POETA DA SEMANA: Regina Azevedo

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Regina Azevedo é uma poeta natalense de 16 anos, autora dos livros “Das vezes que morri em você” (2013) e “Por isso eu amo em azul intenso” (2015), pela editora Jovens Escribas. Ela é estudante de Multimídia no IFRN, criadora do sarau ‘Iapois, Poesia!’ e escreve pros sites O Chaplin e Apartamento 702. Seus poemas figuram em museus, filmes, camisetas, antologias e revistas pelo país. Seu próximo livro é o “Pirueta”, pela editora Yiyi Jambo, do Paraguai. Regina Azevedo é nossa POETA DA SEMANA:

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Se Deus existisse ele aparecia agora
Quando você diz que Ele é uma mulher negra
E eu acho que, se Ele existe,
não é de carne e osso.

Deus combinaria com a terra
Deus combinaria com o sopro do segundo
Deus combinaria com o pulo do último peixe na Floresta Amazônica
Deus combinaria com o sangue de um mosquito
Deus combinaria com a suavidade da sombra
Deus combinaria com o sussurro de uma avó que o chama

Se Deus existisse ele apareceria agora
Quando você diz que Ele é uma mulher negra
e por isso você merece um beijo

mas especialmente os olhos de Deus
voltados pra quem pede dinheiro em seu nome
voltados pra quem mata em seu nome
voltados pra quem expulsa os filhos de casa em seu nome
voltados pra quem tem empresas em seu nome

E toda a terra de Deus,
toda a água, as ondas,
as plumas, as escamas
os minerais, as rochas,
voltados pra quem pede um beijo em seu nome

———

Beijar Você

Beijar você
na queda livre da montanha
russa – feito embrião
aprendendo a dar cambalhota.
Bolinhas cítricas explodindo
na língua. Um trote
desafiando a gravidade,
o batom vermelho desejando
pular da minha boca pra sua.

Nosso toque parece,
a olho nu,
Uma boiada pisoteando
uma teia de flores
Um filhote de orca separado
da família.
Mais de perto, a mão que passeia
é a mesma que dança
Nossos ombros unidos
fazem brotar orquídeas ou margaridas.

O que há de mais bonito é
A espessura do seu batimento cardíaco
A cor que meu cabelo adquire
de acordo com o raio da sua visão.
Sua pupila dilatada
muito perto da minha pupila dilata.
Seu sorriso diante da minha clavícula,
da ideia de estação,
do pensamento de que tudo,
inclusive o que se esconde na linha do horizonte,
é pura beleza.

Tudo, absolutamente tudo,
Mas no ponto mais alto do pódio
beijar você na queda livre
da montanha russa.

———

sinto muito não ser assim suave
você disse que aquele pássaro
era da cor do meu cabelo

mas ele era vermelho

e nosso amor está em algum lugar
entre o voo e a extinção da espécie

meu cabelo é laranja
laranja porque sou poeta

(e prefiro ter cara de poeta
a ser bonita)

você estava andando na rua
viu um pássaro
e lembrou do meu cabelo

isso diz muito sobre
seus olhos
esses, sim, vermelhos

———

meu coração
tem dor
de cabeça

———

Não existem portas nessa casa

Um dia estive na estrada esperando o futuro

E descobri que o amor se acaba aos poucos
como o derradeiro farelo da Terra na boca de um jacaré

E isso dói como dói uma cascata
direto nas costas castigadas de um povo

Mas é assim que caminha o mundo: numa corrida

Em uma hora alguém chega e há uma reviravolta de 360 graus
e sua pele 40, 50, mais que o Rio de Janeiro
E nunca se sabe de onde vem aquela pessoa com quem nunca você sonhou
mas estará ao seu lado daqui a 5, 10
ou mil anos num túmulo de pedra

Também não se sabe a porcentagem de tempo
em que caminharão juntos
Nem se você estará ao lado de um assassino, poeta ou vendedor de salgado
desses que ficam horas na cozinha e quando se deitam na rede
têm cheiro de empada de camarão e você cheira e que delícia

Mas o amor se acaba aos poucos
E é preciso sempre esquecer isso
para que haja amor,
para que haja começo

———

medindo azul

apoio em minhas costas
metade da carcaça
toda fodida da baleia
e tomamos sol juntas
eu caminhando vestida de peixe
em direção ao fim da praia,
ao palco onde os pássaros descansam
no cair do dia
e o filhote dela exercendo um peso enorme
para dentro de mim
seus olhos caçando mamãe no oceano
seus olhos caçando mamãe,
caçando oceano
e depois caçando azul, medindo azul
que horas são, é baixamar
deslizar como desliza a comida na garganta
voltar voltar voltar voltar
caçando desesperadamente um pescador
que queira experimentar seus anzois
eu não, anzol eu não tenho,
digo ao abrir as pernas e devolver
o filhote ao mar

———

o sertão sou eu

capim seco
corta pele
atinge carne
longe gado cai,
gado só fica em pé com água
vovó quase não conhece
terra molhada
sandália minha brilha,
pé de solas avermelhadas
desci do salto
passeio na estrada do tempo
corpo tem necessidade
de estar perto da alma
corpo quer morar em casa
corpo precisa adormecer
ouvindo sua voz
canto do galo celebra milharal
água chegando na caixa
paredes ficam frias
afundo surda em colcha de pano
cada retalho tecido pela desistência
de um bicho
afogo muda em cílio de pavão
pés repousam na rede
chaleira geme
capim santo
alma despida de cidade
dor se despede
deixa corpo aos poucos
chove

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