Narcos e a história mágica de um personagem real

Bruno Rebouças
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“A versão não oficial da morte de Escobar diz que, na iminência de ser capturado, ele teria se matado com um tiro, em lugar específico conhecido somente pelo filho, Juan. Como em todas as histórias desse calibre, há três versões: a dos policiais, a dos bandidos e a de Deus. Basta escolher em qual acreditar […] Mas nem tudo são flores na série da Netflix.”

Narcos termina como começa.

O realismo mágico está presente em todos os capítulos das duas temporadas, baseadas em fatos reais, embora apresente eventos fictícios que distorcem a história.

O realismo mágico teve seu auge no ficou conhecido como o “boom sul-americano”.

Ele está para a literatura como o surrealismo para a pintura – gêneros mais reais e acima da realidade…

E poucos personagens da história conseguiram viver o realismo mágico de forma tão acentuada como Pablo Emilio Escobar Gaviria (1949-1993).

Sua ascensão, auge e queda são dignas de um conto ou um livro de qualquer dos expoentes desse gênero literário, que tem em Gabriel García Márquez um dos seus principais representantes.

Se você não reparou, a série original do Netflix começa e termina quase com o mesmo texto:

“O realismo mágico se define como o que sucede quando um entorno muito detalhado e realista é invadido por algo demasiado estranho para ser crível. Há uma razão para que o realismo mágico tenha nascido na Colômbia”.

Entendemos o porquê durante os 20 episódios sobre a vida do mais ‘bem-sucedido’ traficante de todos os tempos.

Narcos tem muitos méritos, é muito bem escrita e tem no seu personagem principal a força de um anti-herói (que todos amamos).

Pablo Escobar é real, conhecemos sua história, sabemos das atrocidades que cometeu.

Mas assim como Jean Valjean (Os miseráveis) – o mais mocinho entre os citados –, Frank Underwood (House of Cards), Walter White (Breaking Bad) é por ele que torcemos.

Pode ser pelo nosso sentimento mais enraizado de ser contra o sistema, ou pela forma que a arte imita a vida, ou vice-versa; ou pelo texto e a maneira de exposição dos fatos.

Mas pode ser simplesmente pelo fato de Wagner Moura contagiar a todos, ou porque nós amamos odiar os vilões.

Fico com esta última hipótese sobre todas as outras.

Pablo Escobar é o vilão, o anti-herói, o que desafia o sistema legal por um objetivo – nem sempre nobre.

O seu, inicialmente, era ajudar os pobres e chegar à presidência da República. Ele chegou a ser eleito deputado federal, mas não assumiu e foi fundo demais às vias de fato.

Matou presidente, ministros, inúmeros policiais, sequestrou jornalistas, explodiu carros-bomba. Mas construiu casas, quadras, um bairro inteiro.

Justifica nossa torcida? Não.

Na vida dos anti-heróis sempre existe um ou vários “mas”. Ou somos nós que criamos essas contraposições para amenizar o sentimento de apoiarmos personagens como os de Escobar na ficção.

Tentou matar o até então candidato à presidência ao explodir um avião para conseguir – o destino salvou César Gaviria, que virou presidente e estava no poder quando tudo acabou para Escobar.

O sistema não pôde com Escobar e para detê-lo fez vistas grossas, para que grupos de extermínio o conseguissem. Odiamos o sistema por isso. Sim ou não?

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O código de ética e moral de personagens como Frank Underwood ou de Jean Valjean, por exemplo, é flexível e até compreensível.

Estes personagens têm o “dom da graça”, como explica Max Weber, e você acaba torcendo por eles, por uma espécie de “dominação carismática” exercida sobre nós.

Mas nem tudo são flores na série da Netflix.

É um erro expor tantas mortes dos Pepes (Perseguidos por Pablo Escobar) em tom de orgulho do personagem principal, o agente Steve Murphy (Boyd Holbrook).

Os Pepes foram criados pelos irmãos Castaño, e financiados pelo Cartel de Cali. Contou com informações de serviços de inteligência americano e da própria polícia colombiana.

Narcos se equivoca por denegrir a imagem de algumas pessoas que, apesar da relação com Escobar, não faziam parte do Cartel e nem eram traficantes, como o cunhado deste, Carlos, morto na série em um tiroteio e na vida real sequestrado, torturado e morto por “los Pepes” por ser irmão da esposa de Escobar.

O erro descrito acima, e mais 27 deles cometidos pela Netflix foram relatados por Juan Pablo Escobar na sua página do Facebook.

Todos eles da segunda temporada.

Equívocos em sua maioria com aliados ou inimigos mortos ou encarcerados, como “La Quica” que foi preso e levado para os Estados Unidos em 1991, um ano antes de Escobar ser trancafiado na “Catedral”.

Para quem conhece a trajetória de Escobar fica claro que alguns eventos são fictícios.

Após escapar da Catedral, Escobar não levou a vida de luxo e tranquila em mansões e junto com a família, rodeado de seguranças e sicários.

Ao contrário.

Nos últimos meses de vida, segundo Gabriel García Márquez em Notícia de um sequestro, não passava mais de seis horas no mesmo lugar, caçado por bandidos e policiais.

Mas para a maioria a versão Netflix é a realidade.

O mais forte dos erros foi sobre a mãe de Escobar, que na série aparece como uma aliada fiel, como todas as mães são.

