Far From Alaska: de banda experimental ao maior nome na história musical do RN

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Em apenas quatro anos cinco jovens músicos podem ter se tornado o maior nome na história da música potiguar. A comparação é complicada quando épocas distam tanto entre outros monstros sagrados da nossa cena.

O Trio Irakitan construiu uma carreira internacional consolidada e pouco reverenciada por aqui. Chegaram a ser considerados entre os melhores cantores das Américas com seus Pregões e Lendas. Depois veio o sucesso dos tantos boleros.

Ainda no século passado, outros nomes marcaram de alguma maneira no cenário nacional e internacional: Urbano Medeiros, Aldo Parisot, Mário Tavares… todos instrumentistas.

Gilliard e, mais recentemente, Marina Elali, emplacaram hits em novelas da Globo e SBT.

Lembremos Ademilde Fonseca, rainha do chorinho.

Gilson Vieira e sua Casinha Branca sobrevivem até os dias de hoje, com sobrevida na novela Êita Mundo Bom.

Severino Ramos salvou Gonzagão dos tempos difíceis com o sucesso de Ovo de Codorna, entre outros…

E Terezinha de Jesus… E Carlos Alexandre… E Agnaldo Rayol…

Os exemplos são muitos. Artistas de uma música só. Artistas de sucesso nacional. Artistas com alguma inserção no cenário internacional. Moinho D’água, do saudoso Chico Elion, por exemplo, foi gravada pela ítalo-francesa Glória Lasso – basta ler o volumoso Dicionário da Música do Rio Grande do Norte, com milhares de artistas potiguares catalogados pela pesquisadora Leide Câmara.

Mas na maioria dos casos se torna um exercício de pesquisa e boa vontade em inserir a participação de tal artista em algum momento no estrangeiro.

Com o Far From Alaska é diferente. Basta digitar o nome em um google inexistente 30 anos atrás e aparece a banda vencedora na categoria Revelação do Ano em Cannes, entre 12 concorrentes estrangeiros e, para completar, uma menção na Revista Forbes como artistas que “merecem atenção” na seleta cerimônia do Midem Artist Accelarator, onde tocaram Politiks.

O google mostra ainda, com facilidade, o quinteto potiguar entre os destaques do Planeta Terra Festival após seis meses de formação da banda e consequente elogio de Shirley Manson, vocalista do Garbage. Ou como sensação do Festival Lollapalooza em 2015. Ou como atração no Brazilian Day San Diego. Ou no SXSW, em Austin…

Próximo 13 de julho se apresentam como banda principal da edição especial em celebração ao dia do rock, no Rio Novo Rock. E por aí vai.

Algumas boas décadas atrás o mercado fonográfico era bem diferente. A música independente hoje alcançou status nunca antes visto. Festivais indies ganharam notoriedade e revelam bandas. Mas poucas se tornam grandes estrelas do momento justo em função da nova era.

A época é do download, da fragmentação. Não se precisa mais da TV, do programa do Faustão ou do jabá das rádios para fazer sucesso. Por isso o reconhecimento em tão pouco tempo do Far From Alaska mereça ainda mais crédito.

Manter a “pegada” é outra história. O Trio Irakitan foi sucesso durante décadas. E o Far From tocou fogo na cena em apenas quatro anos. Mas desde o início já mostraram a que veio.

De projeto paralelo para meio de vida
A história da banda foi até despretenciosa e funcionou como projeto paralelo pois os cinco músicos participavam de outras bandas. A intenção, na verdade, era achar um vocal para Emmily Barreto, já que ela e a tecladista Cris Botarelli integravam o Talma & Gadelha, cujos vocalistas são Simona Talma e Luiz Gadelha.

Outros três músicos vieram formar a nova banda: o baterista Lauro Kirsch, que assim como a própria Cris, tocava no Planant; o guitarrista Rafael Brasil, que tocava no Callistoga; e o baixista Edu Filgueira, que ao lado de Lauro, tocavam no Venice.

Todos os integrantes moravam em Natal, embora Cris Botarelli seja paulista, Edu Figueira seja mossoroense e Lauro Kirsch seja cuiabano.

