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Ana P acústica

Em dezembro último a poeta potiguar Ana Paula Oliveira lançou em São Paulo o seu livro de poemas “Infinito sobre o peito”, que pode ser adquirido no site da editora Penalux, que editou a obra. Ana P. Oliveira nasceu em Natal (RN) em 1971 e está radicada em São Paulo (SP) há dezesseis anos. É mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC (SP). Também é atriz e escritora, com diversas prêmios literários e participação em antologias poéticas publicadas no Brasil. Atualmente é professora de ensino superior e doutoranda em Ciências Sociais pela PUC (SP). Infinito sobre o peito é o seu primeiro livro de poesia.

Leia abaixo o prefácio do professor e escritor Nonato Gurgel.

Releio os versos premiados e os versos não premiados de Ana P. Imagino que, assim como Fernando Pessoa, a poeta também se reconhece ‘‘como sinfonia’’. Musica a própria alma. Seja de câmara ou de ouvido, poesia é música. Sempre foi. Desde os antigos gregos (Safo, sua mélica, a poesia cantada), passando pelos românticos e simbolistas (‘‘Antes de tudo, a música’’), nos ritmos modernos (‘‘Qualquer música, ah, qualquer’’), e até pós-modernos (‘‘É jazz do coração’’). Nos mais diferentes contextos históricos e estéticos, a poesia e a música ligam-se às culturas e às mitologias das mais diferentes tribos, nos mais díspares palcos e terreiros.

O texto de Ana P é tecido de paisagens sonoras: solos, acordes, arranjos, intermezzos. Rugidos e rangidos em forma de baladas e versos livres. Ruídos concisos. Audições de superfícies profundas, como a pele, suas cantadas literárias. Cantigas antigas. O sossego inquieto dos afetos sonorizados pelos corpos. Sons naturais do manual da carne que leciona misturas de sombra e luz: ‘‘As pedras brilham/ na minha queda’’. Não tem amplificações experimentais nem efeitos eletrônicos no poema de Ana P. Sua sintaxe é tecida entre sons, sentidos e suores. Suados corpus sonoros. Melopeia moderna de quem ouve o pulsar dos silêncios marítimos, e descarta a rigidez dos gêneros: ‘‘Um homem Atlântico/ pulsa em mim’’.

Neste Infinito sobre o peito, o leitor ouvirá silêncios que confessam e cortam. Silêncios que ironizam, conscientes de que o belo nem sempre rende: ‘‘Belezas não se acalmam’’. Resta a energia acústica do gesto- verso, e não o belo canônico. O silêncio – orixá de todo som – diz, mas pode fazer ruir. O silêncio grita. Desse grito do silêncio ecoa, sobre o peito de afetos indecisos, a devolução de sentimentos negativos, como a ópera-cólera que restou daquele amor nem me fale. Ecoa restos de roteiros inacabados. Figurações do desassossego que retarda a melodia. O verso vira trilha sonora de amores que ousam musicar o seu nome, com todas as letras e partituras. O infinito de Ana é atravessado de silêncios que viciam: o ‘‘vício tão sublime/ De brincar de abismos’’. Silêncios leves; às vezes, ‘‘silêncio zinco’’. A poética da escuta escruta os silêncios de si, assim: ‘‘Meu silêncio tece redes’’. Essa tessitura estetiza o ser que bebeu ‘‘a água do engano’’, e urdiu as próprias manhas tendo o corpo como instrumento: ‘‘Eu bato minhas ondas/ sobre a pele-pedra’’.

A acústica de Ana P dialoga com as poéticas modernas que as grafias do feminino teceram em diferentes contextos do século XX: Lou Salomé, Elisabeth Bishop, Hilda Hilst, Ana C. Diz o eu musical que escreve: ‘‘é na grafia/ onde está o meu amor’’. Esse mesmo amor da grafia estetiza o feminino dos afetos que revê quartos vazios, por necessidade, e, ‘‘sentida e portuguesa’’, dialoga com a dicção irônica e confessional de Ana Cristina Cesar: ‘‘Mas não contes para ninguém/ do vestido/ de você de joelhos/ a meus pés’’.

O infinito acústico de Ana P estetiza uma pluralidade de eus, em sintonia com os ruídos e golpes do nosso tempo. Quem escreve, neste ‘‘infinito’’, é um peito aflito e amoroso. Corpo que transforma a si em verso, e cria harmonias para os seus passos e para a sua própria queda. E este corpo que escreve não é atravessado por séculos de culpa cristã, como ouvimos nessa acústica moderna de versos curtos: ‘‘O sexo é a ponte’’. Sexo melodia. Passe a página, leitor(a), a sinfonia vai começar. Atente para os timbres desta poeta que começou a vida inspecionando uma orquestra. Agora toca.

Nonato Gurgel

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