Crônicas e Artigos

Uma poesia de resistência

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A poesia de Eliana Pulquillanea Nahuelpan, em Azul Gris – Palavra e Imagem na Cidade, é o canto de um pássaro resistente que demonstra de forma sonora e encantadora a ideia de que os Mapuche não podem ser compreendidos de acordo com a perspectiva dos colonizadores espanhóis, ou seja, não são índios e, tampouco, são chilenos.

Para analisar a poesia de Eliana Pulquillanea Nahuelpan, uma poeta que vive na região de San José de la Mariquina, na parte sul costeira do Wallmapu, no Chile, muito mais que nos socorrermos aos verbetes acadêmicos da literatura, se faz necessário entender de que matéria são compostos os seus versos.

unnamedResgatando um pouco a história, em resumo, a coisa se deu mais ou menos assim: os espanhóis, no momento da colonização, ao se depararem com os Mapuche, disseram, são índios e, depois, construíram uma cerca em volta deles e disseram: é o Chile. O significado da palavra Chile é desconhecido, mas pode ser que seja um derivado de um termo araucaniano que significa “as profundezas”, como uma referência ao fato de que a Cordilheira dos Andes se precipite drasticamente sobre a estreita faixa costeira.

Pode ser também que derive da palavra quéchua ou mapuche “chili/chilli” que significa “onde a terra termina/onde a terra vai embora/limite do mundo” também pode ser uma possível derivação.

Outra possível origem é a palavra nativa “tchili”, que significa “neve”. Por outro lado, quanto aos índios, Cristóvão Colombo, quando alcançou as terras da América, acreditando que havia descoberto o caminho para as Índias navegando na direção oposta à dos Portugueses, não titubeou em chamar os nativos ali encontrados de índios. Mas para os Mapuche está muito claro que eles não têm nada a ver com estes conceitos.

E a grande prova de que a questão dos Mapuche se trata de um povo autêntico que tem uma língua e uma cultura próprias está presente na poesia de Eliana Pulquillanea Nahuelpan, Azul Gris. A obra é bilíngue, em espanhol e mapudungun. Em espanhol, para que através da poesia deste povo seja uma maneira de apreender e compreender o mundo Mapuche, como uma contribuição na diversidade cultural de um Chile colonizado por espanhóis e, em mapudungun, como um suporte ao esforço que faz esse povo originário para manter viva sua língua e seus costumes ancestrais.

Entender a poesia de Eliana Pulquillanea Nahuelpan é uma forma de conceber um mundo que não separa o homem da natureza, diga-se de passagem, os Mapuche, onde mapu significa terra e, puche, gente que, por sua vez, se expressa em mapudungun. Mapudungun quer dizer mapu (terra) e dungun (fala), ou seja, ao contrário da cultura da colonização que acredita no poder do homem nomeando a terra, entre os Mapuche, temos uma gente que é uma espécie de ente onde o ser da natureza se utiliza para se manifestar.

É neste cenário que a poesia de Eliana Pulquillanea Nahuelpan se insere. Ao mesmo tempo em que a resistência da cultura mapuche está representada em sua poesia, seus versos também estão permeados pela generosidade e vontade de entender o outro, considerando que a poeta invoca as forças da tolerância para que não abandonem o seu espírito. Tudo isso num permanente diálogo com a natureza.

Tudo isso num permanente diálogo com a natureza. Tudo isso numa sensibilidade aberta à possibilidade de perceber o sorriso do rio e a respiração das montanhas beijando os céus. Tudo isso numa capacidade incrível de transitar o tempo num outro tempo e na maneira específica de seu povo, considerando que a idade de alguém é a idade da memória, ou seja, quando se pergunta quantos anos tem um mapuche ele responde contando os anos de sua existência somada com a de seus pais, de seus avós e até bisavós e de todos com os quais ele tem uma relação direta. Assim, a idade de um mapuche é a soma de todas as idades daqueles que de uma forma ou outra contribuíram e são os transmissores de sua cultura, de seus conhecimentos e visão de mundo.

Enfim, Eliana Pulquillanea Nahuelpan, em seu livro de poesia Azul Gris, narra fundamentalmente o sentimento e o pensamento de uma mulher mapuche no mundo urbano e colonizado que ao mesmo tempo é hostil tanto na forma como se organiza quanto na maneira como se torna um instrumento de negação de sua identidade.

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Wilson Coêlho

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