Sérgio Porto e a gente ordinária em O Homem ao Lado

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Se a crônica é tratada como gênero literário menor, por sua brevidade e suposta leveza temática, Sérgio Marcus Rangel Porto (1923-1968) tratou de engrandecê-la ao falar da gente ordinária, em curtas narrativas que nos arrancam gargalhadas com facilidade

Stanislaw Ponte Preta sempre foi um nome que me atraiu.

Algo na sonoridade eslava, sucedida pelo homônimo time de futebol de Campinas (SP), não sei, mas gosto dele.

Ainda criança, via a capa de um ou outro volume da trilogia Febeapá entre os livros de meu pai, perto de Teje Preso!, de Chico Anysio, e achava aquilo tudo muito engraçado, lúdico mesmo, com o nome do autor destacado: Stanislaw Ponte Preta.

Assim como uma edição de a Divina Comédia, de Dante, com uma bizarrice na capa, creio que uma mulher com três, quatro pernas e uma mariposa no lugar da cabeça, me assustava pra valer.

Só adulto fui entender que aquilo era o pseudônimo criado por Sérgio Porto, um cara que fez chover no Rio de Janeiro dos 50s e 60s, como jornalista, radialista, compositor (como desprezar a música e a expressão Samba do Criolo Doido?) e, principalmente, como um dos maiores cronistas deste país.

Até hoje, Sérgio tem uma leva de fãs, o que me deixa feliz pela aposta infantil e inconsciente na grafia do designativo, décadas atrás.

Hoje vejo sua irreverência de carioca de Copacabana, onde nasceu, cresceu e morreu, e a facilidade com que articula histórias simples, mas de grande carga dramática.

Fãs estes que agora entendo sobremaneira, após a leitura de O Homem ao Lado, compilação lançada pela Companhia das Letras, dentro de um projeto que republicará sua obra completa.

Foi o primeiro livro de crônicas de Sérgio, publicadas entre 1950 e 1956, em jornais, como Última Hora e Diário Carioca, e revistas, como Manchete e O Cruzeiro.

A diversão começa logo na apresentação, escrita por Sérgio Augusto.

Ali sabemos que Rubem Braga, então comandante do semanário Comício (cuja lista de colaboradores incluía Millôr Fernandes, Otto Lara Resende, Clarice Lispector, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos que, como o próprio Millôr, assina uma nota póstuma emocionante nesta edição aqui comentada), foi responsável pela extensão do talento de Sérgio Porto –àquele momento, um mero escrevinhador de musica e ‘miudezas’, no Diário Carioca.

“Seu negócio é crônica”, teria dito Braga ao indivíduo de 30 e poucos anos, com feições e porte físico (1,85m de altura) de desportista bem nascido – Sérgio, tricolor doente, foi goleiro de futebol de areia e campeão várias vezes, ao lado de Heleno de Freitas, João Saldanha e Sandro Moreira, uma tríade poderosa de botafoguenses.

E assim foi, com porteiros analfabetos, estudantes de medicina, prostitutas juvenis e toda espécie de gente que habitava seu universo boêmio – apesar de quase nunca sair do bairro outrora chamado Princesinha do Mar.

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“De que vale sofrer por um passado que demoliram com a casa? Pedra por pedra, tijolo por tijolo, telha por telha, tudo se desmanchou. A saudade é inquebrantável, mas as fotografias eu também posso desmanchar”, Sérgio Porto ao ver sua Copacabana original sucumbir à modernidade

Pra morrer ‘eletrocidado’

Na crônica-título, a primeira do livro, um homem chora, ri, acende um cigarro, sempre em silêncio, sentado ao lado do próprio Sérgio em um ônibus.

Os dois descem na mesma parada e entram numa loja de flores.

A curiosidade sobre o caos alheio faz com que a conversa entre o homem e o florista ganhe ouvido comprido.

Levou um pé na bunda? Morreu alguém querido? Por que ele chora? Quem nunca se pegou numa varredura imaginativa sobre uma pessoa desconhecida que nos chamou atenção na rua?

