Breve nota sobre jazz e álbum clássico de Miles Davis

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Miles Davis_Público em Pipa - Foto Oficial Fest Bossa & Jazz

Milhares de pessoas foram à Pipa, no último final de semana, para assistir espetáculos musicais do Fest Bossa & Jazz; desde a Sesi Big Band (RN), até o organista austríaco Raphael Wressnig, um desfile de ótimos instrumentistas encantou os presentes ao sul do litoral potiguar

O Rio Grande do Norte tem dois grandes festivais jazzísticos: o Fest Bossa & Jazz e o MPB Jazz.

Ambos entre os principais da região – ou do país?

Daí que entender o gênero é necessário, para quem se arrisca pelos becos culturais desta esquina selvagem da América do Sul.

Gênero por vezes incompreendido, tratado como erudição de uma casta de intelectuais, segundo o senso comum.

Dizem o mesmo da literatura de cordel, veja só.

Pura balela!

Acontece que, como nos disse Pablo Capistrano na introdução de seu A Grande Pancada – Crônicas do Tempo do Jazz, “[…] depois de alguns anos de equilíbrio hormonal, sobriedade química e felicidade conjugal: me perdoe o roquenrol, mas a grande música do século XX foi o jazz”.

Mais que o rock, ele se embrenhou em outras culturas, ajudou a criar novos gêneros e manter uma rede de festivais com forte participação na indústria turística do Caribe e da Europa Mediterrânea.

É nesse circuito que o movimento potiguar deve pensar – veja as fotos da última edição do Fest Bossa & Jazz em Pipa para vislumbrar o potencial daquilo tudo.

Dos rudimentos trazidos por escravos da África Ocidental e pelo colonizador europeu com suas bandas marciais, o que surgiu no sul e nas grandes cidades dos Estados Unidos, sobretudo Nova York e Chicago, veio bater aqui no Brasil, terra do samba e da bossa nova.

No caso específico de Natal, gastaria um post inteiro para enumerar músicos adeptos dessa criação.

Portanto, além da experiência pessoal com cada som ou história descoberta, acredito valer a pena comentar discos e jazzistas relevantes, como uma forma de valorizar o gênero e trazer fãs de jazz para o SUBSTANTIVO PLURAL.

Pois longe de ser especialista, falo como fã – com todos os maneirismos que a situação provoca.

Dito isto, falemos de Sketches of Spain, de Miles Davis, álbum seguinte ao estrondoso Kind of Blue, este até hoje o mais vendido da história do jazz.

Miles Davis_Palácio Real de Aranjuez

Palácio Real de Aranjuez, nos arredores de Madri, inspirou Joaquín Rodrigo no famoso ‘Concierto’ e a dupla Davis – Evans

Arranjos sobre um palácio real

Lançado em junho de 1960, Sketches of Spain, na verdade, é uma obra-prima feita a quatro mãos, tamanha a importância do arranjador Gil Evans nos cinco números que valeram o Grammy Award como melhor composição de jazz.

O encontro dos dois em meados da década de 1950 é considerado um marco, mas aqui eles extrapolaram.

Baseado no tema Concierto de Aranjuez, do Joaquín Rodrigo, que ocupa mais da metade do álbum, ambos pesquisaram a música espanhola para concretizar a perfeita junção entre a música negra americana e a erudita europeia.

Penso que a melancolia de Miles, então expoente do cool jazz, casou perfeita com a influência moura na música espanhola, com a estridência dos metais na hora certa.

O clima de solidão está expresso em cada nota ou ruído.

Assim como a cavalaria, os tambores, a cena dos segundos antes de uma batalha em campo aberto entre dois exércitos, captadas por Miles e Evans na atmosfera criada por Rodrigo em torno do tema de um enorme, triste e assombroso palácio real.

Era o palácio do rei espanhol Felipe II, construído no século XVI, localizado em Aranjuez, nos arredores de Madri.

Enquanto parte dos vanguardistas buscavam no Oriente, no norte da África e nas Américas novos elementos para decretar a posição independente dos negros na música, Miles e Evans olharam para a Ibéria, onde essas culturas se misturaram durante os seis séculos de domínio árabe.

O curioso é que Joaquín Rodrigo achou o disco normal, quase uma afronta a sua obra original – ainda que os royalties tenham garantido anos de bonança, até sua morte, em 1999.

“Desde Charlie Parker eu não ouvi nada que me tocasse tanto como seus arranjos”, teria dito Davis após ver a criação de Gil Evans.

Miles Davis et Gil Evans pendant l'une des séance d'enregistrement de l'album "Miles Ahead" dans les studios Columbia en 1957

A parceria começou em 1948, tempo da Miles Davis Capitol Orchestra.

Um time de primeira, que registrou, dentre vários instrumentistas renomados, Jay Jay Johnson no trombone, Lee Konitz no sax alto, Gerry Mulligan no barítono e Max Roach na batera.

Gil Evans era o arranjador, sujeito de talento inegável que soube abafar a fama de arrogante e autossuficiente de Davis.

Evans transformou o som melancólico e já impactante em algo orquestrado e refinado, naquele período mágico do jazz, em que Time Out, de David Brubeck (1959) surgiu como oponente à altura na mesma mistura com música clássica.

A releitura da dupla Davis-Evans para o clássico Porgy and Bess, de George Gershwin, dois anos antes, tinha sido uma das primeiras vezes em que o nome de um arranjador ganhou destaque na capa de um álbum de jazz.

Já em Sketches Of Spain, o nome de Gil Evans aparece em meio à arte com as cores da bandeira espanhola, agora com maior vigor e responsabilidade por aquele som atmosférico, místico, por vezes, grandiloquente que conquista o ouvinte, iniciado ou incipiente, em seus 40 minutos de beleza.

É um de seus discos mais acessíveis de Davis, com temas populares, como Will’o The Wisp, de Manuel De Falla – além do trompete, aqui ele ainda toca flugelhorn, uma variação alemã para o mesmo trompete, cuja sonoridade é mais suave e intimista.

Ou o clássico flamenco Solea, transposto por Miles em uma melodia desafiadora, introspectiva, inquietante, como nos segundos antecessores de um desafio mortal.

Um susto

Muitos se perguntaram se Sketches of Spain era jazz – é a mesma dúvida surgida na estreiteza de quem se assusta com novidade.

E Miles Davis respondeu com aquela empáfia característica, mudo, com a boca em movimento apenas para soprar temas impressionantes, sobretudo para um ‘recém-convertido’ como eu – o que são meros sete, oito anos de audições jazzísticas, após tanta distorção nas primeiras três décadas de vida?

Você tem um feriado pela frente para escutar Sketches of Spain (abaixo) e acreditar nesta nota de pura empolgação.

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