Da falta de crítica cultural em Natal e outras discussões

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Debate levantado no feed do facebook reacendeu antiga cobrança pela crítica cultural em Natal. Salutar e necessário.

Mas a cobrança foi dirigida aos jornalistas. Pergunto: seriam apenas eles os responsáveis pela carência dessa crítica?

Os maiores críticos da história não foram profissionais da imprensa. E em Natal os mais capacitados críticos não são jornalistas.

Dez anos atrás e tínhamos bons exemplos. No finado Diário de Natal, o professor e artista plástico Vicente Vitoriano assinava coluna sobre artes visuais e, na área de teatro, o professor Sávio Araújo.

Qual jornalista escreveria com mais propriedade para esses temas do que eles?

Não à toa este Substantivo convidou alguns dos melhores críticos de cada área para integrarem o time de colunistas, inclusive os dois citados. E ainda Gustavo Bittencourt para Cinema, Milena Azevedo para Quadrinhos, Anderson Foca para Música, Thiago Gonzaga para Literatura e até o Breno Machado, mestre cervejeiro, sem falar em articulistas como Pablo Capistrano e Bruno Rebouças, ou escritores, como Daniel Liberalino.

Alguns são jornalistas. Mas penso que mais importante que jornalistas se posicionarem criticamente, é jornalistas abrirem seus espaços de mídia à crítica elaborada por jornalistas ou não.

O retrato do jornalismo cultural de Natal é de generalistas – aqueles jornalistas que sabem muito de várias coisas e pouco de uma coisa só. Entenderam? Faltam especialistas!

Conhecer a cena cultural de Natal e seus protagonistas é uma coisa. Entender partitura musical, arquitetura pós-moderna, produção de vídeos ou do cinema em países periféricos, matizes de cores, montagem cênica, linguagem coreográfica, etc, é outra coisa.

Via de regra vem de jornalistas a crítica literária, posto que a literatura é prima-irmã do nosso ofício. Mas para outras manifestações culturais a conversa exige mais aprofundamento.

A exigência da crítica local parte mais dos músicos. Mas qual jornalista atuante em Natal é músico ou tem ouvido musical para uma crítica mais abalizada na área? Lembro Moisés de Lima e Isaac Ribeiro.

Claro, outros mais podem tecer algumas palavras pela apreciação mais intensa da cena musical ou mais intimidade com a produção local, portanto, com propriedade em avaliar e, com o tempo, comparar diferentes períodos e épocas da nossa música. Mas é o bastante?

Eu, Sergio Groove, dos maiores baixistas do planeta, respeitaria a opinião de um jornalista não-músico?

Quem assistiu a palestra-aula de José Miguel Wisnik numa edição do Encontro Natalense de Escritores viu a diferença de um crítico verdadeiramente musical. Ele um músico, compositor e ensaísta, que decifrava cada nota de clássicos do cancioneiro nacional, mostrando a genialidade dos autores.

Por isso repito: faltam críticos especialistas em Natal. E não basta ser jornalista. Ou músico. Ou músico-jornalista. Quem seria capaz de, por exemplo, dimensionar a relevância da obra de Danilo Guanais?

Na redação do Jornal do Comércio, em Recife, havia departamentos de música, com especialistas para diferentes gêneros musicais, a exemplo da música erudita (pelo menos há uns 8 anos era assim).

Em Natal há um único jornalista de cultura para cobrir todas as áreas, sem hora extra, sem salário condizente com o esforço e cheio de estresse, e com as amizades de uma província de muros ainda baixos que, muitas vezes, atrapalham a honestidade do texto.

A crítica cultural não é para qualquer um, seja jornalista ou não. Entender determinada arte com profundidade, situá-la em nossos dias levando em conta o sistema capitalista e globalizado e a contradição da fragmentação vigente nas artes, a sociedade da tecnologia e do consumo, entre outras premissas já propaladas mesmo por críticos antigos, como Adorno, Marcuse, Lukács e outros, é complicado.

É tarefa para além da classificação repleta de adjetivos. Uma crítica precisa conectar a arte à contemporaneidade e às relações sociais, portanto, e como disse, levar em consideração o sistema de capital ou, como li dia desses, a cultura “serializada do consumo” para não cair no discurso ariano de Suassuna. E isso nem sempre cai bem por estas plagas.

Para ser crítico em Natal, para além das teorias de Adorno e Horkheimer, é preciso uma boa dose sartreana para não entrar em crise existencial.

