Aconteceu com Leninha

Demétrio Diniz
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Por obséquio tire a roupa, preciso examinar a senhora, ele todo sério chamando Leninha de senhora, ela uma menina ainda, toda durinha, nem dava pra ver que tinha filho. Leninha estranhou, mas cedeu, médico é médico, não fosse assim na confiança não havia se casado com um. Ainda por obséquio Tire a calcinha também, casos de melanoma podem aparecer na área da vagina. Em casa tomando meu uisquinho com água de coco, fumando meu Dona Flor, me conta a mulher da minha vida, mãe dos meus filhos, Fiquei nua, nuazinha, ainda estou tremendo da vergonha que passei.

Consulta marcada para daí a dois meses, o colega com agenda lotada, na espera cozendo o prato da vingança, o meu não tão frio como se diz, da recepção a moça chama, Senhor Amaro Gouveia pode subir. Doutor, estou igual a um dálmata, só sinal, sinal por tudo é canto, sinal dos pés à cabeça. Tranquilo o amigo, estou vendo, só melanose no alto da sobrancelha esquerda, manchinha pequena sem importância, um cremezinho à noite resolve. Não tiro a roupa, não quer ver o resto? Não precisa, tranquilo, melanose dá no rosto, braço e mão, onde o sol andou queimando, aliás, no meu consultório não examino nem peso o cliente nu, o senhor sabe, muita gente maldosa aqui na cidade. Nessa ocasião o estrago foi pequeno, o colega estirado na mesa, os olhos arregalados mais pela surpresa que o bofetão, Cabra safado!, gritei, botei o pau pra fora e mijei em cima dele, Você nunca mais vai querer ver mulher dos outros nua.

A minha Leninha parece ter chama pra essas coisas. Outra vez, estava em Vitória, participando de um congresso, a mulher indo de acompanhante foi pra academia preencher o tempo, Chocolate, esse era o nome do crioulo, um duplex de tamanho e músculo, disse vou alongá-la, a minha mulher, a minha Leninha ainda nova, os peitos durinhos, a bundinha arrebitada, Não, moço, já me alonguei no hotel, o crioulão insistiu, e insistiu, e insistiu que repuxou a mulher para cima e para baixo, pegou nas suas coxas, na barriga, ensaiou as mãos na parte de baixo dos peitos, empurrando as dobrinhas de baixo para cima, apalpou a nuca maneiro, jeitoso como amante, a mulher depois triste no hotel, me contou chorando o alongamento do tal Chocolate. Só me lembrei de uma tal de dinâmica de grupo, a gente ainda no noivado se preparando para o casamento, mandaram trocar de par, de olhos fechados tateando o corpo do outro, se sensibilizando para compreensão e harmonia no casamento, o salão com luz escura, quase apagada, abri atravessado o olho, posso ter cara mas besta não sou, um negrinho pequeno, anão, lá ia o safado subindo com a língua pelas coxas da minha Leninha. Arrastei ligeiro a mulher, só parei em Olinda num bar, bebendo e pensando arrependido, se o povo de Acari sabe de uma estória dessa.

De presto fui à academia, uma hora plantado diante dele, o negrão nem me olhava, era como se eu não existisse, velho que ninguém nota nem a sombra, e eu de frente pra ele, o Chocolate nada, nem água, até que se resolveu, Pois não, senhor, deseja falar comigo, o baiano todo páfia, Com você mesmo seu fela da puta, quem vai alongar agora sou eu, tirei minha faquinha de dobrar do bolso, abri, Pelo amor de Cristo, senhor gringo não faça isso, o negro morreu, podia até ter parado naquela hora, eu nordestino de Acari confundido com gringo até um elogio, mas a raiva muito maior, marquei o fígado dele, catedrático em aparelho digestivo trinta anos apalpando o tal todos os dias, com o olho já sabendo se esteatose ou cirrose, o negro se ajoelhou, acho que foi nessa hora de cair que errei a mão, errei e enfiei a faca lá nas costelas dele. O crime deu em nada, nem água, peguei a bagagem no hotel e vim com Leninha embora pra Natal. A faca, ponta quebrada, joguei fora, mas o pior de tudo ela um ano depois ter me dito, no meio de uma novela entre a gente, não fosse pelo atrevimento do tal Chocolate repetia o alongamento.

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