Geral

Vozes sensíveis

É justamente o novo e o inusitado que buscamos nos livros: a delícia de nos levar a vidas que nunca vivemos, sensações que nunca tivemos

Sempre leio vários livros ao mesmo tempo. A depender do clima, do meu humor, do tempo disponível para leitura, um romance ganha vantagem sobre outro e avança muitas páginas, enquanto outros se estendem por meses — ou porque não me conquistam ou porque prefiro degustá-los aos poucos. Há cerca de um mês, peguei para ler “Reparação” (ed. Companhia das Letras), de Ian McEwan. Já li quase todos os livros do autor inglês, fico entusiasmado quando um lançamento dele é anunciado e, conforme mergulho na história, sempre me impressiono com a facilidade com que McEwan pinta cenários, personalidades e nuances em sua escrita minuciosa.

Por algum motivo, nunca havia pegado para ler este “Reparação”, um de seus romances mais famosos, com semelhanças interessantes com a obra “Pelos olhos de Maisie”, um dos meus livros favoritos de Henry James. Isto porque, em “Reparação”, acompanhamos boa parte da história sob a ótica de Briony, uma menina com pretensões artísticas, ego inflado e imaginação farta. Sem dúvida, é este o aspecto mais interessante do romance, que tenho demorado para ler só para saborear cada linha: enxergar o mundo a partir da visão de Briony, que amadurece conforme entende o mundo de sedução dos adultos.

Escritor inglês Ian McEwan

Após ver fracassar a peça teatral que pretendia encenar com os primos, Briony é atormentada pelo seguinte pensamento: “Seriam todas as demais pessoas realmente tão vivas quanto ela? Por exemplo, seria sua irmã realmente importante para si própria, tão valiosa para ela mesma quanto Briony era? Ser Cecília seria uma coisa tão intensa quanto ser Briony? Se a resposta fosse sim, então o mundo, o mundo social, era insuportavelmente complicado, dois bilhões de vozes, os pensamentos de todo mundo a se debater, todos com igual importância, investindo tanto na vida quanto os outros, cada um se achando único, quando ninguém era único. Era possível afogar-se naquele mar de irrelevância”.

Este trecho me marcou de modo especial: é tão humano! Voltei a pensar nele na semana passada, quando uma polêmica (boba, a meu ver) acerca do leitor sensível contratado por editoras circulou nas redes sociais. Logo pensei na outra via, vale dizer, na importância de romances com uma “voz sensível” — histórias protagonizadas ou narradas por minorias, com visões que pouco conhecemos na literatura quando comparadas com a do tradicional homem branco. Afinal, como Briony acaba descobrindo, somos todos igualmente vivos, complexos e importantes.

É muito bom que mais vozes sensíveis — e raras — conquistem seu merecido lugar na literatura. Afinal, é justamente o novo e o inusitado que buscamos nos livros: a delícia de nos levar a vidas que nunca vivemos, sensações que nunca tivemos — por algumas páginas, somos o outro, pensamos como o outro, entendemos o outro e conhecemos sua verdade, sua essência. Nunca fui ao Japão medieval, mas consigo imaginar (sentir) como era; nunca persegui um serial killer, mas conheço como é a adrenalina de persegui-lo; não nasci no morro, mas posso ao menos buscar entender a lógica de quem nasceu ao ler Cidade de Deus; nunca fui uma menininha na sociedade inglesa da Segunda Guerra Mundial, mas graças ao (livro) “Reparação” imagino como seja. Nas últimas décadas, já demos alguns passos nesse sentido: basta pensar na ótima literatura produzida nas periferias ou na voz inédita de personagens transexuais, por exemplo. Ao mesmo tempo, tenho a certeza de que o caminho ainda é longo.

Por fim, para coroar a pertinência das vozes sensíveis, uma menção e uma indicação. Ainda não li “A guerra não tem rosto de mulher”, livro no qual a autora Svetlana Aleksiévitch, prêmio Nobel de Literatura, coleciona depoimentos de 200 mulheres, abordando a massiva participação feminina durante a Segunda Guerra Mundial, no Exército Vermelho, mas tive a feliz oportunidade de assistir ao espetáculo homônimo, que está em cartaz no Teatro Poeira. A adaptação, dirigida por Marcello Bosschar, privilegia a ótima atuação das atrizes Carolyna Aguiar, Luísa Thiré e Priscila Rozembaum, que apresentam cerca de quarenta depoimentos de mulheres lutando na guerra, perdendo parentes, paquerando coronéis, sonhando e vivendo. Achei especialmente brilhante a ausência de referências à Segunda Guerra Mundial, deixando o caos suspenso no tempo e no espaço. É de chorar de emoção, de sutileza, de dor e — por que não? — de graça. Afinal, mesmo na guerra, aprendemos a sorrir, a amar e a enxergar as vozes sensíveis dos outros.

 

Publicado em O Globo (24.07.2017)

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