Rockefeller, MacArthur e Ford pode ajudar. 2) Aborto é "direito reprodutivo". Direito??? Que absurdo! Além do absurdo, o termo maldosamente forjado para induzir a erro é incoerente: como pode um "direito reprodutivo" tirar uma vida? Ah, tem dúvida se é vida humana? Por favor, dá uma olhadinha aqui: abort67.com.uk 3) Ó loucura... "atendimento de qualidade" e "sem preconceito" do Estado para ajudar uma mulher a matar o próprio filho. Quanto amor, quanta bondade! Quer saber? Chega de ironia, falemos a verdade: que nojo, quanta hipocrisia! Por que não propor educação sexual para valorização da mulher, do corpo, do próprio sexo, ao invés de louvar o sexo irresponsável que gera vida e que deve terminar em assassinato "de qualidade" e "sem preconceito"? Repito, gritando: QUANTA HIPOCRISIA, QUANTA HIPOCRISIA ASSASSINA MENTIROSA travestida de luz. Típico de quem quer fazer o mal. 4) Ah, o velho conceito da luta de classes para transformar o assassinato de bebês em "questão de saúde pública": mulher rica aborta com segurança, mulher pobre aborta e morre. MENTIRA HORROROSA!! Uma simples consulta ao SUS desmistifica essa mentira. O aborto como causa de morte de mulheres está LONGE, MUITO LOOOOOOOOOOONGE de ser questão de saúde pública. Mas é claro que este abortista (jornalista? Não... já não resta dúvida) está mal informado, lendo pesquisas financiadas pelas ONGs abortistas que sabidamente MENTEM para jornalistas divulgando números falsos que eles irresponsavelmente repassam para pressionar a opinião pública. Deem uma olhadinha aqui (é só uma das evidências...): http://boletimfedf.blogspot.com/2011/03/os-controversos-numeros-do-aborto-e.html 5) Como é fácil ter opinião diferente sobre o feto quando você não foi abortado, né japonesinho? Que lindo que soa aos ouvidos menos instruídos "direito sobre o próprio corpo". Que sorte a sua que sua mamãe (e seu papai, coitado! Não o reduza a nada! Ele também quis que você viesse ao mundo... Como você pode tirar dele o direito de amar você?) - que sorte que ela não pensou como você!! Afinal, seu corpinho não era nada, não é? Era uma unha encravada da mamãe, não é? Se você tem dúvida sobre "que corpo" é mutilado, se o da mamãe ou o do bebê, recomendo novamente este videozinho instrutivo: abort67.com.uk 6) Ave, e o que dizer da tese - histérica - de que "religiosos estão se intrometendo na questão!!! O Estado é laico!!" Será que não existe um ateuzinho que não concorde com a matança de bebês? Acho que existem sim. Muitos. Mas é mais fácil ser ignorante (ou maldoso) e criar uma guerra religiosa. Abjeta, como aliás têm sido todos os supostos "argumentos" até aqui para defender a matança de bebês gerados irresponsavelmente. 7) E o autor - que por sinal demonstra ter um elevadíssimo autoconceito, um amor-próprio no mínimo... doentio, para usar um eufemismo - ainda tem o fingimento de se apresentar aos leitores como alguém que está preocupado com a dignidade alheia, quando se acha no direito de decidir quais dos mais novos membros da espécie humana devem ou não viver. Como é triste a cegueira humana! É surpreendente até que ponto alguém ensimesmado consegue perder a noção da realidade! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: É, Alex de Souza... "seus corpos" - abort67.com.uk - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • chico m guedes: coisas de Jairo eu sempre me pego lendo em voz alta; é quase táctil (quase?) - No bar
    • Daniel Menezes: Ótima reflexão. - Yoani Sánchez, a direita e a esquerda
    • Jairo Lima: Brigado, Nina, sou leitor atento e empolgado de tua poesia. - No bar
    • Anchieta Rolim: Marcos Silva, caso tenha interesse dê uma olhada nesse blog: araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com Um abraço! - Ai Hay Hai
    • Marcos Silva: Aprendi a sentir Anne como mais que irmã, pedaço de mim, essas coisas que uns e outros consideram sentimentais mas são apenas sentimentos que nos diferenciam dos computadores. Grande beijo. - Ai Hay Hai
    • Anchieta Rolim: Gostei muito da matéria. E pra quem interessar, segue o blog do meu amigo João Carlos Wisnesky que foi um dos guerrilheiros do Araguaia e que ainda continua sua luta para esclarecer esse fato histórico. araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com - À sombra da ditadura
    • Nina Rizzi: Gosto muito. E o meu gostar tem a pretensão dos desejos mais pungentes. Um beijo :) - No bar