Vilém Flusser, o poeta escondido

2 de setembro de 2010 às 10:03 - Comentar

Por José Castello
A Literatura na Poltrona

Nunca fui um leitor aplicado de Teoria Literária. Para pensar as ficções e poemas que leio, prefiro tomar distância em postos de observação mais distantes. Foi o que fiz há duas semanas quando, me preparando para uma palestra na UERJ, li A época brasileira de Vilém Flusser, da ensaísta checa Eva Batlickova (Anna Blume Editora).

Não sou, nunca fui, um leitor metódico. Em matéria de leitura, prefiro meu “método confuso”, inspirado em Fradique Mendes. A literatura me confere essa liberdade. Agarro-me a ela. O pensamento se assemelha ao cosmos. Se o prendemos em uma explicação, ou um sistema, quase tudo fica de fora.

Volto a Flusser. Nascido em 1920 e perseguido pelo nazismo, refugiou-se no Brasil, onde viveu entre 1941 e 1972. Aqui produziu parte importante de sua obra filosófica, objeto do estudo de Eva Batlickova. Logo pensei no livro de Eva quando Gustavo Bernardo me convidou para fazer uma palestra no “Flusser in Rio”, como ficou conhecido o seminário realizado semana passada na UERJ.

Ainda perguntei a meu amigo: “Tem certeza de que sou a pessoa certa para falar?” Gustavo estava convencido de que sim. “Não sou um leitor de filosofia, não sou um leitor sistemático”, argumentei. “Por isso eu o escolhi”, e encerrou a questão. Pensei: Flusser fala da poesia como uma espécie de sombra que escorre do pensamento. Eu representaria essa sombra. Seria alguém “não autorizado”, a falar desde o lado escuro do saber. Por que não?

A língua e as palavras estão no centro da filosofia de Vilém Flusser _ se é que devemos falar em uma filosofia, pois seu pensamento se afasta dos dogmas e flutua sobre o mundo com a leveza de um poema. Sim, Flusser, mesmo sendo filósofo, escreve como poeta, e é isso que o torna especial. Posso dizer assim: foi um pensador que não descartou a poesia. Ao contrário, dela fez seu método.

Sem saber por onde começar, tirei do livro de Eva Batlickova alguns pensamentos soltos que me interessavam. Que belo livro! Não: eu não o li com método, ou aplicação. Eu o li com a fúria e a liberdade que a literatura nos concede. Não fiz das ideias de Flusser um ponto de chegada, mas um ponto de partida. Um trampolim de onde me lancei. Exatamente como fazemos com os poemas e as ficções.

Flusser fala da limitação do conhecimento lógico (científico) diante do pluralismo e da complexidade do real. De que mais a literatura parte, senão da constatação de que só a liberdade interior e a fantasia nos dão acesso a zonas da experiência que, de outra forma, nos escapariam? A literatura diz aquilo que ninguém mais consegue dizer, afirma Flusser. A poesia diz o indizível. Diz o que só ela pode dizer. Não é superior, nem inferior, a outras formas de saber. Mas avança em um caminho solitário, onde mais ninguém ousa pisar.

Fala Flusser, ainda, da instabilidade dramática dos significados, diante da qual os grandes sistemas científicos e filosóficos sempre vacilam. A poesia, em vez disso, se alimenta dessa instabilidade. Quando alguém escreve um poema, ou uma ficção, escreve para tirar partido dessa inconstância. Não deseja ordená-la, detê-la, ou vencê-la. Como alguém que chega ao oceano e, sem pensar, se atira entre as ondas, o escritor deseja apenas jogar-se no que desconhece. Mergulha, para o que der e vier _ e isso é a literatura.

Diz Flusser, ainda, que o Nada está no centro do homem. Diz mais: o Nada é uma fenda pela qual o mundo surge. Escrever é acessar coisas que não existem, mas podem existir. Por isso, escritores conhecem a necessidade imperiosa de habitar o território da “coisa alguma”. De partir do zero absoluto, sem se importar com as influências, os temores, os princípios a que todos nos apegamos. Ainda que eles continuem a infernizá-lo. O escritor age “como se” estivesse sozinho _ mesmo sabendo que uma grande zoeira o cerca. Desse “como se”, enfim, alguma coisa se faz. E se faz em palavras.

O escritor vaga pela escuridão _ pois o limite da lógica, insiste Flusser, e é isso o que interessa a um escritor, está no indizível. É justamente aí, onde nada se pode ver além de sombras, onde nada mais se ouve além de murmúrios, que o escritor caminha. O objeto da literatura, dizia Clarice Lispector, não é a palavra, mas o que escapa à palavra. Como jamais chegamos ao que nos escapa, ficamos com as palavras mesmo _ e é assim que os livros se escrevem.

Escritores conhecem bem o sentimento de insuficiência que o trato da língua desperta. Por isso “G.H.”, a grande personagem de Clarice, prova (leva à boca) a gosma branca que escorre de uma barata agonizante (o Nada). A experiência insuportável ainda não basta. No entanto, ela é tudo o que alguém pode ter. Escritores desejam ultrapassar a escrita, mas não conseguem, e então se contentam com as palavras.

Por isso, diz Flusser ainda, toda exteriorização (todo ato civilizado) é uma “realidade ultrapassada”. Você tenta fazer, acaba fazendo _ mas quando enfim faz, já não é suficiente. Já não tem mais o que desejava ter. Somos lentos, custamos a nos aproximar das coisas. Quando enfim conseguimos _ como as luzes de estrelas mortas que divisamos no céu _, já chegamos ao passado. A literatura busca o indizível, mas fica com as cinzas e os restos. Só pode, como “G. H.”, provar da gosma.

Ainda assim, afirma Flusser, a língua é uma espécie de gerador do futuro. Mesmo frágil, ela é um instrumento de expansão da realidade. Diante de uma porta fechada, a religião se ajoelha e reza. Diante da mesma porta, a ciência força e empurra. Já a literatura simplesmente ignora a porta que bloqueia seu caminho. E faz dessa ignorância a sua libertação.

Lamenta Flusser que a grande conversação ocidental tenha abandonado a intuição poética. Que em nosso mundo, pragmático e duro, não sobre mais espaço para a gratuidade da poesia. Gratuidade, ou disponibilidade? A matéria da poesia é o desconhecimento. Poetas cheios de planos e de preceitos podem ser tudo, menos poetas. O poeta é um homem disponível. Um homem que se oferece. Se escreve, é porque nada mais pode fazer.

Eva Batlickova me deu de presente um exemplar de Bodenlos, a autobiografia filosófica de Flusser. Limitou-se a dizer: “Você vai gostar”. No hall da UERJ, tomamos um longo café e conversamos. Eva me explicou, então, que, em sua autobiografia, Flusser quase não fala de si. Na verdade, faz uma autobiografia dos diálogos que teve ao longo da vida. Uma espécie de autobiografia dos outros. Escutar o outro: eis a postura do poeta. Mesmo daqueles que, como Flusser, preferem se esconder.

Postar Comentário

AGENDA

  • Pinacoteca está com Edital aberto para ocupação das Salas de Exposições

    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

    mais informações »

  • Rede Cinemark exibe direto de Londres a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House

    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

    mais informações »

  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente