Música

Você seguiria conselhos de Rita Lee?

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A roqueira Rita Lee é reconhecida pela irreverência e controvérsias. Honesta, sempre se posiciona e, por vezes, atrai inimizades.

Já foi presa em 1976, acusada de portar de maconha, e em 2012, por desacato à autoridade policial durante show em Aracaju.

A esse histórico somam-se composições pop primorosas que caíram no gosto popular de várias gerações.

Para muitos, Rita Lee não representa uma fonte de aconselhamento, como a própria reconhece:

“Nunca fui um bom exemplo, mas sirvo de aviso”. Porém, sua música, que perdura cinco décadas, continua cativa nos corações.

Que papel tem essas canções nas vidas de quem as ouvem? Será que suas letras oferecem consolo ou conselho?

Com essas questões em mente, entrevistei alguns de seus seguidores musicais para minha pesquisa de doutorado sobre a influência da música na nossa psique.

O resultado foi publicado na tese Music as a vehicle for self-transformation, em 2010, pela California Institute of Integral Studies, em San Francisco.

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Imprensa e colegas de Mutantes levam cacetadas em sua autobiografia recém-lançada; Rita hoje mora no campo

A música na psique

O estudo de caso foi fundamentado no aspecto terapêutico da música e ofereceu alguma luz sobre a força que ela traz às nossas vidas, especificamente as canções da roqueira-mor.

Tanto canções mais populares, quanto as mais desconhecidas, se fizeram presentes no relato dos entrevistados.

Para eles, a música serve como um veículo seguro para auto-exploração psicológica. Dessa interação com as canções surgem alguns frutos.

Os entrevistados também relataram que um dos pontos altos da sua música é sua capacidade de combinar polos emocionais (drama com humor), letras que tocam em assuntos sérios com melodia leve e ritmo dançante, e vozes suaves e reconfortantes.

Os mesmos mencionaram que encontraram na música de Rita um apoio no fortalecimento da identidade, facilitando uma auto-aceitação (Ovelha Negra, Dançar pra não dançar).

Também perceberam a influência dessa música na visão de questões sociais, através de questionamento de valores tradicionais (Alô, Alô Marciano e Obrigado Não) e uma influência na visão espiritual, ao questionar dogmas religiosos e o valor das coisas materiais (Nem luxo, nem lixo, Tudo vira Bosta).

De forma geral, relatam insights sobre si através de certas canções (Zona Zen, Corre-Corre).

rita-lee_capaLetra e psicologia

Sendo assim, de que forma a música da roqueira facilita experiências tão significativas? De que modo canções como Ovelha Negra facilitam uma auto-aceitação em quem as escuta?

A chave parece estar na experiência de segurança psicológica e na identificação com as letras.

A maneira despretensiosa e humorada que transparece nas canções de Rita Lee, mesmo quando lidam com assuntos difíceis, oferecem uma maneira segura de convidar ouvintes a visitar lugares vulneráveis em si próprios.

Sentindo-se seguros e identificados com as letras, os ouvintes são guiados pela narrativa das canções. Nesta interação, as fronteiras entre o sujeito da letra e o ouvinte da canção se diluem.

Eles se tornam um só e, à medida que escutam a música, refletem sobre si próprios, ao fazerem contato com emoções, obtendo insights sobre situações ou condições e, até mesmo, se motivam a mudar suas vidas.

rita-lee_5Um dos entrevistados, a poetisa Marta, menciona que a canção Corre-Corre serviu de espelho, em que viu aspectos pessoais que evitava enxergar.

Assim como na letra, ela se via correndo o ano inteiro, batalhando, sem recompensa financeira que justificasse tanto esforço. Ela previa a mesma rotina no próximo ano, e teria que manter um sorriso no rosto, apesar de tudo.

Muitas vezes a canção Corre-Corre despertou tristeza em Marta, ao espelhar sua frustração com a vida. Porém a tristeza era balanceada pelo humor da letra e pela leveza da melodia.

Marta destacou a mensagem de alerta da música: “Olhe para este aspecto de sua vida”. Ela obteve insights e se motivou a realizar as mudanças pessoais necessárias.

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Rita Lee – Uma autobiografia foi lançada este mês pela Globo Livros (352pgs)

É possível afirmar que a humanidade de Rita Lee, com seus altos e baixos, transparece nas letras e ressoa nos corações de quem as escuta.

Despretensiosa e, ironicamente, se colocando como aviso, a compositora abre a porta para curiosos embarcarem em mergulhos existenciais, em viagens entre dores e prazeres, à medida em que se sentem convidados a entrar em contato com o corpo e com a liberdade de ser.

E esta é a grande força de sua música!

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Joseh Garcia

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