Gigante que esmaga relógios

Daniel Liberalino
Colunistas

Acorda e ouve um gigante caminhando sobre a cidade.

O verão ainda abafado, essas últimas semanas. Não é mesmo?

Rostos empoleirados nas gaiolas oleosas; o chão que treme.

Estranho, cisma. Sempre um gigante, quando acorda.

Adormece; mais tarde, sente febre.

As cobertas estão empoeiradas. Tarde passada, sentado num banco de praça, registrou isto, no verso de uma nota fiscal, que encontrara voltando do trabalho para casa: “Me sinto como uma adenóide, que apenas por irresolução hipertrofia, sozinha, num perenal crepúsculo nasoconstritivo”.

Deitado, para ocupar o tempo, a imagino levando a vida em meu lugar; pagando meus impostos, esperando o meu ônibus para o trabalho. Indo nadar no porto depois do expediente, no fim de tarde. Redescobrindo fragmentos da minha infância, dentro de um saco na despensa, num dia de folga.

Os pássaros piam histéricos lá fora. É o maquinário do mundo que reinicia para, como acontece há milênios, consumir sol e expelir corpos e taxas.

Outra vez adormece.

Além das paredes, hordas mal oxigenadas, sequiosas por Busonid. Fiz café, as cobertas estão na lavanderia.

Os estampidos prosseguem; às vezes, me parece, descompassando os dias. Nas cabeças viscosas, pensamentos atolam, como saquinhos gordos de muco. Buzinas e motores, janela afora; alguém gritando na rua, odor de carne velha evola do açougue da rua abaixo e, na mesa da cozinha, decretam-se as 03:15 a.m.. Na janela já é dia; a ideia de que o sol está quebrado se insinua; o relógio está quebrado de novo, triste esclerótico, corrige-se. Já é o quarto esse ano – agora sentado, inerme, avaliando a poeira suspensa na réstia de luz do canto de quarto em movimento browniano.

A água morna e o espelho embaçado; a coalhada e o pão; os papéis, a gravata, o mocassim. A porta fecha outra vez e, descendo a escadaria, ouve o gigante, caminhando sobre a cidade. O tremor dos seus passos quebra meus relógios; devo fazer algo a respeito? Mudar de cidade não é uma opção, excogita, coçando o nariz. A readaptação é um processo longo. Segue pela calçada ensolarada de um bloco de construtoras, ainda por abrir.

*

O ônibus está atrasado; ele gostaria de chegar mais cedo ao emprego, às vezes, donde o rancor aos tropeços horológicos. Precisa de um relógio novo, murmura, um relógio decente, dessa vez. Não há mais nada resistente no mundo. Não precisa ter muitas funções. Só resistir à desordem do mundo. Pode isso, já se vão anos que tem um em vista: réplica de marca estabelecida, sólido e próprio, com pulseira de couro e detalhes em falso ouro. Confeccionado por um relojoeiro indôneo, comerciante de velha data no centro da cidade.

Espirra.

O muco escorre, coisa que, com os dedos, procurará impedir. Nisto malogra, buscando um lenço dentro da pasta; lembrará de ter guardado alguns, entre os formulários. Lento, o ectoplasma adenoidal exibirá uma melancolia gelatinosa, íntima, como uma confissão.

Ônibus.

Ansioso, procura lenços; alguns passageiros descem e o observam, com estranha atenção, quando a matéria fria adere ao concreto, rompendo-se, para formar uma mancha na calçada, imaterial como uma memória, e o visgo, qual cumprisse um dever, espera.

O ônibus parte.

A rua, vazia e empoeirada, exala calor.

Ele encontra o lenço, no qual espirra, outra vez, assistindo o ônibus dobrar a esquina.

***

Espirra postado diante do prédio em construção. Quando passa por ali, repara naquele prédio, coisa que faz desde a adolescência. Parece que nunca continuaram a construção. As paredes enegrecidas e fendidas pela chuva, pelo sol e pelo tempo – três doenças da matéria.

Vacilante e distraído, caminha por uma calçada febril, em direção ao prédio.

