Quem te guia é o engarrafamento

Pablo Capistrano
Colunistas

Enquanto estava parado no trânsito a caminho do trabalho, bem em cima da Ponte Newton Navarro, escutei na rádio CBN um sujeito que dava “dicas corporativas” para os ouvintes. Ele ensinava o modo correto de fazermos a leitura de nossa própria demissão. Tal qual em um reality show cuja possibilidade da eliminação é um elemento sempre presente, fazendo com que os jogadores, submetidos as forças invisíveis da audiência, se esforcem para descobrir o que agrada ao público, a sobrevivência corporativa implica um estado de atenção constante.

E, se a demissão vier, no julgar do sábio consultor da rádio, o maior erro do trabalhador é… culpar a empresa.

Sim… não devemos culpar a empresa. Não devemos colocar a culpa das nossas misérias nos sobressaltos do mercado, afinal, somos nós os responsáveis por nossas decisões e nosso desempenho institucional. Somos nós, os livres, os emancipados, os autônomos, sujeitos racionais em um jogo de eliminação, que temos de nos responsabilizar pelo nosso “fracasso”.

Não aguentei ouvir até o final e mudei de emissora.

Não conseguia deixar de pensar no Karoshi.

Os japoneses desenvolveram esse conceito para descrever um fenômeno que não é exclusividade do oriente, nem mesmo de nossa época de capitalismo digital. A morte súbita, na maioria das vezes por ataque cardíaco ou derrame cerebral, provocada pelo stress de uma jornada de trabalho que pode chegar até 72 horas ininterruptas, não é um fenômeno isolado, mas sim, um efeito colateral muito peculiar de nossa sociedade de consumidores liberais.

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A maioria dos trabalhadores que morre de Karoshi aparentemente escolhe não parar de trabalhar. Mesmo que seus chefes os mandem embora, mesmo que o escritório feche as portas, mesmo que as tarefas postas sejam todas cumpridas, a possibilidade da demissão, usada de modo stalinista nas corporações capitalistas como uma ferramenta de gerenciamento do trabalho através do terror, leva o sujeito a um esforço ininterrupto por produzir mais e melhor. O medo da morte econômica, travestida na possibilidade da exclusão do mercado de trabalho, se materializa no colapso do corpo ou no suicídio laboral. Quando trabalhadores se jogam das janelas dos escritórios (como no caso da Foxconn chinesa, que teve que instalar redes de proteção nos seus edifícios e obrigar os empregados a assinar contratos com cláusulas de não suicídio), eles não estão escolhendo acabar com a vida por algum obscuro dilema metafísico. São outras potências que os movem no caminho da autoaniquilação.

Marx sabia disso desde 1842 quando trabalhava em uma reportagem sobre a situação dos vinicultores empobrecidos de sua região natal. Ele estava tentando entender porque o índice de suicídios entre trabalhadores arruinados por dívidas era tão alto. Sem ter como alimentar os próprios filhos, muito desses trabalhadores eram obrigados a coletar clandestinamente madeira na floresta para não morrerem de frio no inverno rigoroso.

Como haviam leis que proibiam a coleta de madeira, realizada pelas comunidades do lugar a milênios, muitos eram encarcerados pela policia ou morriam na ponta da baioneta. O objetivo da lei era garantir que a madeira fosse direcionada para atender a demanda energética da indústria. O efeito colateral dessa demanda de mercado era a condenação à morte de muitos camponeses pobres da fronteira entre Alemanha e França durante os anos de inverno mais rigoroso.

Marx entendeu que os vinicultores da fronteira franco alemã não se suicidavam por algum tipo de “niilismo blasé”, mas sim porque não tinham mais o controle sobre sua própria vida ou o seu próprio destino.

Eram as forças complexas do mercado que guiavam suas vidas, que os lançavam no desespero. Sem compreender o funcionamento dessas mesmas potências que os reduziam à miséria, os vinicultores morriam achando que seu estado de penúria era, de algum modo, responsabilidade deles mesmos.

Olhando por esse ângulo, a baboseira ideológica daquele consultor corporativo soa quase como um tutorial de suicídio.

Escapar dessas arapucas ideológicas exige atenção e autocrítica constante.

Algo que de um modo muito peculiar Marx e Engels nos ensinaram a fazer quando escreveram uma de suas obras clássicas, “A Ideologia Alemã”, e trouxeram, para o centro do debate filosófico, o conceito de ideologia.

Entender o porquê dos trabalhadores das corporações japonesas do século XXI se matarem de trabalhar, ou por que os miseráveis vinicultores da Alemanha do século XIX se suicidavam, é, do ponto de vista da filosofia, discutir o que deu errado na promessa de liberdade e felicidade da modernidade.

Marx percebeu cedo que, no capitalismo, ao contrário do que mostra as doutrinas liberais, somos todos controlados por forças externas. A suposta liberdade de mercado, seria, na verdade, uma liberdade “do mercado”, não uma expressão de uma escolha racional individual superior, como se todos nós fossemos fantasmas controlando máquinas corporais, distantes dos imperativos biológicos do mundo da vida e dos limites econômicos a que somos submetidos em razão de nossa posição social.

O espanto fundamental de Marx e Engels, especialmente após o fracasso do acontecimento revolucionário de 1848, era o de entender como seria possível que os grupos e as classes subalternas, submetidas a exploração e a miséria, pudessem racionalizar sua situação a ponto de se autoiludirem, convencendo a si mesmos que são, de alguma maneira, felizes em meio a sua ululante infelicidade.

Uma perplexidade desse tipo não era novidade no pensamento político. Étienne de La Boetie já havia se perguntado sobre esse estranho fenômeno ainda no século XVI quando escreveu o seu “Discurso Sobre a Servidão Voluntária”, com apenas 18 anos de idade.

La Boetie se questionava sobre o que nos seduz na servidão, o que nos atrai no ato de obedecer. Parecia muito inquietante para o jovem francês, amigo íntimo de Michel de Montaigne, que a maioria abra mão de modo tão despudorado de sua própria liberdade em troca de uma servidão voluntária e de uma subordinação consentida.

Hoje, não é possível responder ao questionamento de La Boetie sem colocar a ideologia na equação.

Misteriosamente, há algo de automático nas trivialidades ideológicas.

Elas se repetem como se a linguagem girasse em moto-próprio, como se o discurso criasse o sujeito que o pronuncia, de maneira que as técnicas de coerção do econômico se tornem muito mais eficientes na padronização condutas do que qualquer pregação doutrinária.

A grande arte da ideologia é a de fazer o escravo se açoitar com seu próprio chicote. Compreender as artimanhas dessa intrincada artesania discursiva é um dos mais significativos legados que o pensamento marxista nos deixou.

A base de sua metodologia crítica está no desvelamento dos automatismos desse discurso para fazer emergir as estruturas das forças sociais que nos condicionam, mesmo quando temos a crença absoluta de que estamos escolhendo nossos próprios caminhos.

A terapia crítica proposta por Marx era a de desconstruir as bases dessa autoilusão, mostrando que a ideologia era de fato uma crença letal, uma senhora que nos domina e nos condiciona em uma estrutura de pensamento que só poderia ser reduzida em sua abrangência letárgica pela luta política, não por uma simples substituição de doutrinas.

Mesmo sem ter vivenciado as angustias e o desespero da vida nas grandes megalópodes do século XXI, Marx já sabia, há muito tempo, que estar enredado na estrutura ideológica é como estar preso no tráfego: você pensa que dirige o carro, mas quem te guia, é o engarrafamento.

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Pablo Capistrano

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