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Comentários

5 comments

  1. Moisés de Lima
    Moisés Lima 7 outubro, 2016 at 15:42

    Fico à vontade e pouco vontade nesse debate Sergio. Nos anos 90 tentamos fazer um exercício de crítica artística. Mas esbarrávamos em problemas desencorajadores como a falta de apoio das empresas jornalísticas que não queriam pagar nem hora extra para as coberturas dos shows. Sempre foi um exercício difícil, complicado e corajoso. Cidade pequena onde dizer o que acha pode ate render inimizades. Me lembro de um jornalista da Tribuna do Norte que foi “ameaçado” por uma banda musical apos ter criticado negativamente um determinado trabalho.
    Hoje com as redes sociais há bilhões de críticos com opiniões para todos os gostos.
    Mas concordo que se deve lutar pela crítica cultural especializada.
    Mas todos estejamos preparados: os jornalistas para estarem aptos a criticar, e os artistas para recebê-las.

  2. Diogo Guanabara 7 outubro, 2016 at 16:02

    Excelente texto e reflexão. É um assunto amplamente comentado há muito tempo mas nao me recordo de ter sido debatido de forma produtiva e livre de vaidades.
    Assino embaixo. Toda crítica tem o seu valor, até mesmo aquelas nao muito respeitosas. É uma das maneiras da gente buscar evoluir e estar consciente nosso lugar no mundo, mantendo os pezinhos no chão.
    Quem tem trabalho público tem que estar preparado pra ouvir opiniões, sejam críticas ou elogios.
    Acho pertinentes as razoes elencadas quando fala sobre a dificuldade de condições para um só jornalista dar conta de vários estilos musicais, realmente a música é um campo muito vasto e nem mesmo um músico é capaz de opinar e falar com propriedade sobre determinados assuntos dentro dela.
    Apesar disso, continuo acreditando ainda ser fundamental que existam jornalistas que falem a linguagem musical, nao precisa ser um Wisnik, mas que tenha uma base mínima ao abordar o assunto e vá além do campo do “achismo” ou da opinião pessoal sobre aquele fulano. Todos nós, músicos ou jornalistas, so temos a ganhar com isso. Como músico atuante na área há quase 2 décadas, posso assegurar ser essa uma das razoes pela qual as vezes a opinião nao é “respeitada” ou bem recebida pelos músicos, mas nao discordo, jamais do direito e da legitimidade do opinante, talvez da credibilidade.
    Enfim, esse é um tema que dá margem pra muita discussão, e quanto mais for falado, melhor será pra todos, e acho que tem que ser debatido sob varias perspectivas, sempre visando o amadurecimento de ambas as áreas, a cena cultural agradeceria, pois também teríamos mais repercussão nas nossas realizações.

  3. Fabio di ojuara 7 outubro, 2016 at 17:39

    Há muito venho reclamando disso, hoje temos muitos periquitos lavando fama de papagaio e até de araras por falta de claves crítica na nossa pauta cultural…
    TODA MERDA AGORA É ARTE

  4. Sergio Vilar 10 outubro, 2016 at 09:44

    É isso, Diogo. Eu mesmo comento um ou outro show que vou. Tenho ido a poucos por inúmeros motivos. Mas o resultado é muito mais um texto interessante ao leitor do que uma crítica valiosa ao músico, penso eu. O próprio Bethoven disse que leu um texto meu sobre um show de Khrystal e “viajou” nas palavras, como se estivesse lá na plateia. Então ele gostou do que eu disse, mas no texto eu não falei que Khrystal era afinada ou não porque não tenho essa capacidade. Mas é uma artista que acompanho desde o começo e posso falar alguma coisa, pelo menos sobre outra ótica, seja comparando os álbuns lançados, que escutei todos, entre outros aspectos. Enfim… rs

  5. Diogo Guanabara 13 outubro, 2016 at 09:03

    Perfeito. Mais uma vez entendo o seu ponto de vista e a importância de diferentes opiniões sobre qualquer assunto. Sei que embora nao seja a sua especialidade se ater a determinados aspectos musicais mais específicos tenho plena convicção de sua altíssima capacidade enquanto jornalista do segmento cultural. Nem toda análise deve ser necessariamente técnica, afinal de contas, grande parte do público nao é músico, então logicamente existem inúmeros aspectos importantes que merecem consideração alem de técnicas ou dissonâncias. Reconheço o valor e a importância de um texto interessante. Com certeza esse é um bom debate.

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