10 perguntas para o escritor Charlier Fernandes

Thiago Gonzaga
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1– Charlier Fernandes, fale-nos um pouco da sua infância em Caraúbas e da sua chegada em Natal. Quais foram suas primeiras impressões, e como se deu sua entrada no movimento literário na capital?
Caraúbas – aonde vivi até completar 14 anos – foi e continua sendo a minha Pasárgada, sempre presente no meu enlevo mais íntimo, sempre presente no desfile de minhas lembranças de menino. Os banhos no açude da fazenda Quixaba, do meu tio Assis. Os banhos de chuva percorrendo as ruas da pequena cidade. Os espetáculos dos circos mambembes. As festas do padroeiro São Sebastião. Enfim, vivi em Caraúbas o período em que, recordando a música de Ataulfo Alves, eu era feliz e não sabia.

Quanto à minha chegada em Natal, a minha sensação foi de deslumbramento. Deixar de morar em uma pequena cidade do interior para ser um habitante da capital do estado! “Agora virei uma pessoa mais importante”, pensei. Ingenuidade do adolescente.

No que diz respeito à minha entrada no movimento literário na capital, é preciso admitir que não ocorreu. Todavia, não deve ser esquecida a minha participação no Grupo DÉS, ao lado de Anchieta Fernandes (irmão de Charlier), Dailor Varela, Fernando Pimenta, Jarbas Martins, Juliano Siqueira, Moacy Cirne e Ribamar Gurgel. Defendendo, em manifesto, a superioridade da poesia concreta, na comparação com outras formas de criação poética, o Grupo DÉS, indubitavelmente, desempenhou, na prática e na teoria, um importante papel na história literária do Rio Grande do Norte.

2– Charlier Fernandes, fale-nos de “Entrega ao Mito”, seu mais recente livro. Do que tratam os poemas?
Gosto das três palavras que escolhi para intitular o livro. Os poemas revelam isso mesmo: uma completa rendição, um submeter-se, um deixar-se possuir, um comprometimento, uma entrega ao mito. Mito no sentido grego da palavra. Mito: aquele e aos símbolos. Símbolo, por exemplo, como está descrito naquela manhã mitológica objeto do poema “Figuração da manhã mitológica”, que está no meu livro.

3– Fale-nos um pouco da sua carreira como escritor.
Não fiz carreira como escritor. Bissexto radical é o que sempre fui. Aonde fiz carreira – e disso não me orgulho nem um pouco – foi no Serviço Público. A velha questão da sobrevivência. A condição sine qua non.

4– Existem mudanças significativas na poesia do Charlier de hoje, se comparamos com o Charlier dos anos 60?
Essas mudanças não existem. “Entrega ao Mito” é composto por apenas 29 poemas em verso, e 7 em prosa, cobrindo um período de aproximadamente meio século. A minha rigorosa auto-critica sempre me impediu de escrever ou só permitiu a elaboração de um ou outro poema, ao longo desse período. Imagino que o resultado estético presente nos poemas que escrevi recentemente – resultado estético este a ser aferido pelo leitor e/ou pela crítica literária – encontra-se no mesmo nível daqueles que compus há cinquenta anos.

5– Qual o escritor, do passado ou do presente, você gostaria de convidar para um café?
Do passado, o grande Fernando Pessoa. Que por sinal gostava muito de tomar café. Várias xícaras ao longo do dia, sempre no estabelecimento denominado “A Brasileira”, em Lisboa.

Do presente nem é necessário convidar. Já faz algum tempo que, toda semana, nas terças e quarta-feiras, tomo café, à tarde, na companhia do ficcionista e poeta Bené Chaves e do crítico literário, pesquisador e poeta de vanguarda Anchieta Fernandes.

6– Uma obra inesquecível?
Vou citar duas: uma do cinema e outra, da literatura. O filme “Lola Montés”, dirigido pelo vienense Max Ophuls. E o fabuloso livro “Grande Sertão: Veredas”, obra-prima de João Guimarães Rosa.

7– Uma música?
A canção “Hey Jude”, gravada pelos Beatles. A propósito dessa música, composta por Paul McCartney, conta-se que este a escreveu para a esposa confortar o pequeno Julian Lennon, na ocasião em que o pai dele, John, estava oficializando a sua separação da esposa Cynthia. Na letra, Julian virou Jude.

8– Um lugar memorável?
Salvador, a capital da Bahia. Percorrendo o Pelourinho você se transforma num habitante do Brasil-colônia. E a magia da igreja de São Francisco, com todos aqueles altares cobertos de ouro!

9– Se um ET surgisse na sua frente e solicitasse “Charlier Fernandes, leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Diria para ele que seria impossível, na medida em que não há líderes em minha vida. Mas faria a ele uma proposta: leva-lo à presença de um cidadão chamado Sanderson Negreiros, responsável pela criação de um ser que também não se encontra entre os habitantes deste planeta. O autor de “Fábula Fábula”, ou menos importante há aproximadamente 50 anos, escreveu uma série de reportagens publicadas no extinto “Diário de Natal”, dando conta da existência de um vampiro que aparecia durante a noite, percorrendo as praias de Natal. O poeta destilou o seu talento nas matérias que pareciam revestidas da mais plena e inconfundível realidade. Resultado: era só o que se comentava nos bate-papos do Grande Ponto. E o faturamento do jornal subiu para as alturas.

10– Se pudesse recomendar um livro para os leitores, qual seria?
“Uma Estranha Realidade”, de Carlos Castaneda. Mistura de ficção e filosofia, vazada em linguagem acessível. A sabedoria transmitida por Dom Juan, o personagem principal, ensina: “Nada é mais ou menos importante do que qualquer outra coisa”. Conceito que, se tivéssemos, todos, a capacidade de pôr em prática, transformaríamos a terra num planeta feliz.

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Thiago Gonzaga

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