Mistura tropical em ‘Berimbau de Lata’

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[…] a poesia é a descoberta
das coisas que eu nunca vi.
Oswald de Andrade

“Quanto mais poético, mais verdadeiro”, revelou Novalis (1772–1801), um dos mais importantes representantes do romantismo alemão de finais do século XVIII. Rememoro a famosa frase do poeta germânico após a leitura do livro “Berimbau de Lata” (Sebo Vermelho Edições, 2016) da escritora e poeta Tânia Lima.

Objeto artístico de atributos interessantes, “Berimbau de Lata” contém poemas ateados de modo significativo, em muitos dos quais o manguebeat deixa-se transparecer. Vejamos, por exemplo:

A LAMA
É ALMA
do MANGUE

Há na obra inúmeras referências estéticas, aliadas a uma poesia figurativa, numa emblemática harmonia de elementos manipulados pela poeta Tânia Lima, que consegue mesclar em seus versos um ritmo bem brasileiro. Com alguma complexidade, competência técnica e artística, além, claro, da beleza.

Nos seus versos, a autora optou por ressaltar características do nacionalismo manifestadas em relação à linguagem. “A busca de uma língua brasileira”, como verdadeira contribuição para a definição da nacionalidade, já era, como se sabe, uma das bandeiras do Movimento Modernista. Com verso livre, a linguagem coloquial e o experimentalismo verbal, presente nos poemas “Alfaias” e “Maraca” (eu), por exemplo. Tânia Lima faz um trabalho voltado para as raízes nacionais, ao mesmo tempo que trabalha o universal

mar desvirado
concha acústica ecoa
primeiro som do mundo
maracatu de palavras

A poesia de Tânia Lima é quase que imagética, organizada numa junção de construções vocabulares, esculpindo palavras que transcendem a literalidade para envolver o leitor nos detalhes plásticos e cromáticos de imagens intensamente poéticas.

Tânia Lima é um ser humano poético, sensível às coisas, às pessoas, e com sua lírica consegue cativar o leitor mesmo que seja num verso simples e lúdico. O poema, muitas vezes, vem na forma mais simples, natural, primitiva, longe de qualquer ambição estética, de qualquer anseio metafísico. Seria algo assim como a alegria do sopro, a evidente felicidade de respirar.

Há um aspecto na obra em foco que, especialmente, desperta a nossa atenção: seus versos são um permanente processo de contenção, há alguma coisa neles muito maior do que é visível, alguma coisa que não vem à tona; cada leitor irá interpretá-los à sua maneira.

Ler “Berimbau de Lata” nos fez relembrar uma frase de Umberto Eco, definiindo o efeito poético como a capacidade que um texto oferece de continuar a gerar diferentes leituras, sem nunca se consumir de todo, ou seja: o signo verbal se transforma a cada nova leitura.

Um ou outro leitor mais exigente, talvez, há de ver uma inusitada forma de estruturação dos versos, diversa desse processo natural de adaptação entre o conteúdo e a forma. Mas, invocando o grande crítico literário Antonio Candido, a qualidade é imprescindível, mas isto não quer dizer que só terá valor uma obra que seja perfeita, irretocável. Para o estudioso, toda obra tem uma função no contexto geral da literatura. Isso significa que todo movimento literário é constituído por textos de qualidade alta e textos de qualidade modesta, formando, no conjunto, uma massa de significados que influi em nosso conhecimento e em nossos sentimentos. O fato é que, desde o movimento modernista, a poesia é livre.

Por fim, releva salientar que a poesia vai nascer amanhã e sempre, seja no lugar mais conhecido, seja no mais remoto, no obscuro e no incandescente; é característico da poesia o poder de tocar sensibilidades. Tal como acontece na lírica de Tânia Lima, que nos traz, em seu novo livro, não apenas a transfiguração da realidade, mas a própria realidade.

De resto é lembrar que, como já disse Mário Quintana, “não tem porque interpretar um poema. O poema já é uma interpretação”.

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