Crônicas e Artigos

Além do retrato

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Ainda sob intensa emoção de perda, a propósito, escrevo.

O artista Dorian Gray Caldas viveu muito além do personagem complexo de Oscar Wilde. Trazia deste apenas a dedicação à beleza, à criação artística que ultrapassa a vida. Ele exerceu sua arte não apenas com os instrumentos da pintura, desenho, escultura, tapeçaria, canto e poesia, mas, sobretudo, a arte de viver. Tivemos amizade, que poucos irmãos conseguem, por mais de meio século. Ele tinha o entusiasmo da invenção, cumprindo o sentido etimológico da palavra: Deus estava dentro dele. Não conseguia ver o lado negativo das pessoas ou das coisas. Segundo a perfeita definição de Valério Mesquita: “Dorian Gray tem a áspera e doce condição de ser do Rio Grande do Norte, de amá-lo e de ser, por ele, amado”.

Pena que não o tenha gravado cantando com sua voz harmoniosa, fazia verdadeiras serenatas para os amigos. Tinha amizades ativas e generosas. Amava surpreender. Dedicou-me poemas, ilustrou meus livros, transpôs poemas para pintura. Na inauguração do atual escritório de advocacia, chegou com um presente que retrata as minhas coisas e cidades amadas: o trem de Nova Cruz, a casa de Câmara Cascudo, o Potengi de Natal, o Duomo de Florença e até o meu sino tenor. Antes já havia pintado o Baobá com o Pequeno Príncipe e as Xananas de alto valor simbólico e que enfeitam os nossos cantos e recantos urbanos. Para a nossa Academia Norte-rio-grandense de Letras, doou uma obra plástica inesquecível: Cascudo, o fundador da ANRL, apresentando a cidade em festa folclórica.

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Dorian Gray não era apenas personagem, retrato na parede. A escolha do seu nome de batismo já foi uma destinação do menino às artes, à literatura. Era um inovador diário. Trabalhava a paisagem de Natal e dos seus habitantes com talento. Ele próprio é uma referência da cidade, vaidosa do que ele fez. Era um artista completo. Derramava poesia em tudo o que fazia. Até a sua amizade era densamente poética.

Dorian era um promotor de cultura. Descobria o lado bom das pessoas, enfatizava o que de bom produz o artista do Rio Grande do Norte. Se nele existia um defeito como crítico, era o de não querer ver a imperfeição naquilo que os outros produziam. Sua poesia de sabor pictórico é a presença da natureza, das crenças, sentidos e sentimentos, gestos e formas populares. Eram também poéticas as marinas que encantaram o seu viver.

Dorian dedicou a sua vida ao fazer estético. Conseguiu viver profissionalmente como artista nesta cidade linda, mas economicamente periférica. Teve sempre o apoio de sua família: Vanda, Adriano, Dione. E ampliou continuamente os seus amigos e admiradores. Foi o artista em tempo integral e dedicação exclusiva. Pintor de emoções, fraterno artesão, escultor da palavra. Insuficientes os adjetivos. Dorian Gray exige neologismos, doriânico amigo.

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O escritor Getúlio Araújo disse que Dorian construía dia a dia a sua obra de arte majestosa, como grande mestre da pintura contemporânea. Não é à toa que sua arte tenha sido premiada na França e na Bélgica, e valorizada em coleções particulares e de museus. Ele fez, por solicitação do governo do Estado, seis monumentais painéis. Um deles mede trinta e seis metros quadrados sobre cerâmica vidrada, em celebração aos mártires de Cunhaú e Uruaçu. O Governo, através da Arquidiocese, destinou os painéis ao monumento religioso erguido. Dorian custeou as despesas e dedicou o seu tempo e todo o seu amor ao trabalho, realizando-o com a costumeira maestria. São obras-mestras os seus murais que dão impacto estético e histórico a visitantes, inclusive, estrangeiros.

Para a tristeza de muitos, o nosso artista maior partiu. Não vamos esquecê-lo. Já dou início à sua biografia. A biografia prometida!

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