Em busca dos passos perdidos com Alejo Carpentier

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A música é a arte mais cronológica.

A disposição de seus elementos produtivos (melodia, ritmo, compasso, métrica, harmonia, etc) exige organização do tempo como nenhum outro labor artístico.

Tempo que flui na velocidade própria de cada indivíduo, seja executante ou ouvinte, e respeita inclinações pessoais e acontecimentos que afetam a percepção.

Tempo em que nada é absoluto, afora o relativo.

A criatividade e a fruição musical tem em seu germe a influência da temporalidade sobre a livre especulação, o domínio técnico ou teorias preconcebidas.

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A primeira edição de Os Passos Perdidos é de 1953; autor de O Século das Luzes e Concerto Barroco, Alejo Carpentier compôs narrativa empolgante sobre musicólogo que abandona Nova York para se embrenhar na bacia do rio Orinoco

Daí que julgar qualquer percepção sonora é meio inútil, por assim dizer.

Pois bem.

Lançado em 1953, Os Passos Perdidos, do cubano Alejo Carpentier, é um dos livros mais musicais que já li.

Fala da liberdade musical existente no relativismo da vida nas selvas, nos rincões, nos arrabaldes das grandes civilizações ocidentais.

Locais de ritmo próprio, apartado da onipresença da modernidade, como a resistente tradição dos cantadores em feiras públicas sertanejas.

Carpentier, para mim, um dos principais escritores latino-americanos, autor do fundamental O Século das Luzes (1962), escreveu páginas repletas de silêncio (tão caro à música), sem teorizar em uma cena que seja.

A narrativa trata da vida de um musicólogo absorto no tédio e no comodismo.

Ele é casado com Ruth, atriz de teatro ausente por frequentes viagens com amigos de dramaturgia.

Resultado: sexo conjugal escasso e uma amante francesa promovida à parceira constante.

Vale dizer que a biografia de Alejo Carpentier (1904-1980) é envolta de mistério quanto ao local de nascimento.

Filho de um arquiteto francês com uma pianista russa, ele dizia ter nascido em Cuba – a morte foi na França, disso não há dúvida.

notaJá parte de seus biógrafos garante que ele nasceu na Suíça e foi ainda criança para Havana, na bagagem do pai, um entusiasta da cultura hispânica.

Tinha 17 anos ao começar os estudos em arquitetura.

Mas em Os Passos Perdidos, o auto exílio na Venezuela, imposto em meados dos anos 1940, é a matéria-prima.

E, claro, a música, talvez sua maior paixão.

Batida perfeita

A história de um compositor frustrado, em plena crise de meia idade, transcorre boa parte na terra de Simón Bolivar.

O inominado acadêmico recebe convite de um amigo reitor de universidade para empreender viagem ao delta do Rio Orinoco, onde ele viveu no passado (Carpentier viveu na Venezuela entre 1945 e 1959).

Encontrar instrumentos musicais de tribos isoladas é sua missão.

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Alejo Carpentier (1904-1980) é um dos principais escritores latino-americanos; filho de um arquiteto francês e uma pianista russa, ele morou em diversos países, inclusive na Venezuela retratada neste Os Passos Perdidos

Primeiro obstáculo: ele é viciado em psicotrópicos.

Segundo perrengue: está paranoico com a possibilidade de ser traído pela amante francesa no grotão sul-americano.

Sim, Mouche é uma intelectual refinada, frequentadora de ambientes artísticos europeus, de bela compleição física, que despreza ópera latina.

“E tudo que vem da barbárie”, como diz certa altura.

Mas está fora de hipótese perder o rolé na mítica Amazônia Venezuelana.

O pesquisador faz tudo para se livrar da amante.

Considera que ela “neste lado do fosso, do aborrecível palco das possibilidades, seria capaz das piores perfídias físicas, embora nunca tivesse podido formular uma acusação concreta contra ela desde que nos conhecêramos”.

Sem norte em sua profissão e na vida emocional, o musicólogo procura na familiaridade do passado a inspiração primitiva e sonora das selvas para voltar a compor.

Sua amante é o maior entrave.

A guinada vem com a incorporação de uma nativa em sua trupe.

A mestiça Rosário, mulher das matas, simples e iletrada, contraponto à fidalga e volúvel Mouche.

O choque é inevitável.

Enquanto se encanta com “o diapasão das rãs, a tonalidade aguda do grilo, o ritmo da carroça cujos eixos chiavam”, Mouche e Rosário engalfinham-se na beira de um rio, com consequências assustadoras.

Escravo e bajulador do tempo, o musicólogo se depara com uma decisão crucial.

Longe dos transtornos urbanos, a busca pela batida perfeita se torna cada vez mais possível.

O tempo é seu inimigo e a dicotomia entre emoção e pragmatismo se apresenta.

maguinho-da-silvaSon de Cuba

Diz-se em Cuba que ‘a dança é o esporte nacional’.

Criadores do bolero, da rumba, da salsa e do mambo, os cubanos entendem a música como religião.

Compostos etnicamente por ibéricos e africanos, com traços chineses e indígenas, mesclam a funcionalidade das melodias negras e o caráter artístico/estético europeu em sonoridades arrebatadoras.

Andar pelas principais ruas de Habana Vieja ou pelo Malecón é deparar-se com a variedade musical cubana.

Lugares turísticos como a Plaza Vieja, apinhada de bares e bistrôs, incrustada em meio a casarões coloniais, contrastam com a espontaneidade da Calle Obispo e seus músicos de rua.

Difícil encontrar algum músico de qualidade duvidosa.

Em um país excluído da influência norte-americana e governado pelo mesmo sistema a mais de 50 anos, a história e o tempo percorrem trajetos opostos ao do resto do mundo.

A música como identidade nacional extrapola a realidade material.

Tem relevância expressiva e contestatória.

Na Havana musical de Carpentier, não se distingue tempo-passado e tempo-presente.

E isso tudo aflora em um texto primoroso, por vezes, cinematográfico – como na chegada do grupo à selva e nas cenas de sedução entre o professor e a nativa.

Se o protagonista foge de Nova York para vasculhar um dos recantos terrestres onde o ‘homem branco’ pouco pisou, Alejo Carpentier risca o fósforo nos becos escuros de nossa existência, com a história de desgosto, cultura e obsessão.

FOTOGRAFIA DE CAPA: CONRADO CARLOS

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