Novos rumos

Thiago Gonzaga
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Penso que é tempo de cuidarmos mais dos nossos escritores. Não deixar para depois, para mais tarde. Fomos tão displicentes com um Ferreira Itajubá, um Jorge Fernandes, e temos sido não tão solícitos com o nosso Othoniel Menezes e com o admirável João Lins Caldas. Façamos um pouco em favor deles. É tempo de, pelo menos, conhecermos os seus versos, divulgarmos as suas obras.

Newton Navarro em “A República” -23.03.58

 

Depois de quase dez anos lendo e relendo livros de autores potiguares, resolvemos, em 2011, criar um instrumento de divulgação da nossa literatura, no sentido de mostrar para a nova geração de estudantes e professores, a produção literária do Rio Grande do Norte, sobretudo na atualidade.

Em quatro anos, o blog “101 Livros do RN – Que Você Precisa ler” chegou a marcar mais de 120 mil acessos, e foi, inclusive, usado como citação, em monografias e dissertações universitárias, além de se tornar referência quando alunos e jovens estudiosos queriam pesquisar literatura do Estado na internet. Foram divulgados, no espaço, mais de mil escritores, livros, lançamentos, além de dezenas de ensaios e resenhas. (Fechamos o blog em 2016, devido à reclamação de um escritor chateado porque ainda não constava nele).

Paralelo a esse trabalho, começamos também um projeto de catalogação de autores potiguares vivos, com a preocupação de deixar registrado para o futuro o depoimento de escritores que estão produzindo literatura nesse inicio de século no Rio Grande do Norte. Entrevistamos quase 200 autores, publicamos um livro em três volumes, intitulado “Impressões Digitais – Escritores Potiguares Contemporâneos”. Deixamos para o julgamento da posteridade, depoimentos importantes sobre livros e sobre a vida cultural do Estado, de escritores da velha guarda e da nova geração, inclusive uns que já se foram.

Preocupamo-nos também em difundir na capital, através de resenhas e ensaios, trabalho de intelectuais e talentos do interior do Estado, que fazem literatura, como o pessoal de Mossoró, de Açu, de Macau, Currais Novos e Caicó, cidades que têm tradição literária muito forte, basta lembrar os nomes de Martins de Vasconcelos, Segundo Wanderley, Aurélio Pinheiro, José Bezerra Gomes, e Moacy Cirne, respectivamente. Fizemos várias viagens para essas cidades, pesquisando e ao mesmo tempo divulgando o trabalho deles.

Em 2013, contando com o apoio de Diógenes da Cunha Lima, Sávio Hackardt e Manoel Onofre Jr., começamos um trabalho de divulgação da literatura potiguar nas escolas públicas; meses depois, com a colaboração de mais alguns amigos, esse empreendimento se tornaria na “Caravana de Escritores Potiguares”, projeto social sem fins lucrativos, que tem como único intuito divulgar autores potiguares e difundir a importância da leitura e da literatura nas escolas.

Desta maneira levamos a literatura potiguar aos quatro cantos do Estado (depois de três anos tocando o projeto de forma voluntária, em 2016 fomos contemplados com o apoio da Cosern, através da Lei Câmara Cascudo). Apenas nesse ano foram mais de mil alunos que conheceram um pouco da literatura potiguar, além de mais de 600 livros distribuídos, dos mais diversos autores e gêneros.

Ainda em 2013, fomos convidados para trabalhar como editor da Revista da Academia Norte-rio-grandense de Letras, renovando a revista e trazendo novos rumos, inclusive com uma abertura maior para a comunidade literária que passou a ter espaço na publicação, sem restrições. A Revista tem sido o periódico literário com circulação mais regular desde 2014.

Nosso trabalho sempre foi feito por amor, e nossa trajetória de vida particular e acadêmica foi resumida recentemente pelo escritor Carlos Fialho, no artigo “Os 12 de Thiago Gonzaga”, no Novo Jornal, nossa motivação é deixar para o futuro um pouco do que acontece na atualidade em nosso mundo literário, já tão carente, sobretudo por ter estigma de não preservar a memória cultural.

Nesses cinco anos dedicados exclusivamente à literatura potiguar, escrevemos quase cem ensaios sobre autores do passado e do presente, sempre tentando resgatar e valorizar o que é nosso. Com o livro – “Presença do Negro na Literatura Potiguar”, discorremos sobre literatura afrodescendente no Rio Grande do Norte, resgatamos os contos de Afonso Bezerra, na obra “No Rancho dos Bentinhos e Outros Contos”, dentre outros. Fizemos ensaios teóricos sobre autores como Henrique Castriciano, Othoniel Menezes, Luís Carlos Guimarães. Um livro de crítica literária, “Os Grãos” (inédito) com estudos da obra de mais de 40 autores contemporâneos, além de uma reunião de cartas e entrevistas de Manoel Onofre Jr., e estudos sobre a obra literária de Nei Leandro de Castro e a poesia de Diógenes da Cunha Lima.

