Em defesa da filosofia

Pablo Capistrano
Colunistas

No final de 1991 eu estava concluindo o terceiro ano do curso técnico de Geologia na ETFRN. Lembro de estar na fila para a inscrição do vestibular com a cartela de preenchimento das opções de curso na mão. Ali me deparei com a palavra “Filosofia” como uma das opções de graduação oferecidas pela UFRN.

Minha geração não conheceu a Filosofia nas escolas. Extraída do currículo nacional junto com Sociologia pela ditadura de 1964, nem a disciplina nem os conteúdos da Filosofia fizeram parte de minha formação escolar. Se não fossem as conversas com meu pai, e as memórias de infância das suas leituras em voz alta, em francês, dos textos de Albert Camus e Jean Paul Sartre, eu, como a maioria das pessoas da minha geração, provavelmente não teria a mínima ideia do que aquela palavra poderia significar.

Três anos depois, já aluno do curso de Psicologia da UFRN, me inscrevi em um “seminário de estudos clássicos”, organizado pelo departamento de Filosofia. Lembro de uma mesa em que o professor Markus Figueira, o professor Cláudio Ferreira Costa e o saudoso professor Juan Bonaccini discutiam Platão, Heráclito, Aristóteles.

Depois da minha participação naquele seminário nunca mais consegui me livrar do apelo da Filosofia. Em 1996 fui o único, e talvez primeiro aluno da UFRN, a solicitar a mudança de curso de psicologia para Filosofia. O diagnóstico familiar do caso deve ter indicado algum tipo ainda não classificado de transtorno mental.

Penso hoje que se a “ralé” (Atenção! Esse é um termo técnico usado por Hannah Arendt) da “escola sem partido” existisse naquela época talvez gritasse “síndrome de Estocolmo” e apontasse seu dedo delirante na direção de algum assédio ao qual aquele jovem e suscetível estudante de psicologia teria sido submetido, através das leituras do “comunista” Platão e de Aristóteles (aquele trotskista safado).

O fato é que eu aparentemente estava cometendo um suicídio profissional. Abandonando um confortável consultório de psicologia ao lado do consultório psiquiátrico do meu pai, por uma licenciatura de uma disciplina que simplesmente não existia na grade curricular das escolas. Mas eu era jovem e impetuoso e, com o perdão da expressão, “toquei o foda-se” para os cálculos de vantagens e desvantagens econômicas que colonizam a gigantesca maquinação da vida em uma sociedade de mercado.

Curiosamente foi justamente em 1996 que a nova LDB tornou obrigatório os “conteúdos de filosofia e sociologia” no ensino médio. Isso significava na prática que deveriam haver tópicos de filosofia sendo tratados nas escolas, mas não havia a obrigatoriedade de uma disciplina específica. Precisávamos então, naquela época, convencer os colegas professores, a equipe pedagógica, os donos de escola, as secretarias de educação e os pais dos alunos que a existência de uma carga horária de 50 minutos por semana se fazia necessária para que um profissional habilitado pudesse lecionar filosofia.

Uma eterna justificação da própria existência. Uma constante ameaça ontológica que nos lembrava a todo tempo da transitoriedade do lugar da Filosofia, considerada por muitos como uma disciplina “inútil e perigosa”.

Vinte anos depois estou aqui de novo tendo que justificar a existência de dois horários semanais para que os alunos da minha velha Escola Técnica (agora IFRN) tenham uma introdução à longa tradição de pensamento que estruturou aquilo que Jaques Derrida chamava de “mitologia branca”. Aquilo que formatou as bases culturais da chamada civilização cristã-ocidental e contribuiu de modo intenso para o desenvolvimento de países como Alemanha, França e Inglaterra (isso para se manter em uma argumentação absolutamente conservadora, vale salientar).

A minha felicidade é que, ao contrário de vinte anos atrás não estamos mais sozinhos.

Não estamos mais no platô civilizatório que nos foi legado pelas catastróficas reformas do ensino no período da ditadura. Temos ao nosso lado pessoas que, a despeito de terem formações diversas e leituras de mundo diferentes, reconhecem que não é possível para um país se desenvolver como uma nação civilizada (mais um argumento conservador para vocês anotarem aí) sem o cultivo dessa tradição de pensamento que gerou Santo Agostinho, Kant e Nietzsche.

Já temos uma geração que conhece a Filosofia de dentro da escola e pode depor a nosso favor no mesmo tribunal público que condenou Sócrates (o primeiro acusado de assédio ideológico na tradição ocidental).

Como comentou semana passada aqui em Natal o professor Edgar Lyra, vivemos um momento de falência discursiva. Um momento em que a capacidade de pensar de modo autônomo, fora do matraquear ideológico dos discursos que dividem o mundo entre “direitofrênicos” e “esquerdopatas”, parece que chegou ao esgotamento. Um tempo em que o idiota da aldeia se torna autoridade intelectual e que a “ralé” (Olha Hannah Arendt de novo) passa a legislar e conduzir de modo perigoso a mobilização dos afetos em direção ao fascismo (que é antes de mais nada uma espécie de falência da inteligência coletiva).

Num ambiente em que o falatório das redes sociais, altar maior onde toda possibilidade de diálogo sucumbe, impera absoluto, aqueles dois horários na grade semanal do ensino médio, talvez venham a se tornar uma das últimas fronteiras do pensamento.

Vivemos um tempo de perigo, onde as pulsões de medo e ódio, politicamente administradas pelos grupos que dominam o país, ameaça corroer o tecido da nação, trazendo junto com a falência da política, a pedagógica da guerra e da violência.

Em certo sentido, esses também são tempos interessantes, porque, como cantava Hölderlin em seus versos: “onde aumenta o perigo / aumenta também aquilo que salva”.

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Pablo Capistrano

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