POETA DA SEMANA: Lívio Oliveira

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Poeta, cronista e ensaísta, Lívio Oliveira nasceu em Natal, em 1969. Atua profissionalmente como Procurador Federal, mas tem na literatura algo visceral, que lhe move fortemente o desejo. Além de sete livros de poesia (O Colecionador de Horas (2002); Telha Crua (2005); Pena Mínima (2007); Dança em Seda Nua (2009); Teorema da Feira (2012); Resma (2014); e Cais Natalenses (2014), Lívio publicou também um livro de ensaios intitulado Bibliotecas Vivas do Rio Grande do Norte (2005) e lançou, em 2009, um CD em parceria com o músico Babal Galvão (intitulado Cineclube). Em 2004 foi premiado em primeiro lugar nos dois concursos de poesia mais concorridos do Estado: Othoniel Menezes – Funcarte/Natal e Luís Carlos Guimarães – FJA/RN. Tem contribuído com seus textos para diversas publicações impressas e na internet. Atualmente, mantém coluna literária regular na Tribuna do Norte e neste Substantivo Plural. Manteve, também, por alguns anos, o blog cultural O Teorema da Feira. Lívio Oliveira é nosso POETA DA SEMANA:

SEIS DORES DE SOLIDÃO E O MAR

(I)

Rochedo e sono

Inaugurada a tarde interna – esforços bravos
firmam-se em mirar entre as palhas secas: vidas
lá longe o frio se arrasta leva a folha ao fundo
dos meus olhos que explodem ao meio-dia ainda
em cataclisma em catapulta aleatória.

Há os ventos que penteiam a duna inteira
e as faíscas que pulam das areias duras
se aliam ao mar que cabe dentro hostil
armando os templos imemoriais
enfrentam rochas: barco só e tosco.

(II)

Barulho e caverna

Ouve os sintomas das marés que avançam
molhando os corpos das razões e so(m)bras
os sais brilhosos das costas e testas
não refletiram o marco firme o umbigo
do oceano que adentrou o milênio.

Força agora um tempo estranho e roto
de multidões de caranguejos vagos
cascas que rolam soltas – superfície
prateada: a juba cheia atlântica
recuada ante os mais fortes ventos.

(III)

Despertar atônito

As tais surpresas transportaram em ondas
aterrissaram em margens assimétricas
foram tragadas do mar alto em torno
vieram brancas como voz em vibrato
as velas ornamentais dos inibidos passos.

Estar à margem não era então vergonha
havia um ponto em que engolia algas
alimentava a luz do sol tardia
a primitiva explosão em mar vulcânico
que se espalhava em sobejos ardidos.

(IV)

O delírio aceso

Custava tanto entronizar o santo
dos rudimentos que chegavam em barco
assoviava então canções de esperanças
mergulhos sonhos que escalavam locas
onde as cores afiavam os dentes.

Até a tona o ritual seguia
incandescente dentro dos pulmões
robustos peixes rotundas aves
chegavam remos aos portões da noite
salvando o dia ainda não guardado.

(V)
A voz devagar

Era no mar e não havia espasmos
que impedissem a correnteza bruta
escorregando em meio aos corpos nus
carnes abertas seios de sereias
bocas imensas de arrecifes negros.

Tudo era tragado e o urro lento e forte
ditava horas para os navegantes
de dentro a pedra e a canção de fé
de uma criança solitária e inerme
ousada em crença de retorno à terra.

(VI)

A dor ainda

A intensidade da dor lancinante
causava estrondos nas falésias – montes
de pés sobre o mar pisando a enseada
redesenhando as posições dos homens
que se jogavam em loucas aventuras.

Não eram incautos eram somente ilhéus
que se lançavam das graves alturas
buscando rotas que acalmassem prantos
feridas que se rasgariam ao vento
o sangue: mistura ao mar e ao sal.

(VII)

Derradeira ilha

Apascentada em luminosa estrela
virou o raio a direção eleita
até o ponto em que o brilho elevava
a nova fé que aproximava margens
demoliu dores resgatando o sonho.

Os continentes até então distantes
se religaram estreitos monumentos
vencidos demônios de escurecidas almas
o sol retorna à margem à praia ao dia
e o que era ilhado agora é continente.

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Comentários

3 comments

  1. François Silvestre
    François Silvestre 14 outubro, 2016 at 17:42

    Poeta, figura humana, ser completo. Lívio Oliveira dispensa e não pede aplauso, mesmo merecendo. Belo texto, Serginho. O SP é foda!

  2. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 16 outubro, 2016 at 14:13

    Obrigado pelas palavras generosas, grande François. Precisamos tomar aquela cerveja. A garrafa já deve estar se partindo na geladeira. Abraço forte e afetuoso.

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