Amor no divã

Demétrio Diniz
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Barbie (chamavam-na assim porque era bonita como a boneca do mesmo nome) morava num apartamento ao lado, vizinhos de um condomínio popular. Anjinho sempre a via pela manhã se despedindo do marido e ia para o trabalho carregando o desejo que sentia por Barbie, às vezes a espiava, escondido no combogol da academia de ginástica do prédio, as coxas grossas, os seios pequenos, os cabelos castanhos em rabo de cavalo balançando para um lado e outro nos aeróbicos.

Uma noite ela apareceu no apartamento de Anjinho, se separou há pouco — disse, Nenéu não foi homem para segurar a casa, vivia pedindo dinheiro emprestado a conhecidos e desconhecidos, arriscando alguns trocados em casas de vídeo-pocker, amigos não tinha, quem ia querer amizade com um homem como aquele — gracejou. Depois da separação apareceu nela um nódulo no céu da boca, pensando na maior angústia ser câncer, mas não, era só uma bola de massa branca que depois desapareceu, disse isso exibindo limpo o palato. Estava menstruada, mas podia lhe dar uma massagem, por que não ir para o quarto? — sugeriu, e foram, ele sem vontade, o desejo antes guardado desaparecera enojado com essa coisa esquisita que não quis ver, imaginando-a doente, com mau hálito. O telefone tocou.

— Anjinho inventou uma mentira —, era a filha dele chamando-o com urgência, precisava sair, desceu com Barbie até a entrada do prédio pelas escadas dos três andares, econômico nos gestos de cortesia, e somente um ano após voltou a vê-la num encontro casual e de mero cumprimento.

Anjinho sempre foi fóbico à aproximação amorosa, um mal difícil de ser curado são as fobias, mexem com o inconsciente, coisas da infância e adolescência, rejeição paterna, materna e outras escavações. O fato é que, depois de ter sido internado num hospício em Recife, acometido de uma depressão profunda por conta de uma menina sardenta recém-chegada da Bielorrússia e que conheceu no bas-fond, ele aos dezoito anos inocente de que a paixão mais avassaladora é a de um homem por uma prostituta, o fato é que depois disso mulher nenhuma conseguira mais segurá-lo. Os defeitos ele inventava ou ampliava para não cair na armadilha de uma paixão. O doutor Olavo, seu amigo, dizia em tom jocoso ser Anjinho o pássaro mais sagaz da floresta.

Anos depois, já havendo fracassado dezenas de namoro e quatro alianças de noivado jogadas fora — ele fazia questão de atirá-las da ponte no rio, socorreu-se da psicanálise no dia seguinte à noite em que uma moça por quem se sentira atraído abandonou-o no meio da dança, num baile de formatura, e ultrajada apontou-o como louco para os outros pares. Anjinho insistia que os dentes dela, naturalmente brancos e saudáveis, eram uma prótese bem feita e a ele não enganava.

O tratamento psicanalítico já contava com mais de vinte anos, e Anjinho como de costume se deitara nu no colchão da psicanalista (a nudez solicitada por indicação terapêutica para atenuar os efeitos das couraças), pronto para choramingar suas queixas batendo no mesmo ponto, como uma agulha de radiola emperrada num disco de vinil, quando a terapeuta, bem mais velha que ele, com idade de ser sua mãe, inesperada e inusitadamente se despiu e deitou-se ao seu lado.

— Anjinho, meu amor — ela disse, terminei de ler o romance que você me emprestou, adorei Patrick Modiano, doravante será meu escritor predileto. Deixe-me repetir o que num dos capítulos disse Louki a Roland. O casal havia acabado de entrar num quarto em Paris, não me lembro em que arrondissement, sei que foi à noite e à margem esquerda do Sena, lá dentro só uma cama de solteiro e um abajur amarelo — a terapeuta narrava o episódio do romance segurando a mão de Anjinho, suave, sem qualquer pressão, todo cuidado era pouco, ela sabia —, Roland deixou a janela entreaberta, fazia calor, da rua ouviam-se gargalhadas, a música lá fora se acabara, acomodaram-se os dois na cama estreita, sem palavras, sem gestos, sem nada, apenas juntos, e Louki lhe segredando ao ouvido: — Devíamos ficar aqui para sempre.

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Demétrio Diniz

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