Villasanti mãos de tesoura

12 de janeiro de 2010 às 17:16 - Comentar
Por Rodrigo Levino

O universo canino já tem o seu Jean Louis David

Em uma hora, vinte minutos e cerca de 15 mil tesouradas, Sergio Villasanti torna apto a concursos de estética qualquer bichon frisé. É a sua raça de cão preferida para a tosa.

Aos 45 anos, Villasanti é dono da República dos Cães, escola e pet-shop que fundou há quinze anos em Campinas, onde, segundo seus cálculos, já formou mais de 4 mil tosadores, incluindo pupilos ingleses e australianos. Este ano, ele viajou para os Estados Unidos, Colômbia e Peru, convidado para ser palestrante ou jurado em concursos de beleza canina. As hospedagens, “em hotéis caríssimos, com jantares tão finos que dão saudade do meu arroz com feijão, em casa”, contrastam com a penúria do início da carreira, em 1979.

Villasanti tinha 14 anos e um emprego de auxiliar no pet-shop Cão Amigo quando foi apresentado ao universo da tosa canina. A iniciativa partira de uma cliente holandesa, que exigia ver seus poodles tosados no mesmo molde que se costumava usar nas ruas de Amsterdã. “Um trauma, um trauma”, Villasanti lembra, fechando os olhos e meneando a cabeça, como se quisesse tirar da mente a imagem dos cãezinhos quase escalpelados, tamanha a virulência com que a holandesa os tratava. Embora ainda tivesse pouco conhecimento do ofício, decidiu, ali, que primaria por cortes mais artísticos – o universo canino precisava de seu próprio Jean Louis David.

A iluminação veio aos 17 anos, quando, ao passar por um sebo, Villasanti comprou o livro Poodle Clipping and Grooming (algo como Tosando e Embelezando Poodles), publicação considerada a bíblia do ramo. A maior dificuldade foi traduzir o texto usando um dicionário escolar. Como não falasse outra língua que não o português, Villasanti se viu obrigado a observar cada fotografia com olhar cirúrgico. Memorizou as imagens de poodles com pompons no rabo, nas orelhas, nas patas, na franja e, com uma tesoura em mãos, passou a repeti-las nos cães da vizinhança (que, muito provavelmente, passaram a ser ridicularizados pela máfia de vira-latas, dobermanns e buldogues de pelo curto).

“Nessa época, era um horror”, lembra o tosador, explicando os motivos: “Tesoura, máquina, secador, pente, xampu – só tinha de uso humano. Um atraso, como quase tudo nesse país.” A situação começou a mudar nos anos 90, com a abertura implementada pelo governo Collor ao mercado de produtos importados. Foi o momento que Villasanti escolheu para abrir seu primeiro pet-shop. Chamava-se República dos Cães, como o atual.

A empreitada durou pouco. Em 1992, Villasanti foi estudar na Kitty Saloon, respeitada escola de tosa da Bélgica. Acabou contratado e, na condição de instrutor, amealhou o primeiro lugar no Best in Show Junior, concurso para tosadores profissionais que acontece todos os anos na Bélgica. Venceu 15 mil cães com o bichon frisé de uma vizinha, num ginásio apinhado de gente. “Foi lindo”, diz, com os olhos marejados. “Mas um dia a gente cansa da Europa, né?” Cansou, voltou e reabriu a República dos Cães.

Do primeiro concurso até hoje já são mais de 100 participações em competições. Os doze prêmios que acumulou nesse período renderam a Villasanti um convite do Ministério do Trabalho, em 2002, junto com seis outros colegas, para definir a profissão de “tosador de animais domésticos” na Classificação Brasileira de Ocupações. A redação diz: “Tosam, banham e enfeitam animais. Limpam ouvidos, dentes e olhos de animais.”

“Cada um de vocês, quando for comprar uma tevê nas Casas Bahia e preencher o crediário, pode dizer com orgulho, graças também a mim, que a profissão é tosador“, diz Villasanti aos alunos, durante uma aula de banho e tosa em seu pet-shop. O curso dura de dez a quinze dias e custa 800 reais, com carga horária de sete horas por dia. Para as demonstrações práticas, Villasanti usa sempre um poodle rosa (espécie de ovo rosa de botequim do universo canino). Já os alunos são obrigados a levar apenas lápis e papel. Tesoura, máquina e cães são cedidos pelo curso, que os arrebanha em canis da cidade. “Ele é muito famoso lá fora. Acho que vai valer à pena”, justifica o carioca Raimundo Souza, enquanto segura um cocker spaniel. Os alunos sonham dominar a técnica de Villasanti, que além de oitenta raças de cães, aprendeu a tosar gatos, ovelhas e cavalos.

Em abril de 2010, Villasanti poderá ver o conjunto de sua obra galardoado no The Red Carpet Show, o maior encontro internacional de tosadores, nos Estados Unidos. Ele concorre na categoria “Melhor Tosador Profissional Estrangeiro”. Diz-se merecedor do prêmio. “É natural que anos de esforço e dedicação findem em reconhecimento, embora isso eu já desfrute mundo afora. Seria, no caso, uma ratificação”, diz impudico. Se trouxer a comenda para casa, promete fazer uma tosa especial em seus vinte cachorros, “pois eu sou o que sou graças a cada um deles, né?” (Texto publicado na Piauí de janeiro 2010)

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    NAN GOLDIN
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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente