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Você tem medo de quê?

Márcio Benjamin_Você tem medo de quê

Como posso falar de amor e beijo quando a gente tá mergulhado até o pescoço em uma distopia tupiniquim, com uma milí­cia partidária que decide o que é arte e a sombra da religião anda engolindo a alma de nossas crianças?

Não raro, em conversas informais em mesas de bar ou em palestras com todo o tipo de pessoas, sou questionado: e afinal, por que histórias de terror?

Resistindo à  tentação de responder: “e por que não?”, sob pena de sepultar a discussão para sempre, ou mesmo entrar em um looping retórico, me sirvo de mais um copo de cerveja, e em um estalar de lábios, respondo:

“Estamos vivendo o terror”.

Antes que a pessoa bem em frente tome fôlego e me questione novamente, argumento que acredito que a função do artista, seja ele de que estilo for, é refletir o seu entorno. A sua atualidade.

E não apenas refletir, digo; mas também, e sobretudo, questionar.

E quando digo questionar, ainda entendo que esse questionamento não precisa ser direto, literal, mas pode vir fantasiado de uma tétrica alegoria.

Não sei se você notou, mas o mundo anda afundando. Afundando em preconceito, em maldade.

O mundo anda imergindo em uma letargia irresponsável, e a gente tá caminhando lentamente pra um abismo infinito, enquanto trocamos farpas, acusações e agressões.

Quem tem pouco mais do que um par de anos sobre essa Terra já percebe que, às vezes, simplesmente as coisas não dão certo: algo muito ruim acontece à  pessoas boas e algumas situações não tem solução. É isso, e fim.

Ao contrário do que aquela apresentadora disse, querer nem sempre é poder, e muito menos conseguir. E não é porque você não reza, ou não dá esmola. Não mesmo.

“Pessimista? Sei não”.

Márcio Benjamin_Você tem medo de quê.2Terror é o rock and roll da literatura

A literatura de terror sabe disso faz é tempo. E desde que começou prefere ser o parente bêbado inconveniente, que os primos não convidaram pra festa de Natal. Prefere mexer no animal morto e, olho no olho, falar ao paciente o resultado do exame. Positivo, eu sinto muito.

O terror estava lá, desde quando Jesus expulsou o demônio e o fez possuir uma vara de porcos, que se perdeu dentro do mar; ou quando a criatura do Dr. Frankenstein tentou se comunicar conosco e não o deixamos falar por conta da sua aparência, obrigando-o a se esconder.

Desses tempos até hoje, esse sentimento permanece vivo e pulsante, como sendo um coração arrancado, e, disfarçado de azia, se aninha dentro do nosso peito, se pendura em nosso pescoço como o fantasma daquele filme coreano. Lembra?

O terror, costumo dizer, é o rock and roll da literatura, e é ainda parte viva de todo ser humano. E precisa ser discutido, mostrado, ouvido.

“Olhe agora não.”

A função do artista é refletir o seu entorno. Como é que eu posso falar de amor e beijo quando a gente tá mergulhado até o pescoço em uma distopia tupiniquim de baixo orçamento, onde um presidente compra voto com dinheiro público, uma milí­cia partidária decide o que é arte e a sombra da religião anda engolindo a alma de nossas crianças?

Não é pessimismo, talvez um pouco de pragmatismo, mas é preciso ver as coisas como elas são. É preciso discutir, pensar refletir, e lidar com a realidade, por mais dura que ela possa parecer.

“Tem um cara chegando atrás de você armado. Se vire não!”

“O quê…?”

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Comentários

3 comments

  1. Liana Batista 4 outubro, 2017 at 22:37

    Acabei de vir de uma discussão sobre “Persépolis” da Marjane Sartrapi e uma das questões pontuadas pelo grupo foi a estupefação de constatar que o Irã pouco antes da “Revolução Cultural” tinha muito muito mais a ver conosco do que poderíamos imaginar. O fundamentalismo religioso e a patrulha ideológica transformaram o país no horror que hoje se encontra e concordamos que – mais do que qualquer tipo de alívio que possamos sentir no contraste – a velha ideia de valorizar o que temos observando o que é negado a outros – a experiência iraniana nos alerta para a necessidade de uma vigilância eterna: nenhum direito é certo, nada está garantido. Avançamos em uma área, entramos na arca em outra. Podemos perder os valores democráticos que tão duramente conquistamos em um piscar de olhos. Basta desviar os olhos quando a dita “intolerância” descamba para o protofascismo normalizado que vemos crescer no Brasil. Foram 21 anos, meus amigos, foi ontem e parece que não aprendemos nada.

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