Relatos de um motorista uber quando jovem

Lucas Galvão
Colunistas

Saí muito tarde de casa. Não consigo cumprir a meta de iniciar as atividades no alvorecer do dia, mais precisamente às sete da matina, horário em que os padeiros despejam o amontoado de pães frescos à espera de bocas vorazes que irão devorá-los em fração de segundos. Neste horário, também vemos grupos de pessoas caminhando nas calçadas, algumas passeando com seus cães, outras com trajes esportivos indo em direção à academia para mandar brasa na esteira e depois se debruçar nos diversos maquinários. Entre as repetições, uma selfie em frente ao espelho e uma nova foto no Instagram.

Pois bem, nesse horário ainda me encontro deitado na cama, mas não dormindo – pois desperto mais cedo que galo que cacareja em porta de igreja. Perceba: há um grande distanciamento entre apenas abrir os olhos e o ato de mover o corpo da cama. Durante o meio tempo, bastante coisa pode acontecer, porque nós, seres humanos, respeitando o desenvolvimento ‘biotecnológico’ da espécie, nos adaptamos a dormir com o celular acoplado ao corpo. Saudável sei que não é, mas já entendo que faz parte da nova biologia humana. Lascou.

Após ultrapassar todo este ritual, chego até o banho pensando quais serão as figuras que entrarão na minha viatura; digo, carango. Tudo bem, carro é sempre o nome mais imponente. Receberei todos de braços abertos, com alegria estampada no peito! Alegria de palmeirense que, pela primeira vez, verá o time ser campeão brasileiro da tão estimada série A. Dá-lhe porco.

Não posso negar, e peço desculpas às mulheres se soar meio machista, mas como membro da ala masculina, é óbvio que torço pra que pelo menos uma vez ao dia, adentre no banco traseiro do meu Fiesta, alguma musa que faça minha aura brilhar com mais intensidade, aquele colírio certeiro para os olhos, desses que nos fazem levitar, flutuar e reluzir a ponto de esquecer que existe uma marginal com inúmeros carros trafegando velozmente, buzinas que reverberam sons deploráveis, ultrapassagens e xingamentos mil. Só uma vez ao dia, mi lorde; nothing more.

Mas não sou Nostradamus para arriscar adivinhar o futuro. Minha missão é atender aos chamados dos passageiros. É um game. Um jogo da vida real. São vidas concretas que fazem parte da minha jornada. Além de preservá-las, busco compreendê-las. Em alguns casos, mesmo tomando cuidado, personifico a figura de um terapeuta ‘Jaggeriano’: tento ajudar os passageiros com uma pitada de bom Rock ‘ N’ Roll. Às vezes funciona, outras vezes não, mas pelo menos não cobro consulta.

E assim vou guiando meu possante dentre os becos termais, que estão cada vez mais quentes. Agradeço ao universo por mais um dia de trabalho, e peço proteção a Jack London, pai dos aventureiros, para que o mesmo me oriente, caso meu GPS resolva me levar às alamedas mais modorrentas da cidade. Sigamos, pois.

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Lucas Galvão

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