Segundo Juan Pablo, sua avó traiu seu pai, se aliou com os Pepes e com o Cartel de Cali, passando informações sobre o filho.

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Juan Pablo, filho do famoso traficante, contesta passagens da série da Netflix:

Atrocidades pelo crime de parentesco

O estado manteve a esposa e os dois filhos de Escobar sequestrados em um quarto acusados pelo crime de parentesco.

Nesta história, todos os lados cometeram atrocidades e cruzaram o limite da legalidade.

Evidente que o roteiro de uma série baseada em fatos reais necessita de elementos puros da imaginação e da ficção para preencher espaços incapazes na vida real.

Mas alguns destes erros são irresponsáveis, principalmente em relação a pessoas que nunca estiveram à margem da lei e foram expostas como bandidos em todo o mundo.

Para finalizar os erros, Juan Pablo ironiza a credibilidade da produção:

“Meu pai não era torcedor do Atlético Nacional, mas sim do Deportivo Independiente Medellín. Se os roteiristas não sabem nem o time favorito de Pablo, como atrevem-se a contar o resto de uma história e vende-la como certa? Por acaso vale tudo?”.

A versão não oficial da morte de Escobar diz que, na iminência de ser capturado, ele teria se matado com um tiro, em lugar específico conhecido somente pelo filho, Juan.

Como em todas as histórias desse calibre, há três versões: a dos policiais, a dos bandidos e a de Deus. Basta escolher em qual acreditar.

A vida de Escobar é rodeada de mitos e elementos fantásticos, como o realismo mágico.

Poderia ser uma obra de ficção, mas não foi.

Se Narcos tem muitos acertos, comete inúmeros equívocos também.

O que, talvez, tenha levado a produção ao inserir, em todos os episódios da segunda temporada, o alerta de que, apesar de baseados em fatos reais, nem tudo aconteceu como exposto na série.

Notícia de um sequestro

Quando abordei neste Substantivo Plural, o brilhante “Relato de um náufrago”, afirmei que este era um livro imprescindível para jornalistas e estudantes de jornalismo e, claro, o público em geral.

Volto a usar tal frase com o espetacular “Notícia de um sequestro”, para mim o melhor livro de não ficção de Gabriel García Márquez.

Para quem leu o livro, é quase impossível ver Narcos e não lembrar da história labiríntica que o Nobel de 1982 criou para relatar os 10 sequestros de jornalistas colombianos por Pablo Escobar e seus aliados, “Los Extraditables”, em uma tensa tentativa de forçar o governo a assinar o decreto que proibia a extradição de narcotraficantes para os Estados Unidos.

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Como um traficante de drogas virou ícone pop? Talvez a Colômbia e seu realismo mágico expliquem a transformação de Pablo Escobar em personagem mundial em uma série

Em uma narração incrível, como sempre, e com uma metodologia de investigação jornalística das mais exemplares, García Márquez conduz o leitor pelos labirintos de Medellín, bastidores do poder e do submundo do crime.

Uma magistral aula de Jornalismo e descrição.

E este é, para mim, um grande defeito de Narcos.

O sequestro dos jornalistas foi um episódio central antes da prisão de Escobar e de outros traficantes.

Foi a partir dele que foi acordado a construção da Catedral, a cadeia que Escobar mandou construir para se entregar, em uma série de exigências para garantir sua segurança.

Os ‘extraditáveis’ eram todos os grandes narcotraficantes que se juntaram para forçar o governo a não ceder à pressão política dentro e fora do país, especialmente dos Estados Unidos.

Narcos trata os sequestros de maneira secundária, apenas relatando o da filha do ex-presidente Julio César Turbay.

Alguns jornalistas foram liberados quase um ano após os sequestros.

Esses sequestros foram essenciais para assinatura do decreto/lei contra a extradição de narcotraficantes, principal episódio para que Pablo Escobar se entregasse à justiça, fato deixado de lado por Narcos.

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Entre críticas e elogios, brasileiro Wagner Moura está na pele de um dos criminosos mais conhecidos que a América Latina produziu

Para quem já viu Narcos, vale a pena ler Notícia de um Sequestro porque é o relato de um período marcante da história da Colômbia e da América Latina, além de servir para ampliar e continuar a história da série com mais fidelidade aos fatos verídicos que uma obra de ficção.

“Entrevistei a quantos protagonistas me foi possível, e em todos encontrei a mesma disposição generosa de perturbar a paz de sua memória e reabrir para mim as feridas que quiçá queriam esquecer. Sua dor, sua paciência e sua raiva me deram coragem para persistir nesta tarefa outonal, a mais difícil e triste da minha vida”, escreve García Márquez nos agradecimentos do livro.

Como a série, este artigo também termina como começa.

Afinal, a Colômbia é um lugar propício para coisas mágicas acontecerem, pois, “é um lugar onde o bizarro se une ao inexplicável todos os dias. Onde coisas estranhas geralmente surgem em momentos críticos”, finaliza o agente Murphy, no início do último episódio.

Se o náufrago Luis Alejandro Velasco, que ficou 10 dias à deriva em uma canoa, é a história real de um personagem mágico, a de Pablo Emilio Escobar Gaviria é a história mágica de um personagem real.

E esta é a razão por qual o realismo mágico nasceu na Colômbia.

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Bruno Rebouças

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