Voltas sem volta no tempo

15 de outubro de 2009 às 11:11 - Comentar
Por Carmen Vasconcelos

“Nosso futuro é tão irrevogável quanto o rígido ontem”
Jorge Luis Borges

Foi o astrônomo na televisão: “olhamos no céu o passado. Essas luzes ocorreram há milhares de anos (ou anos-luz, como queiram) e só agora estão chegando até nós”. E eu pensava no céu como futuro… Não, como eternidade. Eu aprendi isto: a olhar para o céu e enxergar o porvir. Já o Italo Calvino, nas suas “Cidades Invisíveis”, dizia: o passado, podemos modificá-lo, mudando a nossa visão dele.

Deve ser por essas coisas que a teoria da relatividade de Einstein nos fascina tanto, nos assombra tão além do seu valor científico. Gostamos de pensar num tempo rotativo, circular, como o nosso mais íntimo desejo de eternidade.

Desejamos a eternidade na forma de um céu estrelado. E no entanto… Somos escancaradamente finitos. De circular temos apenas que as nossas escolhas passadas sempre voltam, de um modo ou de outro. Elas são o nosso futuro, acontecendo agora. Isso é o nosso tempo. Temos de lidar com as nossas escolhas passadas durante todo o nosso tempo. Mudá-las, podemos, mudando a nossa relação com elas, como queria Calvino. Podemos também afirmá-las e reafirmá-las, ou porque elas foram frutos de grandes acertos, ou então porque perdemos a chance de acertar.

Só que o tempo, linear ou circular, ele se rompe na finitude, quando menos esperamos. Somos finitos, sim. E escandalosamente frágeis. É a nossa fragilidade o que temos de irrevogável, Jorge Luis. A tua, a minha, a de todos a quem pensamos eternos. Há pessoas que, parece, não se acabarão nunca. Há pessoas que, quando morrem, nos espantam, até nos agridem com essa exposição de finitude. E essa sensação não tem a ver com o grau de proximidade ou com o sentimento que nutrimos por elas. Podemos amá-las muito, ou amá-las pouco, ou detestá-las, ou apenas conviver com a sua existência. Essa sensação, concretizada com o choque, tem a ver com o não esperar. Não esperamos nunca certas mortes.

Existem mortes inacreditáveis para cada um de nós. E essas, só o tempo fará com que acreditemos que elas existiram. E, no entanto, elas ocorreram há anos-luz do momento no qual as admitimos. Quando conseguimos contemplá-las, encará-las, aceitá-las, elas são já passadas, feito as luzes do astrônomo que tirou a minha ilusão de pensar no céu como futuro e eternidade. Podemos mudá-las, mudar as mortes, Calvino? O passado pode ser mudado, mas… E a morte? Mudando nosso pensamento sobre ela, podemos mudá-la, ou é ela a encarnação (ou o desencarnar) do rígido e irrevogável ontem de que fala Borges?

Só temos a posse do presente, e quando a temos. Por isso, eu, uma pessoa ardorosamente crente nessa entidade chamada destino, tenho para mim um pensamento, que repasso a vocês “como princípio e também como fim de toda metafísica”*: façamos de um tudo para ser íntimos do nosso destino, tão íntimos, a ponto de nos confundirmos com ele, porque a morte, num piscar de olhos, dele nos separa.

* verso de Walt Whitman

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AGENDA

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    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

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    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente