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A menina que foi pra Cuba e voltou cineasta

Ariane Mondo_makingoffMardeZila

Próxima quarta, 14, será exibido o curta “Mar de Zila”, da cineasta Ariane Mondo.

 

A exibição será no projeto Cine & Literatura, que ocorre no Auditório do Nepsa, no Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA), também conhecido como “Goiabão”, no Campus da UFRN. O projeto é gratuito, começa sempre a partir das 17h, com exibição de um curta-metragem produzido em território potiguar e, logo em seguida, um longa. Sempre são películas que tenham alguma relação com a literatura. Nesse dia, após o curta de Ariane Mondo, será exibido o longa Madame Bovary (2015), de Sophia Barthes. A entrada é gratuita e ainda há sorteio de livros e CD´s. O Cine & Literatura é uma iniciativa do Cine CCSA e da Cooperativa Cultural.

Eu venho guardando essa conversa que tive com Ariane Mondo para o Substantivo Plural há alguns meses. E penso que esse é o momento de falar um pouco sobre essa mulher com cara de menina que está no patamar de alguém que vai lá e faz! Vai lá e produz! Que pegou todos os ímpetos e inquietações da juventude e os transformou em matéria-prima para sua assinatura no mundo. Nesse caso específico, para sua assinatura enquanto documentarista e “cineasta”, pontua bem, porque assumir-se como tal tem a ver com seu processo de maturidade.

A vida da documentarista, Ariane Mondo, 38, se divide em antes e depois de Cuba. Após se formar em jornalismo, em 2000, pela UFRN, a então menina de vinte e poucos anos sempre quis ganhar o mundo. Decidiu ir morar em São Paulo, onde chegou a trabalhar na Assessoria de Comunicação do famoso velejador Amir Klink. Nesse período, fez um curso com o Flávio Brito, do MnemoCine, e diz que esse curso lhe “abriu os olhos”. Foi a partir desse contato e da amizade com Brito que ela ganhou segurança para fazer uma espécie de vestibular para a famosa Escuela Internacional de Cine y Televisión de Cuba. “Não imaginava que fosse passar”.

Cuba

Mas passou. E precisava de algo em torno de nove mil dólares para se manter por lá. Chegou a vender o carro que tinha para juntar grana e conseguir viajar e pagar os custos. No segundo ano na Ilha de Fidel, o Ministério da Cultura (Minc) deu uma ajuda de custo para os estudantes. E assim foi! Tinha 23 anos. E havia escolhido como primeira opção a formação em Documentário, logo percebendo que estava diante de um aprendizado rico e “multifacetado”. Mas não só o aspecto técnico impressionou-a. Ariane se viu pela primeira vez como uma “garota latino-americana”.

“Eu me vi dentro de um país com outras referências. Com coisas que não chegam para nós brasileiros. Livros, músicas, filmes. Percebia que os outros brasileiros estudantes que estavam lá também sentiam essa mesma coisa: de como nós desconhecemos nossos irmãos latinos. E a partir disso eu fui construindo minha identidade latino-americana. Sou muito grata a esse período. Cuba foi um país muito generoso comigo”.

A experiência em Cuba lhe abriu outros caminhos. Após o tempo em Cuba, ganhou uma bolsa e foi morar em Ludwigsburg, na Alemanha, onde acabou morando por cinco anos.

O filme

 

Em 2012, voltou para o Brasil e foi morar no Rio de Janeiro. Ainda não havia planos de voltar para Natal. Até que em 2014 saiu o Edital Cine Natal, da Fundação Capitania das Artes e, em dez dias, ela e o ator e diretor teatral Henrique Fontes, resolveram “uma paquera antiga” de fazerem um projeto juntos. Ela no Rio e ele aqui em Natal – através de e-mails – foram formatando e construindo o roteiro que se transformou no curta de ficção Mar de Zila. E foi assim que, em 2015, Ariane Mondo voltou a habitar terras potiguares. A falta de políticas públicas sólidas e sistemáticas para a cultura era um dos motivos que desanimava sua volta.

“Tinha muita resistência em voltar para Natal. O filme me reconciliou um pouco com a cidade”, avalia ela, que atualmente trabalha como jornalista no Instituto Santos Dumont, em Macaíba. Para fazer Mar de Zila, Ariane saiu de sua zona de conforto, a cineasta “bissexta”, como se autodefine (ela havia produzido, roteirizado e dirigido, em 2014, o documentário “Salve Ibejada”, sobre a festa de Cosme e Damião – termo que poderia ser compreendido como “Salve Criançada”), com o mais recente filme migrou para a condição de cineasta realizadora de ficção. Mas, sem perder la ternura do seu ofício inicial.

“É um filme de ficção mas tem elementos de documentário. Algumas locações são reais e eu inseri os atores dentro dessa realidade”, explica ela, acrescentando que a experiência com documentários também lhe ajudou a não interferir muito na atuação e que ela preservou um “olhar contemplativo” e também de “silêncios”. “Não exercitava a escola de ficção desde Cuba. “Cinema é uma engrenagem. O diretor não consegue fazer nada sozinho. Cinema é uma arte coletiva”, sentencia.

Foram cerca de 30 dias de pré-produção, quatro dias de uma maratona de filmagens e mais cinco meses de pré-produção para Mar de Zila ser apresentado ao mundo, em dezembro do ano passado. Embora o nome remeta à poeta Zila Mamede, o filme não se trata de sua vida. É sobre o retorno de uma personagem (interpretada por Henrique Fontes) que passa muitos anos fora da cidade.

Observando bem, não deixa de ter uma certa relação com ela própria, que retornou também. Como uma personagem de si mesma – discreta e reservada quando se trata da vida pessoal – e que em Natal, Rio, São Paulo, Cuba, Alemanha e outros lugares por onde passou é sempre capaz de se reinventar, de descobrir novos caminhos e territórios que, mais libertam que delimitam.

 

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Sheyla Azevedo

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