POETA DA SEMANA: Ayrton Alves

Tácito Costa
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Ayrton Alves nasceu em Natal em 1994. Graduando em Letras pela UFRN. Vende seu zine “travessia” pelas ruas da cidade.

***

Você me escreve em meio ao plástico chinês
estourando a bolha
eclodindo do seu cômodo único
de sumpaulo que é a terra onde os poetas se lavam
com sabonete e pólvora
que é a terra onde meus olhos ainda não podem vagar vulgares
e meus olhos se queimam nesse escarcéu solar
que é o teu silêncio no centro do mundo
no centro de mim
e o teu silêncio é um gato
se adaptando às minhas entranhas
um dia o gato tomará sua forma
e você eclodirá de mim
enquanto eu estiver atravessando uma faixa de pedestres
no último instante

 

***
Lembra quando quebramos aquela garrafa
e nos confundimos com os cacos?
não faz tanto tempo
que nos acidentamos
tentando embrulhar o mar
mas só você era tão imenso
quanto ele
brandindo seu tecido e seus gestos
rodando os pés na areia
como se quisesse chegar à china
e lá quebrar essa paisagem
sem pagar pedágio
enquanto dilatávamos nossos pulmões
e neles guardamos o nosso prazo de validade
não faz tanto tempo que viajamos no seu tapete voador
e de sua altura estilhaçamos o mundo
não faz tanto tempo que você me destruiu
a partir da janela do ônibus
não faz tanto tempo que o sol dançou
para você se abrir sobre meu colo
e se fazer em chuva
e aquela chuva diz muito
sobre o meu coração agora

 

***

Meus lábios são só escombros
depois que aprendeste sobre a fraqueza das pedras
Um continente novo virá sobre minha pele
a deitar sobre teu corpo
semeando uma nova centelha
sobre esses braços e pernas
que se abrem
como se fossem asas em pleno voo
à procura de um outro
significado possível para o chão
a que deus fingirei pedir perdão
por me desintegrar sobre as estrelas?

 

***

Desfaço ruas
procurando embaixo das pedras
o sussurro dos teus passos

não te achar
é enrolar o caminho
e levar o peso dele
embaixo do braço

 

***

as orquestras escondidas nas pegadas são só para os meus ouvidos
desfiadores das salivas convulsivas deste tempo
e de todas as bombas prestes a explodir
como uma mulher da Pérsia
transformo os fios do horror em recomeço
em tapetes com paisagens desconhecidas
para substituir a visão ultrapassada das janelas
desenho o globo terrestre no chão da sala
e dou várias voltas ao mundo
me esfarelo para pagar a dívida:
me deixarei um pouco onde meus pés tocarem
escrevo palavras ocas que me prendem
só pelo prazer de poder quebrá-las
como se extinguisse a eternidade das pedras
em pequenos blocos que furam o horizonte
em casas que não me pertencem
transcendo para sobreviver nos outros
e não tenha medo
de me matar um pouco para permanecer vivo
de prolongar o corte a viagem
de falhar
por ter a coragem de me fazer aos pedaços

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Tácito Costa

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