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Suco de laranja

Numa certa manhã de sábado, mesmo estando super gripada, decidi ir ao supermercado especialmente para comprar algumas frutas. Afinal, a recomendação médica para esses casos é repousar e ingerir muito líquido. Estava decidida a me cuidar durante o final de semana para começar a segunda-feira com bastante disposição. Não queria faltar de jeito nenhum ao meu novo emprego.

Na seção de frutas e verduras, fiz um daqueles comentários triviais enquanto escolhia algumas laranjas. Ao meu lado estava uma senhora muito frágil, tanto na aparência física quanto no jeito de falar, o que fazia com certa dificuldade. Depois de comentar que as poucas chuvas no interior é que eram responsáveis por deixar as frutas com tais características, falamos das propriedades das frutas e da sua importância para uma alimentação saudável. Encerrado o papo sobre as frutas, ela disse: “minha filha, estou lutando há três anos contra uma depressão”. Aquela frase me causou grande impacto e me fez refletir sobre algumas questões vivenciadas naquele dia.

Enquanto eu estava ali meio indisposta por causa de uma simples gripe, aquela senhora tentava superar um grave problema de ordem psíquica e parecia disposta a fazer o que fosse preciso para complementar o tratamento que incluía alguns remédios e terapia.

Conversamos mais um pouco a respeito do seu problema de saúde e reforcei a importância de ela estar ali, comprando aquelas frutas para manter uma alimentação saudável e contribuir com seu tratamento. Quando estávamos terminando de escolher nossas frutas, chegou sua nora, com quem também conversei um pouco, elogiando a iniciativa de levarem aquela senhora para fazer suas próprias compras e também da necessidade de fazer alguma atividade terapêutica, como um curso de pintura ou outra atividade que pudesse lhe distrair e fazê-la estar em contato com outras pessoas, da sua idade ou não. Também sugeri que a levassem para um passeio na praia.

Depois que sua nora verificou se ela havia comprado tudo, a senhora voltou a falar e destacou a importância do seu esposo nesse momento tão delicado. “Ele paga a uma pessoa somente para cuidar de mim. Não consigo mais fazer nada dentro de casa”, disse ela. O que não lhe deixa fazer suas atividades domésticas, ou mesmo outras coisas que gostaria de fazer, são os constantes tremores decorrentes da medicação. Depois de ouvi-la atentamente e lhe dizer algumas palavras de conforto, ela me agradeceu, sorridente, e, com sua voz serena, despediu-se. Mesmo sem saber, aquela senhora me deixou uma grande lição. O suco de laranja daquele dia teve um sabor muito especial.

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Andreia Braz

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