Aula de jornalismo em Rádio Guerrilha – Rock e Resistência em Belgrado

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Sinto uma inveja danada de quem conhece o Leste Europeu – como turista e como alguém que tenta viver do jornalismo.

Vez ou outra, leio relatos de viagens de natalenses que descobriram encantos em cidades, como Praga, Varsóvia e Zagreb, e logo imagino o rio Danúbio, guetos onde Kafka viveu, instâncias turísticas no mar Adriático e até resquícios da horrorosa estética comunista.

Em períodos de Copa do Mundo, então, para expandir conhecimentos sobre as seleções envolvidas, costumo fazer uma breve retrospectiva cultural, espécie de reforço extracampo com a ligação entre história e futebol.

Como não pensar assim na primeira participação da Bósnia em mundiais, na Copa do Brasil, em 2014?

Vale destacar a paridade territorial e populacional entre o pequeno país eslavo e o Rio Grande do Norte, ambos com pouco mais de 3,5 milhões de habitantes e 51 mil km².

Vídeos emocionantes com os bósnios nas ruas Sarajevo davam a dimensão do feito em uma nação barbarizada por Slobodan Milosevic e seus demônios, na dissolução iugoslava, no começo dos 90s.

É comovente a alegria dos entrevistados sobre a primeira felicidade nacional desde o fim da guerra – dados suspeitam de 200 mil mortos e quase dois milhões de refugiados, entre 1992 e 1995.

O que de imediato me fez lembrar um livro espetacular sobre o trauma dos comunistas mais abertos, liberais e cosmopolitas do antigo bloco soviético.

Falo de Rádio Guerrilha – Rock e Resistência em Belgrado, do inglês Matthew Collin.

É uma grande reportagem sobre a rádio B92 de Belgrado, na Sérvia, durante conflitos para a independência e nos bombardeios da OTAN.

Nunca a frase de Churchill (“Os Bálcãs têm mania de produzir mais história do que podem consumir”) foi tão precisa.

Enquanto jovens fugiam para o Ocidente, uma turma ficou e investiu talento em um veículo feito O Pasquim radiofônico.

Mas não só de discursos engraçados e polêmicos vivia a B92.

Rock e resistência em Belgrado.2

Como em toda guerra, sobram números imprecisos, mas conflito na Bósnia teria produzido 200 mil mortes e cerca de dois milhões de refugiados, no último grande massacre na Europa

Tudo começou no verão do amor belgradino

A música americana e inglesa servia de símbolo antinacionalista, o que deixava diretores em extremo perigo.

A B92 foi fechada inúmeras vezes e sempre voltava ao ar a mando do presidente, que percebia o apoio da juventude.

A ideia do Carniceiro dos Bálcãs era manter Belgrado alheia ao totalitarismo e à faxina étnica executada em terras distantes.

O grunge de Seatlle, o punk e o hip hop ecoavam em autofalantes, para o ódio dos asseclas de Milosevic, militantes do tal turbo-folk – a chata pasteurização de folclore sérvio, inserida no pacote nacionalista vendido na televisão.

A rádio foi fundada em 1989, no que é considerado o Verão do Amor para os belgradinos, por um cara chamado Veran Matic, para homenagear Josip Tito, o ex-chefão dos iugoslavos, morto em 1982.

Naquele instante, a antes orgulhosa e progressista Belgrado, que nunca chegou a ser uma Amsterdã, nem tampouco uma Berlim Oriental, via suas ruas destruídas, dominadas por gansters, com calçadas tomadas por cambistas e contrabandistas de gasolina, cigarros e outros itens do capitalismo de alhures.

Com a tevê nas mãos do governo, a rádio era o único canal alternativo para os jovens.

Milosevic fingia descaso com a B92. Queria enganar eleitores como liberal.

E os apresentadores aproveitavam para realizar campanhas a favor da prostituição, da abolição de uma lei homofóbica e da legalização de drogas leves (chegou até o parlamento, mas foi vetada).

Isso era absurdamente provocativo em um país comunista, 20 anos atrás.

A coisa começou a mudar com notícias que chegavam da Bósnia e da Croácia, com milhares de pessoas mortas em meio a uma guerra empreendida pelo governo sérvio.

Belgrado vivia em uma realidade paralela e ninguém sabia o que acontecia fora do perímetro urbano.

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Hoje a B92 virou ‘Grande mídia’, mas no começo dos anos 1990 foi a voz da contracultura sérvia, ao enfrentar regime de Slobodan Milosevic com rock, eletrônica e hip hop

O Pasquim dos Balcãs

Veran Matic tinha definido que a B92 precisava ser radical.

Pouco adiantava ter uma cobertura jornalística diferenciada e tocar a mesma porcaria das rádios estatais.

Nada de mudar o sistema, mas, sim, a sociedade.

Essa política provocou desentendimentos internos.

O departamento comercial queria o turbo-folk que agradava patrocinadores e conservadores.

Os cidadãos desacreditavam nos boatos de que a guerra estava perto da capital e da ameaça de invasão ou ataque por forças estrangeiras – como manipulada o governo.

No dia em que isso aconteceu, com o choque numa praça a metros da B92, Veran Matic pegou o microfone e narrou as cenas sangrentas como se fossem um jogo de futebol, ofegante a cada nuvem de gás lacrimogêneo.

O impacto foi tão grande que a polícia invadiu a rádio para exigir música tradicional e notícias da agência estatal – proposta negada por Matic com veemência.

Na madrugada, discos do The Clash e de Thin Lizzy foram tocados à exaustão, como canções de um protesto derradeiro.

Rock e resistência em Belgrado.3Tirada do ar, ela voltou menos de 48 horas depois do clamor juvenil, ancorado no mito iugoslavo de que estudantes podem abrir a boca quando bem entenderem.

Hoje a B92 é uma emissora convencional, agora também uma rede televisiva.

Passada a carnificina, ela teve de mudar a linha editorial para sobreviver, já no final dos anos 1990.

No site oficial, www.b92.net, tem a curiosa sessão Crime, o que aproxima sérvios e brasileiros.

Veran Matic chegou a se reunir com a secretária de Estado americana, Madeleine Albright, para conseguir apoio político e financeiro.

Fãs se sentiram traídos e só baixaram as críticas ao ouvirem a aceitação de Milosevic da derrota nas urnas, em outubro de 2000.

Mas o legado ficou, e Rádio Guerrilha – Rock e Resistência em Belgrado tem grande contribuição nesse registro, como história e aula de jornalismo em tempos de guerra.

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