10 PERGUNTAS PARA O ESCRITOR E DRAMATURGO JÚNIOR DALBERTO

Thiago Gonzaga
MaisTeatro

1– Junior, você é autor de livros com gêneros literários variados, existe algum preferido?

Assim como gosto de escrever para todos os gêneros, também sou um leitor de todos os gêneros. Leio de tudo. Contos, poesias, livros de teatros, prosas, cordel, entre outros. Sou literalmente viciado em leitura. No entanto, meu estilo preferido é o realismo fantástico. Sou um apaixonado pela Isabel Allende e o Gabriel Garcia Márquez. Creio que minha predileção pelo gênero é proveniente dessa paixão, e acho que foi fonte de inspiração para escrever a minha obra Pipa Voada sobre Brancas Dunas.

2-Qual escritor, do passado ou do presente, você gostaria de convidar para um café?

Um café memorável para mim teria que ser passado no coador e servido com beijus, tapiocas, bolos de milho na varanda da casa do mestre Câmara Cascudo e tendo o próprio como anfitrião. Eu iria perguntar ao mestre coisas do tipo: Quem era a moça que aparecia a noite no centro da cidade, pegava carona ou taxi seguia até o cemitério do Alecrim, descia do carro, caminhava até o portão e depois sumia? Queria saber, também, quem era realmente aquela senhora que aparecia sempre nos espetáculos do Teatro Alberto Maranhão vestida como uma personagem do período colonial e portava uma faixa onde se lia Imperatriz do Brasil e assistia aos espetáculos como uma realeza. E quanto a Maria Boa, ela era feliz? Seriam coisas desse tipo, que com certeza renderiam boas gargalhadas e baforadas de charuto.

3–Uma obra Inesquecível.

Nossa! Essa é bem difícil, caro Thiago, viajei tanto com Monteiro Lobato, José Lins do Rêgo,   Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Graciliano Ramos, Ágatha Christie, Harold Robbins, Cassandra Rios, George Orwell, Lewis Carroll, Edgar Rice Burroughes, Machado de Assis, Júlio Verne, Stendhal, Gore Vidal, Castaneda, etc, uma verdadeira salada literária. Agora estou viajando bastante na literatura potiguar, não vou citar nomes para não esquecer ninguém. Mas um livro que me marcou bastante foi Germinal do Émile Zola, descobri depois que ele foi inspirado em A Comédia Humana, de Balzac.  A obra Germinal foi lançada 1881 e continua atualíssima.  É um romance realista sobre as dificuldades de uma comunidade de mineiros no interior da França.  O foco central é a exploração da burguesia contra o proletariado girando em torno da exploração da miséria humana. Dentro da obra ecoa um grito instigante para o oprimido enxergar e exigir o que é seu por direito. É fantástico! Li durante minha juventude.

4- Uma música.

Uma canção chamada de Summertime e interpretada por Janis Joplin ou pela Cida Moreira, considero a trilha sonora da história da minha vida. Sempre está presente em alguns momentos marcantes.

5- Um lugar memorável.

Além de escrever, o que mais gosto de fazer é viajar, conhecer lugares, costumes, pessoas, etc. Nessas minhas viagens tem um lugar que considero fantástico. É uma cidade que já fui várias vezes e continua sendo um mistério para mim. É intrigante, curiosa, gostosa, cheia de esquinas coloridas, um povo cheio de leveza, gastronomia fantástica e tem no ar um forte cheiro de história, de vida pulsante, suas noites são mágicas e além de tudo é linda, falo de Cuzco no Peru.

6– Se um ET surgisse na sua frente e solicitasse “Junior Dalberto, leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?

Rapaz, pedia carona ao alienígena na sua nave, voaríamos até o Vaticano, pegaríamos o Papa Francisco para tomarmos um café coado e comer bolo de milho (feito por minha cunhada Selma) e batermos um papinho lá nos distantes anéis de Saturno.

7 – Como dramaturgo você tem várias peças montadas, você poderia destaca algumas?