Com poucos meses de banda venceram o concurso Som Para Todos, que lhes garantiu o direito de abrir o Planeta Terra Festival.

Dois anos depois lançaram seu primeiro álbum pela Deckdisc, chamado ModeHuman, contendo 15 faixas, incluindo canções de EPs lançadas anteriormente.
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Em resumo bem resumido, esses são os eternos quatro anos do Far From Alaska. Uma das notáveis bandas florescida no terreno fértil da música alternativa potiguar contemporânea, ao lado do Camarones Orquestra Guitarrística, Luísa e os Alquimistas, Plutão Já Foi Planeta, Mahmed, Fukai e outros.

Grupos forjados na cena independente de Natal, longe do mercado fonográfico de outrora ou da eminente falência da indústria atual. Um Far From stoner rock, de riffs, melodia hard e um toque retrô estético – um mix personalizado para uma banda ainda cheio de gás e muito para mostrar.

O Substantivo bateu um papo rápido com o baixista Edu Filgueira. Preferências musicais, momento atual, futuro da banda e cena musical local estão na descontraída conversa:

De Natal para o mundo. Mas qual é esse mundo de hoje que vocês tocam, no tocante a palco, indústria fonográfica, festival independente, público, download, etc?
Qualquer um! hahaha Brincadeira à parte, já está na hora de acabar com essa segregação, né? Sei lá, temos artistas bons (e ruins) em todos os universos. A única diferença entre eles é a quantidade de pessoas que se alcança. A revolução da internet tem um papel fundamental na difusão de bons artistas e as barreiras estão sendo derrubadas ou diminuídas por conta dela.

Já se apresentaram em alguns dos maiores palcos da música no Brasil e galgam cada vez mais os espaços no estrangeiro. Qual o sonho para amanhã?
O Brasil é muito grande, tem muito lugar pra ir ainda, e ir de novo nos que já fomos. Mas no fim das contas cantamos em inglês, então aumentar as idas ao estrangeiro não é pedir demais, né? hahaha

São cinco integrantes. Mas qual a grande influência musical incomum entre vocês?
Difícil de responder, mas ACHO que seja o The Dead Weather.

Sempre se diz que a produção musical em Natal não deve a ninguém, mas poucos conseguem chegar onde vocês chegaram e chegaram rápidos. O que falta para essa maioria?
Aí já não sei. Talvez tenhamos dado sorte de ganhar exposição rápido. Acredito que qualquer banda de lá (de Natal) que ganhe exposição voa alto! Sendo sincero, não só de lá, tem muita coisa boa rolando no Brasil inteiro.

edu filgueira2São poucos os shows de vocês em Natal. Pelo menos não lembro o último. Qual tem sido a rotina de vocês? Se estabeleceram em outro centro? Quantos shows ao mês? Perspectivas?
Pois é, gostaria de fazer mais, porém nos mudamos pra São Paulo no fim de 2014. Já estava sendo “requerido” que viéssemos pra cá por questões de logística e tal. Ano passado fizemos muitos shows, quase todo fim de semana e isso era o foco. Esse ano estamos colocando o pé no freio pra dar um foco no disco novo pra depois voltar a rotina de shows mais pesada.

Nesses festivais e tantos shows, qual a melhor banda que vocês viram nos últimos anos?
Posso falar por mim e acho que de banda nacional um dos melhores shows que vi foi o Supercombo. Sou suspeito pra falar, mas isso é uma verdade.

Jornalista adora rotular. Ou colocar referências no som das bandas. Então queria fazer o contrário: vocês colocarem quais bandas e sons estão embutidos no trabalho de vocês.
Shiiiii, mas vamos lá. Acho que as bandas, entre Rage Against the Machine e Lana Del Rey hauhauahuahauha eu to rindo, mas não é piada!

Quando vem álbum ou videoclipe ou EP novo? Já tem ideia de por onde será produzido o novo disco?
Estamos em processo de composição do novo disco, mas como é um processo dolorido e caótico não faço a mínima ideia de quando vai sair! Devemos ter um single em colab com uma banda em breve!

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