O vestíbulo está escuro e empoeirado, tijolos quebrados pelo chão, baratas. Anda incerto até a escadaria; evita pisar nos montículos de fezes humanas, espalhados entre os escombros. Há copos plásticos e trapos, deixados ali à noite, estima. Sobe alguns degraus e pára ante a escuridão crescente, apesar das frestas de bela luz vespertina, suspensa, vinda de fora.

Entretanto uma voz infantil; a voz, concentrada, repete o primeiro verso de uma cantiga. Deixa-se ouvir; sente alívio: não está sozinho, há uma criança, que verterá disposição sem reservas ao redor, um pendor para a vida. Ou, lhe ocorre, seria uma gravação antiga.

Os olhos acostumados à penumbra; sim, há uma menina em meio aos destroços, placas de computadores etc., que segura um brinquedo de pelúcia e com quem senta no chão empoeirado para brincar, entoando modinhas de roda.

Passam um bom tempo por lá, brincam de correr pela sala, perseguem um ao outro. Ele conta sobre o emprego, o síndico, os vizinhos; explica que sem relógios, acaba se atrasando. Já exaustos, ele a põe para dormir no colo.

Algumas horas depois, decide partir; levanta, desce as escadas escuras, cobertas de pó. A luz do exterior entra pelas frestas inacabadas. O impacto do gigante se faz ouvir à distância. Lá fora, a tarde está quente; a solaridade caindo sobre o barro e a cal. As sombras são duras. Os arredores, insalubres, e pontuados de poucas construções, jazem desertos. Vendo-se sem ideias, como se uma letargia mental o fizesse esquecer, temporariamente, o imperativo humano do movimento, de prosseguir e, numa sucessão de ações, cerzir uma rotina, fica algum tempo parado, os olhos perdidos no cenário.

Um cadillac para na outra margem da rua. Vestindo um conjunto de peças compatíveis com a moda jovem dominante, em tons de preto e branco, o decote exibindo peitos sardentos imponentes, uma mulher irascível desce pela porta traseira.

– O que você fez com ela? – a ouvimos perguntar, num tom ameaçador. – Quem é você? – grita ainda, parada na outra margem.

Horrorizado, ele se vê incapaz de articular palavra. Segura a mala, como uma estátua, e embora não perceba, sua adenóide, novamente, produz secreção. A mãe transtornada se aproxima. O fluido escorre, e é empurrado pela potra reprodutora. Seu corpo cai, os ossos chocam-se contra o cimento no chão; deitado, é golpeado várias vezes. As agulhas do salto machucam seu rosto, e, acima, os peitos pulam, sedosos; ameaçadores; posicionada sobre ele, as unhas lhe são cravadas na face. Ela o acusa de pedófilo, repetidamente, e formigas, às centenas pelo chão, caminham sobre o corpo subjugado; as ferroadas são dolorosas, mas, de certo modo, não se dá conta. Um odor de fezes humanas os envolve, pungente. Os olhos miram as tetas, silenciosas.

– O que tá olhando? Tá secando meus peitos, seu doente? – vocifera a mãe, indignada.

Ele escapa e vai embora, correndo pateticamente. A poucos quarteirões de distância, é perseguido por cachorros, onipresentes na rua, saídos de uma esquina de drogaria. Puxam os cadarços do seu sapato. Afinal, ele se desvencilha.

Mais tarde, parado ao lado de um orelhão, espirra. O sol está caindo; as sombras tingem as calçadas com silhuetas de prédios comerciais. Tira uma ficha e, ligando para casa, diz à mãe que está tudo bem. Fala das coisas de sempre. O filho tem comido direito? Sim, tem comido direito. Estaria ele precisando de dinheiro? Não, não está, mamãe. A conversa se estende. Desliga. Parado na calçada, sem ideias, decide não voltar para casa aquela tarde. Anda por ruas desertas – usinas abandonadas, oficinas, carcaças de carros, sob o ruído grave das fábricas. Pensa na réplica dourada de relógio. Encontra um playground. Senta num brinquedo e fica girando lentamente à brisa do fim de tarde.

Share:
Daniel Liberalino

Comentários

Leave a reply