Gosto de todos os espetáculos que escrevo e dirijo, ou simplesmente dirijo. Gosto também quando vejo outras pessoas dirigindo algum texto da minha autoria. Destaco primeiro o meu texto Infantil Titina e a Fada dos Sonhos, dirigido pela excelente diretora artística Diana Fontes. Foi fantástica a reação do público, tivemos duas temporadas de dois anos patrocinadas por leis de incentivos e levamos mais de 20.000 crianças ao teatro, inclusive crianças que nunca havia assistido um espetáculo de teatro e sequer entrado em uma sala de espetáculos, foi um grande sucesso de crítica e público, um imenso prazer pessoal, entretanto, atingi o maior destaque da minha dramaturgia quando escrevi e dirigi minha obra Borderline, na qual apresento ao público o personagem Rutras que sofre de transtorno de personalidade borderline (TPB) que é um distúrbio neurológico que ocasiona diferentes percepções do cotidiano e alternâncias abruptas de humor, nele busco retratar uma narrativa ácida que passeia entre a loucura e a sanidade totalmente despudorada. É hoje nacionalmente um grande sucesso de crítica e público, ganhei várias premiações nacionais, inclusive o espetáculo Borderline inaugurou dois grandes teatros no Brasil como convidado. Sinto-me também reconhecido pela dramaturgia no meu texto Borderline por ter sido simultaneamente encenada na cidade do Rio de Janeiro com a direção primorosa do renomado diretor Marcello Gonçalves na atuação do talentoso ator Bruce Brandão no mesmo período da montagem potiguar. Essa montagem carioca obteve também um grande sucesso de público, crítica, várias indicações a premiações no Rio de Janeiro, e até hoje segue no cena teatral sul e sudeste do país.

8 – Em sua opinião que tipo de Arte tem mais se destacado no Rio grande do Norte na atualidade?

O Rio Grande do Norte tem se destacado bastante na arte musical, principalmente no segmento das bandas musicais. Como exemplo disso temos a Far From Alaska, Plutão Já foi Planeta e Os Carcarás. É notório esse crescimento e acredito que a utilização das redes sociais é a grande responsável por esses saltos. Atualmente a internet se tornou uma grande vitrine universal que considero a maior ferramenta aliada dos artistas, pois veio para facilitar a exposição de suas obras com um baixo custo de investimento e ao alcance de todos. O resultado desse processo é instantâneo e grandes talentos são revelados de forma meteórica. Portanto, em minha opinião, não basta ter níveis altíssimos de popularidade, pois isso não reflete necessariamente o talento dos artistas. A vocação e compromisso com a arte transcende as barreiras virtuais das mídias digitais e é preciso muita competência para se manter na ativa. A cena musical potiguar está vivendo um ótimo momento, grandes nomes vem sendo revelados ao grande público e os mais tarimbados estão cada vez mais presentes no cenário nacional, promovendo nossa arte e elevando o nome da nossa cidade.

9- Como observa as constantes mudanças na direção da Fundação José Augusto, por fatores políticos? Isso prejudica a nossa cultura?

A alternância constante de gestores na Fundação José Augusto vem prejudicando e afetando negativamente os projetos culturais potiguares. É um ciclo vicioso destrutivo e arcaico, onde um novo gestor sempre descontroi o que foi conquistado pelo seu antecessor. Alguns diretores não tem um conhecimento técnico e profissional para as artes. Sobra autoridade e falta competência para tocar projetos que beneficiam a população em geral, é como se prevalecesse os interesses particulares e/ou políticos, o que é muito triste para todos. O comodismo, fruto desse modelo de gestão, gera uma conveniência preguiçosa e passa-se a não investir na renovação do cenário cultural da cidade, com isso, a população fica condenada a assistir sempre os mesmos espetáculos; isso particularmente me incomoda porque a sensação é que paramos no tempo, e arte para mim tem muito a ver com ineditismo, com a novidade, com a surpresa, entre outros aspectos de ordem pessoal. Precisamos de gestores comprometidos integralmente com a nossa cultura e sejam capazes de uma grande revolução cultural com propósito de corrigir todo o atraso que nos causa estagnação, que valorize a diversidade, resgate a tradição, promova nossos ícones como Câmara Cascudo, Zila Mamede, entre outros, revitalize obras e cenários históricos e projete o verdadeiro valor do nosso povo além dos limites do nosso estado.

10– Se pudesse recomendar um livro aos leitores qual seria?

Sempre indico a obra literária Viva o Povo Brasileiro do grande escritor João Ubaldo Ribeiro, já li várias vezes e sempre me surpreendo com a magnitude da obra.

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Thiago Gonzaga

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