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Ouvindo Maria Severa

Para Tácito Costa

Andava pelos cinquenta anos, alguns cabelos brancos e o ar de intelectual. Conheci-o no aeroporto, os nossos voos devem ter coincidido na chegada. Ao seu lado a jovenzinha branca, bonita, óculo de grau, lembrava uma adolescente. Conversamos sobre o Brasil, a violência urbana, enquanto a garota comprava os bilhetes do metrô. Professor de Ciência Política em Pernambuco, ele acreditava já haver começado no Brasil uma guerra civil, as autoridades é que não queriam reconhecê-la. Um país em que se mata mais de sessenta mil por ano, inclusive de fuzil e metralhadora — disse —, já vive numa guerra. Nem em Alepo se mata tanto. A seu ver essa violência urbana difusa embutia uma luta de classe.

A menina volta ao guichê, quer ter certeza se o bilheteiro tirou passagem para dois. O bilheteiro confere as passagens e responde que sim. O professor se despede com a efusão contida de compatriotas que se conhecem por acaso num país estrangeiro. Daí a pouco num cruzamento de trens, os dois passam em velocidade, abraçados e sorrindo aliviados, como se fugindo de alguma barreira viessem se amar livremente em Lisboa. São donos de uma felicidade contagiante, a 5.650 quilômetros de um país turbulento que para eles no momento deixara de existir.

Três dias depois, por coincidência, tornei a vê-los, dessa vez almoçando no Rossio, no João do Grão. A mocinha bonita novamente atuava como secretária, conferindo o preço das entradas e dos pratos. Hospedados na Mouraria — contou-me o professor —, acompanhavam com vinho do Alentejo os antigos fados de Maria Severa, e só naquela manhã deixaram o hotel para conhecer a cidade. Aproveitou a conversa para elogiar Severa. Prostituta, vivendo e cantando pelos lupanares da Mouraria, enfrentando no braço homem e mulher, valente que era, o povo não a esquece. Duzentos anos depois — ele disse —, aonde quer que em Portugal se vá cantam o seu fado. Seja no Douro, no Minho, no Tejo, nas ladeiras de Lisboa, Belém, Alfama, Baixa, Bairro Alto, Largo do Camões, a sua música traz de volta a embriaguês da nostalgia.

Não os vi mais, nem o professor nem a sua namorada. Tão somente um flash, um instantâneo acrescentado à minha vida. Deles não arquivei dados modernos, como é comum em encontros casuais, Facebook, WattsApp, Instagram, etc. Apenas guardei com felicidade a lembrança do amor sem idade.

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Demétrio Diniz

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