Organizamos inúmeros eventos, palestras, bate-papos, encontros com professores, etc. Levamos livros de vários escritores para a UFRN, incentivando a pesquisa e os estudos, fazendo a “intriga do bem”, como já dizia o saudoso escritor Pedro Simões. Escrevemos mais de vinte prefácios para livros, incentivamos dezenas de escritores a produzir, escrever; resgatamos nomes esquecidos, fizemos campanha de apoio a flagelados da seca no Seridó, levando meia tonelada de alimentos para Acari. Sempre promovendo ações, sempre de forma voluntária, acima de tudo por amor às nossas letras.

Foram mais de dois mil alunos e professores que descobriram a nossa literatura através do nosso trabalho nas escolas. Na UFRN, vários foram os ensaios e estudos sobre nossa literatura, além de apresentações em seminários e congressos. Escrevemos ainda para este “Substantivo Plural”, que gentilmente nos abriu espaço para publicação de entrevistas e resenhas de livros potiguares, bem como, “Tribuna do Norte”, “O Galo”, e “Kukukaya” dentre outros periódicos, sempre divulgando o trabalho dos outros. Tivemos essa missão quase como um apostolado.

Em 2016, realizamos documentários com escritores importantes do Estado dentro do projeto denominado.”Videografias”, inclusive gravamos com quem talvez seja a figura mais importante da cultura do Estado, Dorian Gray Caldas.

Só nesse ano foram doados mais de dois mil livros, da nossa biblioteca particular, para colegas da literatura e instituições públicas, e tivemos a satisfação de receber o convite do professor, Dr. Humberto Hermenegildo de Araújo para fazer parte do Núcleo de Estudos Norte-Rio-Grandenses “Câmara Cascudo”, da UFRN.

Em novembro passado, tivemos reconhecimento do nosso trabalho, pela Academia Norte-rio-grandense de Letras, que nos concedeu o titulo de Sócio Benemérito da Instituição.

O nosso intuito ao escrever este texto é apenas para que a comunidade literária saiba que não caímos de paraquedas, contudo nos preparamos, nos qualificamos, e acima de tudo lemos muito, para entender e divulgar a nossa literatura, e, detalhe importante, fomos apoiados por praticamente todos os escritores e intelectuais sérios do Estado.

Quando escrevemos o artigo “Falsários da Literatura Potiguar”, divulgado neste site, não o fizemos por prepotência ou presunção, basta conviver conosco para perceber que isso não faz parte do nosso caráter. Fomos mal compreendidos e atacados por meia dúzia de pessoas, que, em primeiro lugar, deveriam saber que existem critérios estéticos para se definir o que é arte, segundo, como nos ensina o mestre Antonio Candido, em “Formação da Literatura Brasileira”, compreender que a literatura de um país só existe se ela estiver vinculada a um sistema literário, em que autores produzem e publicam suas obras e são lidos por um público leitor, gerando tradição. Ou seja, os escritores, com a bagagem de quem leu seus pares, devem criar suas obras na tentativa de superá-los, sem qualquer motivação pessoal, é claro, mas tão somente no afã de produzir literatura de alta qualidade.

Luís da Câmara Cascudo, o maior escritor potiguar de todos os tempos, foi grande exemplo de humildade e simplicidade, inclusive rejeitou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Então pra que tantas vaidades?

Por fim, comunicamos, a quem interessa possa, que deixamos definitivamente a vida literária do Estado; a partir de hoje não temos mais nenhuma ligação com a comunidade literária. Passamos a nos dedicar, de forma sempre voluntária, apenas ao trabalho de formação de leitores. Cremos que só num futuro próximo, daqui a vinte ou trinta anos, teremos como olhar pra trás e ver, com uma perspectiva melhor, o resultado do nosso trabalho. Continuaremos acreditando que a arte deve servir principalmente para elevar o espírito, aprimorando o processo civilizatório.

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Thiago Gonzaga

Comentários

4 comments

  1. EDSON SOARES DO NASCIMENTO 24 dezembro, 2016 at 12:20

    Deixará grande lacuna, meu caro Thiago.
    Os falsários e hipócritas aplaudirão de pé o seu ato de pendurar as chuteiras da crítica literária.
    Contudo aqueles que liam e levavam a sério as suas resenhas se sentirão órfãos.
    Compreendo sua saída e sua desistência. Ah, compreendo! Posso até imaginar os motivos.
    Não é fácil ser crítico literário nestas terras potiguares, não é fácil.
    Sucesso no seu caminhar. Saiba que você cativou minha admiração!
    Felicidades

  2. Aldo Lopes de Araújo 26 dezembro, 2016 at 20:40

    Thiago, rapaz, lá na Paraíba Hildeberto Barbosa Filho faz crítica literária desde a República Velha e nunca sofreu um atentado.
    Ameaças de morte foram muitas no começo. Ele andava com uma faca para se livrar de uma meia dúzia de poetas chinfrins.
    Carlão, por motivos parecidos, e com medo de levar uma tijolada, desistiu de escrever opiniões críticas sobre autores da província.
    Hildeberto escreveu um artigo chamado “Odeio Poesia” e arrumou tantos inimigos que quase se muda da Paraíba para Aroeiras,
    sua Comarca das Pedras. Tácito Costa também passou por esse trauma. Mas eu vou lhe dizer uma coisa: seu trabalho é necessário,
    o RN precisa de sua militância, de sua dedicação à literatura. Endureça o discurso, meta o cacete. Sou seu fã. Se eu chegar num bar
    pra beber e não tiver seu LP, nesse bar não beberei.

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