Outsider canto sofrido

Carlos Gurgel
Colunistas

um homem atravessa e arrasta a avenida como se fosse se perder. arrasta suas sandálias e por segundos, para, sentencia que o mundo que ele vê e sente, ruge e rosna e pede bis. ele prossegue e blasfema, porque, durante toda a sua vida ele enfrentou cadafalsos e temporadas sem respiro. seu chão, como um ventilador sem face, prolonga a sua vontade de saber mais dos caminhos repletos de pretas pedras e de caçambas de lixo. ele também sabe, que nunca pediu licença, nem favor a ninguém. com sua voz esquecida, como se fosse um espanto mal tratado, ele marginalmente passa, tipo um submerso anjo, abrindo a cisterna da rua como um coringa que sobrevoa edifícios e a quentura de tantas entranhas, sujeito de sarjetas.

1nunca deixou de beber a estúpida água do inferno, nunca apaziguou coisas que ficaram pela metade. seus olhos estrebuchados como um azogue, raspam postes e a janela das horas vadias. um homem assim nunca pensa. ele sempre prossegue como se fosse uma corda despedaçada. um homem assim colhe com seus pés, inúmeros atalhos, retrato de uma passagem periférica, pois bem sabe que seus desconhecidos passos, exercem a predileta vazão de tantos instintos, cactos obscuros, escondidos.

um dia, por obra do descaso, esse homem some. ninguém se dá conta da preciosidade do que isso representa. o valor dele é como se fosse a fornalha que se agiganta por sobre nossos olhos. a crucial importância desse homem trespassa e treme entre os bueiros das estações de trem. sanguinolentos, esfarrapados de faces e da clemência da vil pobreza. lá, nessas estações, todos estão de passagem, menos ele que faz morada entre o lixo impactante e os pés dos outros apressados de tanto se esconder.

esse homem nunca tirou a barba, porque ele sempre dizia que raízes de cabelos na face são como escudos que não enferrujam. o juízo da face desse homem acompanha todos os dias, seus feitos arredios. tudo que ele vislumbra é parte de um inquebrantável pacto. pobre, raquítico e sem o espaço por onde as barricadas do tempo gracejam de tanta resposta sem rumo.

mas é assim mesmo, como ele sempre dizia, como a confirmar entre seus pés que mais pareciam portas selvagens, que a continuidade de uma façanha se dá quando a arcada de um circuito emocional e histérico encontra seu deslize, por cima do telhado, de um enxame, de uma nuance, quando tudo muda drasticamente.

nunca se viu Daminhão de vinco na cintura. carregava sempre, entre seus alpendres, uma dramática soma de subidas e descidas pelo seu próprio corpo. ele sempre foi um titânico rebelde, inquieto personagem por onde percebia que a maldade humana vinga na possibilidade do engano de um silêncio.

sua dilacerada e crucial música foi arremessada entre tantos urubus vastos. procurava pela sua vez entre os mendigos das praças das favelas, ou nos desarrumados sacos de restos de almoços nas fileiras das feiras da periferia da cidade.
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Daminhão Experiença falece e parte. chora por ele Gentileza, Bispo do Rosário, Antonin Artaud, Gogh, os animais abandonados nas praças pobres, Estamira, os loucos que sorriem o tempo todo de uma coragem de uma viagem do fim.

sorriem dele, a insensível construção dos caminhos assaltados e asfaltados, a cruel viagem de um ônibus que cruza o centro da cidade costurando o motorista bêbado de tanta predileta perdição, por entre espantos, escarros obscuros, indóceis e inférteis.

muito pouco provável que esse homem artista raro seja o preferido, incomum esse homem ser o perfeito sujeito de um folhetim amoroso e repleto de uísque. a pele, a lei da pele do corpo dele não legitima essas perturbações cíclicas e repletas de insígnias sociais, exuberantemente invadidas pela palidez de cômicos ralos e ridículos.

que Daminhão novamente apareça, envergando, empunhando seu bravo fuzil sonoro, na direção desse mundo, através das cortinas dos seus longínquos pântanos, libertando a escondida dor dos barrancos por onde seu repertório foi ouvido, e escolhido como um mestre que cantou o desespero dos famintos e loucos do hospício. por onde a maldade e suas contradições fabricam a morte, o medo que invade palafitas e rasgos da existência, hóspede de tanta santa paciência.

tanto se foi Daminhão, tanto que ele bradou e ecoou a nascente de um novo rito. pena que nós somos tão insalubres e patéticos. certamente se tivéssemos nos lábios a verdade que nunca pronunciamos, esse planeta do qual Daminhão criou e por ele deu a vida, faria com que cada um de nós se transformasse em uma terra rara, invadida por painéis sem dor. nuvem dissipa no céu. uma sombra aparece na réstia do dia.

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Carlos Gurgel

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