Violência e ocaso do western em Monte Hellman

Marcos Aurélio Felipe
AudiovisualDestaque

Um dos outside do cinema americano, Monte Hellman começou a realizar filmes no final da década de 50 e continua até hoje com brilho e sem concessões.

Três westerns do diretor americano Monte Hellman são marcantes.

Em A Vingança de um Pistoleiro (Ride in the Whirlwind, 1966), três cowboys chegam a encruzilhada dos seus destinos: uma cabana no meio do nada com um grupo de ladrões de beira-de-estrada enclausurados – de onde nem todos sairão ilesos, inteiros e sem marcas no corpo e na alma. Aqui Hellman faz um filme de perseguição implacável e fuga desesperada, com corpos que quedam em cada uma das paradas ou esquinas da vida – pois o risco de morte é sempre iminente.

Em Disparo para Matar (The Shooting, 1966), que no Brasil recebeu como segundo título O Tiro Certo, Monte Hellman explora o western de mistério em uma narrativa de travessia – a partir de personagens que entram em um contexto insólito de deslocamento, que envolve dois amigos e a jovem misteriosa que os contrata para chegarem em alguma cidade do Velho Oeste. O percurso será caro para todos eles e para os que aparecerem no meio do caminho. Atrás, marcas da crueldade vão se acumulando (o sujeito abandonado com a perna quebrada no meio do nada). À frente, o desconhecido, o que não vemos, nem sabemos.

Em A Volta do Pistoleiro (China 9, Liberty 37, 1978), um western crepuscular realizado no final da década de 70 cujo título original em italiano ficou Amore, Piombo e Furore. Nesse filme, Monte Hellman, na primeira parte, coloca dois pistoleiros rápidos no gatilho lado a lado; e desenvolve, nas sequências finais, um ensaio de confronto, quando os coloca frente a frente para o embate final. Aqui Hellman faz um filme de espera e perseguição e, ao mesmo tempo, de reconciliação e renascimento. Um western que, de certo modo, dá adeus, com o brilho das canções folk em cena, com o espetáculo circense e os códigos humanos que ainda restam preservados.

Nesses três western realizados entre as décadas de 60 e 70, o diretor americano Monte Hellman, curiosamente, trabalha com os mesmos atores (Jack Nicholson, Millie Perkins, Warren Oates), mas não com todos ao mesmo tempo e em todos os filmes. A mesma atriz (Millie Perkins) de A Vingança de um Pistoleiro, cuja personagem que interpreta vive com os pais no rancho onde chegam os amigos em fuga (incorporados por Cameron Mitchell e Jack Nicholson), interpreta a personagem enigmática e vingativa de Disparo para Matar. Há traços de silêncios e dissimulação que percorrem os rostos e expressões de ambas.

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O ainda jovem Jack Nicholson, além de produtor dos dois primeiros filmes, participa também como ator de ambos. Interpreta, respectivamente, o jovem cowboy Wes, que repete o tempo todo que fará de tudo para não terminar pendurado em uma árvore – como os que encontra no meio do caminho; e o pistoleiro misterioso Billy Spear, capaz de disparar a sangue frio, como faz próximo do final. Já Warren Oates faz o matador de recompensas aposentado Willett Gashade – em Disparo para Matar – e, doze anos depois, o rancheiro Matthew Sebanek – em A Volta do Pistoleiro. (Oates veio a trabalhar em outros filmes de Hellman: Corrida sem Fim, 1971 (o mais conhecido dos filmes do diretor), e Galo de Briga, 1974).

De certa forma, ao olharmos cada um destes atores de um filme a outro, é como se houvesse a continuidade dos personagens em um percurso de atuação e transformação de personalidade. Sobretudo em relação as personagens interpretadas pela atriz Millie Perkins, pois, de certo modo, em Disparo para Matar, ela continua – com a fúria da vingança – a jovem Abigail: a filha do rancheiro assassinado em A Vingança de um Pistoleiro. Uma estranha sem nome, que aparece do nada no alto da mina após um corte da montagem produzir, em quadro, um instante de fantasmagoria – como que flertando com os personagens do cinema de horror. Sua presença em cena torna tudo um grande enigma.

Em cada um desses três filmes, do mais brutal ao menos tenso, do mais direto ao mais saudosista, o Velho Oeste, indócil, violento e bem distante da terra da promissão, aparece com todo o seu fatalismo – um pouco menos em A Volta do Pistoleiro e, significativamente, um pouco mais em Disparo para Matar. Em todos eles, o diretor Monte Hellman com as tintas da desesperança desenha destinos e a ruína de cada vida em quadro – sendo que, em poucos casos, cabe tão somente a partida para algum lugar em busca de sobrevivência, como sentimos no galopar do personagem de Nichols a olhar para o horizonte e seus infinitos de possibilidades a sua frente.