Sérgio Porto botou no papel essa mania humana de perscrutar os outros para além de um episódio – como na hilária A Revolta de Almira, em que a dificuldade de sua empregada com eletrodomésticos serve de crítica à modernidade.

Com medo de morrer ‘eletrocidada’, Almira tinha ódio mortal de acendedores elétricos de fogão, cafeteiras, liquidificadores, etc.

Se a crônica é tratada como gênero literário menor, por sua brevidade e suposta leveza temática, Sérgio Porto (1923-1968) tratou de engrandecê-la ao falar da gente ordinária, em curtas narrativas que nos arrancam gargalhadas com facilidade.

Copacabana sofria mudanças urbanísticas, o que exterminou referências dos mais antigos.

Em A Casa Demolida, fotografias de sua morada por 24 anos, derrubada pelo desenvolvimento, resgatam tristeza, boas lembranças e a certeza de que a nostalgia pode fazer muito mal.

“De que vale sofrer por um passado que demoliram com a casa? Pedra por pedra, tijolo por tijolo, telha por telha, tudo se desmanchou. A saudade é inquebrantável, mas as fotografias eu também posso desmanchar”.

Nomes próprios esquisitos, o Réveillon, um canário belga.

Assuntos distintos e banais viram crônicas que marcaram época em uma época marcante.

De um colega pobre, morador de uma pensão no Catete, saiu O Hóspede, duas páginas na vida do sujeito que comia empadas para matar a saudade da família interiorana.

Em sua cidadezinha, a preta Idalina fazia a iguaria no dia de festa pra Nossa Senhora da Glória – “[…] para inveja dos que tomavam a clássica média com pão e manteiga”.

Tempo dos 50 anos em cinco de Juscelino Kubistchek, de prosperidade mundial, impulsionada pelo crescimento da economia norte-americana do pós-Guerra.

Enquanto a paisagem carioca mudava, Sérgio passava um dia no exílio do campo (crônica Fazenda), na cidade de Capivari, onde a pachorra do gado e a brisa na varanda ditam o ritmo.

Ele observa a cena dos animais em romaria deitado em uma espreguiçadeira, “[…] peça que a decoração moderna inexplicavelmente aboliu”.

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Livro reúne primeiras crônicas de Sérgio, publicadas entre 1950 e 1956, em jornais e revistas do Rio de Janeiro

Millôr também brilha no livro

Ao lermos a última das 71 crônicas, somos brindados com um bonito artigo de Millôr Fernandes sobre o amigo morto dois anos antes.

Publicada no Pasquim, em 1970, As Dores Ladram, e Sérgio Porto Passava começa assim:

“Ele foi meu amigo e meu irmão durante vinte anos: vivemos juntos, bebemos juntos e amamos juntos […] era, como quase todos os humoristas brasileiros, um trabalhador braçal. Sua extraordinária competência ele adquiriu cavoucando uma datilografia dez horas por dia, dezesseis anos seguidos”.

Como a Companhia das Letras anunciou novos livros de Sérgio Porto (dessa leva, tenho também Éramos Mais Unidos aos Domingos; comentarei mais pra frente) inclusive um volume só com suas crônicas de futebol, fica a urgência deste O Homem ao Lado, por ser introdutório e representativo da obra de um ser multimídia, que tinha pressa em dizer tanta coisa, mesmo com o álcool a lhe abreviar a vida.

P.S. Em meados dos 1950, Sérgio entrou em um bar em Ipanema para comprar cigarro. Tomou um susto ao ver quem estava do outro lado do balcão, olho esperto para lhe atender: o sambista Cartola, sumido e na onça financeira desde a década anterior. Renomado como critico musical, Sérgio pegou o ‘Divino’ (apelido dado por seu tio Lúcio Rangel) pelo braço, o levou em estúdios e escritórios de conhecidos, e até arrumou emprego, na rádio Mayrink Veiga. Dá pra não admirar um sujeito desse?

P.S.2. Desative as fantasias, pois as três mulheres da foto de capa são filhas de Sérgio.

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