Crônicas e Artigos

Uma poesia feita de carne

jeanne-araujo

Não é por acaso a escolha da tela “Nua sentada”, de Modigliani, para a capa do livro Corpo Vadio, de Jeanne Araújo. Tampouco aleatório o título Corpo Vadio, considerando a ideia de corpo como a materialização da vontade e o vadio como a possibilidade de realização do desejo, como um flâneur.

Por um lado, a vontade que está em potência, aquilo que não poderia deixar de ser, como a energia sexual que é própria do corpo, como o orgone de Wilhelm Reich, uma força vital que a necessidade do corpo distribui nas veias, nas células e revela nos poros, tanto no suor, quanto na lágrima, passando pela temperatura da esperança do gozo queimando na pele. Por outro, o desejo que se manifesta no olfato, no tato e em todos os sentidos que o sonho esculpe, sem ensaios, mas no imponderável regido pelas leis das circunstâncias.

corpo-vadioEm Corpo Vadio, Jeanne Araújo destila as sensações dos órgãos e dos pontos “G”, oriundos do acaso, do empirismo, ou seja, não se trata do ideal e, tampouco de uma realidade antes da ação, mas do real na medida em que se realiza o ato do encontro entre os corpos que vadiam sem nenhuma outra intenção senão a de vivenciar o prazer.

Nesta obra, a poesia de Jeanne Araújo é uma espécie de anel de möebius, ou seja, um caminho sem fim nem início, infinito, onde se pode percorrer toda a superfície da faixa que aparenta ter dois lados, mas só tem um, onde o dentro e o fora são percorridos na ponta de uma pena aguçada em todas as curvas.

Da mesma forma, já se torna praticamente impossível estabelecer uma fronteira entre o sacro e o profano, considerando que o corpo como o espaço sagrado e consagrado como o lugar do prazer, ao mesmo tempo em que o profano é a possibilidade de romper com o gesso das mitologias e fazer com que o corpo seja um terreno sangrado no baldio das vontades que são a manifestação do corpo ardendo em versos e anversos.

Nesse sentido, embevecida de palavras, o corpo é um poema, mas não um poema em si, mas aquele que desenha e se desenha em cada verso e, no amontoado destes, a estrofe explode em espasmos construindo as imagens do amor carnal.

O Corpo Vadio, de Jeanne Araújo, é pura musicalidade, desde a sonoridade dos poemas até os instrumentos que compõem a orquestra sinfônica de sua poética, passando pela cadência e/ou ritmos resultantes dos acordes, acordos e desacordos que a autora provoca nos encontros e desencontros dos corpos na partitura do amor onde a carne se faz verso.

Jeanne Araújo manuseia as palavras de formas diversas e de versos colocando o corpo como a matéria prima, ou seja, escreve com a carne, tanto no diz respeito ao desejo realizado quanto no que tange à vontade que, mesmo quando não se realiza, se impõe como um desejo em estado de emergência.

Enfim, é uma poesia feita de carne, da carne que se faz verbo no sangue que corre nas veias da volúpia. Este é o meu corpo que sangra: comei e bebei não em memória de mim, mas em mim. Uma poesia que explora o universo feminino percorrendo os mais ínfimos desejos do prazer. Mas não se trata de um universo feminino da mulher que se contenta da condição de costela na pele de Eva, mas de Lilith, a mulher autêntica e ausente das escrituras.

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Wilson Coêlho

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