Onde está o negro e a responsabilidade do escritor na literatura potiguar?

Colunistas

“Creio que a função do escritor é a de ser a testemunha do seu tempo e da sua sociedade.
Escrever por aqueles que não sabem escrever…”
Lygia Fagundes Telles

Recentemente, efetuamos uma criteriosa pesquisa biobibliográfica, tendo como prioridade as questões referentes à problemática do negro no campo da literatura potiguar, para de alguma forma contribuir para ampliar o leque dos estudos críticos e literários nesse campo.

A literatura negra no Rio Grande do Norte quase não existe, e quando aparece ao longo da história não tem o caráter de engajamento que, de maneira geral, procura denunciar aspectos problemáticos da realidade em que vive o negro, de forma a contribuir para que se produzam certas mudanças na sociedade da qual ele faz parte.

Foram pouquíssimos os autores que se engajaram na luta em prol da negritude. Recentemente a poeta Drika Duarte dedicou um livro de poemas totalmente à militância afro, e agora, eis que surge a jornalista Shirlene Marques, defendendo em forma de crônicas a mesma causa.

Gestos como esses são muito importantes, pois sabemos que, como todas as artes, a literatura está vinculada à sociedade em que se origina. Não há escritor completamente indiferente à realidade. De alguma forma, todos participam dos problemas da sociedade, apesar das diferenças de interesses e de classes sociais. O poeta norte americano Ezra Pound definiu a literatura como uma linguagem carregada de significado.

Partindo das suas experiências pessoais, o escritor recria a realidade, dando origem a uma realidade ficcional, e através dela consegue transmitir suas ideias ao mundo real. Desta maneira entendemos a literatura como um objeto vivo, uma relação dinâmica do escritor com o meio.

A função da literatura, segundo Antonio Cândido, está ligada à complexidade da sua natureza e ela é uma construção de objetos autônomos com estrutura e significado, e é também uma forma de expressão e de conhecimento. Para Cândido a literatura tem uma função “formadora”, que lhe confere um caráter educativo, atuando na formação do leitor.

Para o estudioso existem na literatura níveis de conhecimento intencionais, ou seja, planejados pelo escritor e conscientemente assimilados pelo leitor. E são nesses níveis que o autor injeta suas intenções sejam ideológicas, de crença, ou revolta. Neste caso , segundo Cândido, a literatura satisfaz em outro nível, à necessidade de conhecer os sentimentos e a sociedade, ajudando o leitor a tomar posição em face deles.

O ponto de vista do artista, mesmo implícito, defendido em sua obra, contribui para novos olhares sobre a realidade, e com isso, propaga novas ideologias, consequentemente o leitor de alguma forma terá uma nova postura.

Acreditamos agirem dessa forma duas funções da literatura: a função cognitiva, ou seja, de passar conhecimento, e a função político-social, que é a que interfere no senso critico do leitor, formando uma opinião.

No inicio dos anos 60, Ferreira Gullar já havia mencionado a importância da responsabilidade social da literatura. O poeta criticou o caráter puramente estético da arte, defendendo a arte engajada como instrumento de conscientização numa visão construtiva da sociedade.

Nesta mesma linha de pensamento o escritor José Guilherme Merquior apresentou e defendeu a arte, de maneira geral, como forma de conhecimento em torno da realidade, que deveria refletir a condição nacional, ou seja o artista e seu trabalho deveriam influenciar direta ou indiretamente as pessoas.

Entendemos dessa forma que todo escritor tem uma responsabilidade social sobre tudo que escreve ou produz, que cria e divulga. O público que consome a arte, que tem contato com ela, é influenciado, direta ou indiretamente. A arte deve levar as pessoas também a uma reflexão sobre situações e acontecimentos da nossa vida e do mundo; esta é a função do artista, segundo Merquior.

Ainda com base nas ideias de Merquior acreditamos que é exatamente a condição cognitiva da arte que pode conferir ao artista condições para tratar de assuntos, sérios, importantes, tornando-se assim um instrumento de transformação social.

Tal como acontece com Shirlene Marques e o seu livro “Branca, Negra, Negra, Negra”.

Concluímos afirmando que a África está em todos nós.

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Comentários

4 comments

  1. Oreny Junior
    Oreny Júnior 7 novembro, 2016 at 11:28

    É isso, Thiago!
    Preconceito racial, atingindo outras esferas, culturais. ‘A África está está em nós’, o morro está em nós. A sociedade do asfalto olha o negro em desnível. Não é diferente com a literatura negra. Lima Barreto foi negado o acesso à ABL por duas vezes. Preconceito, indiferenças, infelizmente!
    Parabéns pelo texto!
    Abraços!

  2. Nivaldete Ferreira 7 novembro, 2016 at 12:35

    Aftáfrica
    (Nivaldete Ferreira)

    A Nação foi ao médico e se queixou:
    -Não… consigo… falar… direito…
    -É fácil ver: tens uma imensa áfrica na boca.
    -Uma… áfrica?… E… tem… jeito?…
    -Tens de aceitá-la,
    Tens de comer, falar, silenciar, rezar com ela…
    Tens de compreender que faz parte do teu organismo.
    Compõe a tua saúde
    A tua aftáfrica… Agora sai, ó tola, pega um tambor, junta-te
    A outros músicos, ao da flauta de taquara, ao do violão,
    Ao da sanfona e vai
    Dançar e cantar!

  3. Jois Alberto 15 novembro, 2016 at 14:11

    RAÇA

    (Jois Alberto)*

    A Abdias Nascimento

    negra nega

    nega a tua alma branca

    nega a copa & cozinha

    nega, a história do Brasil:

    nega negaram

    a raça de grandes homens, negros.

    nega, não nega

    o teu cabelo a tua raça

    *************

    * Poema que escrevi por volta de 1979, quando eu tinha 19 anos de idade e publicava poemas em livros impressos em mimeógrafo… Também abordo essas questões no posfácio do meu livro “Poetas azuis paixões vermelhas amores amarelos” (Natal: Sebo Vermelho, 2003), mas de tal maneira crítica que, acredito, dificilmente será citado por escritor ou pesquisador branco de Natal etc, a não ser que seja para me criticar é claro. Acredito que não seja o seu caso, Thiago Gonzaga, mas também não se pode querer passar a ideia de que escritores norte-rio-grandenses negros ou pardos, como eu, a gente não tenha se preocupado ou escrito sobre essas questões em nível local. Posso citar também textos do poeta e ensaísta João Batista de Morais Neto. Claro, é importante também que escritores brancos ou escritoras brancas escrevam poemas ou outros textos sobre negritude, África etc, mas se se omite o que os próprios escritores locais negros ou pardos escreveram sobre o assunto, será inevitável, em mim, a sensação de ver a situação como um velho filme da época da transição do cinema mudo para o cinema falado, no qual Al Jolson, ator branco, aparecia pintado de preto no filme “O cantor de jazz”, já que a então nascente indústria cinematográfica dos EUA não aceitava atores negros, principalmente como protagonistas, da mesma forma como muitas vezes me dá a impressão de que a literatura local – salvo raríssimas exceções – não aceita escritores negros num papel de destaque etc etc.

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