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Em A Vingança de um Pistoleiro, três cowboys inocentes são, por engano, postos diante da fatalidade. Já estava visível em quadro, desde o início, com aqueles corpos pendurados em árvores, o cerco sem trégua, emboscadas e a cabana carbonizada (com pessoas dentro – mortas ou feridas, mas pelo menos uma ainda estava com vida). Não haveria escapatória, o destino ali ja estava traçado, mesmo para quem não vivia fora da lei e estava apenas de passagem querendo ficar na cidade seguinte para encontrar suas raízes. Estes foram os primeiros a morrerem, sem que, nem mesmo, pudessem montar o cavalo.

Em Disparo para Matar, a que considero a obra-prima dos seis filmes que conheço do diretor, Monte Hellman nos coloca diante de personagens misteriosos (sem nomes e capazes de tudo, sem outro objetivo que não seja o intento de fazer o outro sucumbir – em um percurso quase impossível de alcança sua finalidade). Todos eles participam de uma travessia condenatória (na qual não se tem certeza alguma, a não ser a que, pouco a pouco, vai se formando aos nossos olhos) e de um final enigmático (como se o guia estivesse em busca do pagamento de suas dívidas de sangue). Hellman compõe aqui geografias insólitas e, dissertando com imagens sobre o duplo, personagens espelhados e que nos surpreendem.

Em A Volta do Pistoleiro, com a singela participação de Sam Peckinpah fazendo o novelista que divulga as lendas do Oeste na região Leste dos Estados Unidos da América, Monte Hellman escreve uma partitura celebratória ao gênero – especialmente, na sequência, que antecede a partida e o rancho em chamas, emulando o duelo clássico do western, mas sem corpos ao chão, com um desfecho não tanto improvável, pois Clayton Drumm já tinha dado demonstração que ali um gênero estava dando adeus. (É mágico quando, em traveling, a câmera enquadra Clayton e Matt que, coreograficamente, posicionam-se para o duelo final – bem como os closes de olhos, coldres e mãos que colocam toda a tensão no ar).

Nestas obras, o tempo e o espaço são duas instâncias definidoras da dimensão humana e da imagem. O diretor Monte Hellman cria situações que, invariavelmente, colocam os personagens em contextos de espera, aguardando certos desfechos, que determinados fatos se consolidem ou se dissolvam, estendam-se ou se ampliem: tempos diversos e durações variáveis – em uma única cena, mas, às vezes, em um conjunto de sequências, ou, como em Disparo para Matar, no filme por inteiro (ou, especificamente, quando os personagens começam o percurso por aquelas geografias áridas com o sol as vezes gráfico pontuando o deslocamento).

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Em A Vingança de um Pistoleiro, ao dominarem o rancheiro, os amigos Wes (Nicholson) e Vern (Mitchell) esperam as horas passarem. Enclausurados naquela cabana minúscula, comem, conversam, olham e monitoram pela janela (enquadramento) os vigilantes e o dono do rancho. Tentam dormir, mas impossível naquela situação em que o próximo minuto pode ser o último. O tempo de espera e de angustia é diferente para cada um dos dois amigos, que acompanham pela batida do machado na lenha o velho a simular um ambiente de tranquilidade. Para os dois fugitivos, a ampulheta das horas soa diversa e o som do machado (produzido fora de campo) também ecoa em todos nós que estamos fora da cabana.

Em Disparo para Matar, a travessia daquela geografia desértica e árida, no final, derrota cada um dos personagens – na emblemática cena final com o personagem de Nicholson como um ponto no quadro a se arrastar, ainda, por cima, com as mãos quebradas e sem poder empunhar seu revólver. Sob um percurso que se dilata no tempo, os personagens de Oates e Perkins vivem seus intervalos e particularidades interiores. É uma espera sem fim, com seus movimentos abruptos e pausas – igual e paradoxalmente, enclausurados, naquele deserto sem água e piedade. Impressionante como um percurso improvável tenha chegado ao seu fim e alcançado seu intento.

Em A Volta do Pistoleiro, especialmente na primeira parte, em que o jovem matador Clayton Drumm chega ao rancho de Matt Sebaneck para matá-lo, o diretor Monte Hellman desenvolve aqui uma situação fora da curva – sobretudo porque acompanhamos um conjunto de sequências que envolve alguém que recebe em sua casa o sujeito que tirará a sua vida. E o personagem de Oates sabe disso desde o início (e, por um momento, mas nos pareceu que para sempre, a sua esposa). O tempo aqui se torna infindável, sem peso e medida, sem sabermos no que resultaria – tempo particular e individual de cada um dos personagens.

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Marcos Aurélio Felipe

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