Vozes veladas, veludosos desvelos

16 de junho de 2009 às 17:22 - Comentar
Por Carmen Vasconcelos

A lenda européia da Melusina conta a história de uma mulher que casou após obter a promessa de que seu marido nunca a veria tomar banho. Um dia, vencido pela curiosidade, ele quebrou a promessa, perdendo sua esposa para sempre. Em uma variação, ele a vê em forma de uma serpente luminosa que o cega imediatamente. Em outra versão, a moça transforma-se em dragão e sai voando.

A mitologia grega trás o mito de Psiquê, a alma, que perde o seu marido Eros, o amor, por não resistir à vontade de vê-lo, quando prometera nunca tentar conhecer a verdadeira identidade daquele que sempre a amava no escuro. Com a curiosidade espicaçada por suas irmãs, invejosas da felicidade de Psiquê, ela esperou o marido dormir e acendeu uma lâmpada para enxergá-lo. Imaginava encontrar um monstro terrível, como suas irmãs haviam previsto, mas ficou tão encantada com a beleza do amor que acabou por acordá-lo, acordando também a sua raiva pela perda da confiança nela. Para recuperar o marido, a alma teve de aprender a duras penas a importância da confiança no companheiro de vida. Ainda bem que essa história do amor e da alma tem um final feliz: o nascimento do filho Voluptas, o prazer.

Também da mitologia grega vem a história de Orpheu. Sua noiva, Eurídice, a quem muito amava, foi morta por uma serpente e desceu ao reino dos mortos. Orpheu, que ganhara dos deuses o dom de encantar com seu canto e com o toque de sua lira, mesmo vivente embrenhou-se por aquele lugar de almas sem carne, rogando ao deus dos mortos que lhe devolvesse Eurídice. O deus concordou, disse que Eurídice iria atrás dele, mas o fez prometer que não se voltaria para vê-la até que os dois tivessem transposto os limites daquele reino. Sem resistir a olhar Eurídice de novo, Orpheu quebrou a promessa e Eurídice, que não havia ainda recuperado a matéria, desvaneceu-se diante dos seus olhos.

Uma parte de cada um permanece oculta até para si mesmo. Como então alguma criatura poderia ser perfeita e completamente transparente para outra criatura, ainda que entre elas haja um vínculo profundo, visceral? Não há, oh gente, oh não. Compreender (mais que tão-somente aceitar) a natureza insondável desses segredos, desses lados que devem permanecer apenas imaginados, faz parte do respeito ao outro. E quando não há respeito, a relação tem o mesmo destino de Eurídice: desvanece.

Alguns segredos não serão jamais desvelados. Algumas das nossas vozes permanecerão em silêncio, porque algumas vozes são nascidas para o silêncio e isso não é um paradoxo, é uma confirmação da necessidade que os opostos têm um do outro. Talvez sejam exatamente esses veludosos segredos que manterão acesa a chama da fascinação e do encanto de um ser pelo outro. Afinal, meu Rimbaud, se o eu é um outro, o outro é um outro mais ainda, e algo dele, por ínfimo que seja, permanecerá encoberto aos meus olhos. Nem pense que isso me descontenta. Há tanta volúpia em desvelar o possível, quanta volúpia há em conviver com insondáveis segredos veludosos.

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AGENDA

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    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente