Zé Celso brincou com fogo no Recife e se queimou

14 de julho de 2010 às 10:40 - 2 Comentários

Por Ronaldo Correia de Brito
Terra Magazine

Fiquei mais de uma hora parado no trânsito, entre minha casa e o hospital onde trabalho há trinta e um anos. Antigamente, não gastava mais do que nove minutos nesse deslocamento. No tempo em que esperava, ouvi o cd do Kronos Quartet gravado na África e consegui não me estressar. Um ônibus com defeito ocupava uma das duas faixas da BR, causando o transtorno: quilômetros de automóveis. Quando ultrapassei o ponto de afunilamento, não vi guardas de trânsito, nem mecânicos, nem reboque. O ônibus de portas fechadas parecia um navio encalhado.

Adoro o quarteto de cordas norte-americano fundado por David Harrington, que já gravou com músicos de várias partes do mundo. O meu disco favorito é esse de música africana. Sempre que o escuto sinto vontade de sair dançando. Enquanto não tinha o que fazer, pensei em abrir as portas do carro e dançar no gramado lateral à pista. No máximo me achariam maluco ou quebraria o pé num buraco ou seria assaltado por alguém das favelas em volta da BR.

Quando comecei a trabalhar no hospital, em 1979, não existiam favelas contornando a pista. A paisagem era de charcos e córregos, restos de mata atlântica e areais. Ainda soprava uma brisa marinha e o Recife tinha temperaturas máximas de 28 graus. À noite escutavam-se os sapos e as rãs cantando, e no escuro os vaga-lumes acendiam as luzinhas fosforescentes. Parece bucólico e saudosista, um libelo contra os avanços da urbanização. Mas não houve urbanização, e sim favelização. Os restos rurais de uma cidade complexa como é o Recife transformaram-se em subúrbio degradado e violento.

E se eu decidisse sair do meu carro e dançar a música do Kronos Quartet? Recife é uma cidade dançante, onde se dança por quase tudo ou nada. Proliferam maracatus rurais e de baque virado, orquestras de frevo, troças, bois e cavalos-marinhos. O aparente caos musical possui sua ordem, que apenas no carnaval aparentemente se quebra. Existe ordem até mesmo na desordem e a minha dança pareceria fora dos padrões.

Quem andou provando os efeitos de mexer nessa desordem foi José Celso Martinez Corrêa e o seu grupo de teatro Uzyna Uzona. Instalado no bairro de Peixinhos, na periferia do Recife, num antigo matadouro de gado rebatizado por nascedouro, Zé Celso trouxe as Dionisíacas, quatro peças do seu teatro orgiástico e caótico, sendo as mais conhecidas As Bacantes e O Banquete.

Zé Celso e o grupo transitaram da representação à provocação e ao escândalo, no meio de pessoas acostumadas à vida marginal, às transgressões, ao sexo fácil, à violência e às drogas. O que poderia ser redenção e catarse pelo teatro, quase se transforma em tumulto. O Deus Dioniso não perdoa os que não lhe rendem tributo, vira as costas aos que recusam a embriaguez e o transe, incita ao caos e não teme o dilaceramento e a morte.

2 Comentários

  1. Paulo Jorge Dumaresq
    14 de julho de 2010

    Texto incompleto.
    O que houve com Zé Celso no Recife?
    Agora fiquei curioso.

  2. 14 de julho de 2010

    Paulo Jorge, chequei e o texto é o mesmo publicado no Terra Magazine. Link: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4564465-EI6788,00-Ze+Celso+Martinez+brincou+com+fogo+no+Recife+e+se+queimou.html

Postar Comentário

AGENDA

  • Pinacoteca está com Edital aberto para ocupação das Salas de Exposições

    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

    mais informações »

  • Rede Cinemark exibe direto de Londres a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House

    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

    mais informações »

  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”