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Antônio de Souza – Um caso de injusto ostracismo

Em 1959, o escritor R. Magalhães Júnior organizou, para a Editora Civilização Brasileira, de Ênio Silveira, a antologia, “Panorama do Conto Brasileiro”. Em um dos dois volumes desta obra, dedicados ao “conto do Norte”, incluiu dois autores norte-rio-grandenses: Polycarpo Feitosa e Peregrino Júnior.

Trata-se, realmente, de um panorama, ou seja, uma seleta bastante abrangente, juntando escritores consagrados (Inglês de Sousa, Artur Azevedo, José Veríssimo, Aluízio Azevedo, Coelho Neto, Adolfo Caminha, Humberto de Campos, Graciliano Ramos, Peregrino Júnior), outros pouco conhecidos a nível nacional (Domingos Olímpio, Xavier Marques, Oliveira Paiva, Medeiros e Albuquerque, Alberto Rangel, Viriato Correia) e ainda outros de renome restrito aos respectivos estados de origem ( Antônio Sales, Carlos Dias Fernandes, Tomás Lopes, Oscar Lopes, Polycarpo Feitosa, Mário Sette, Théo Filho, Ranulfo Prata, Barbosa Lima Sobrinho ). Todos, porém, exímios contistas, com exceção de Carlos Dias Fernandes, a julgar pelo seu conto “Sinfrônio e Agripa”, constante na antologia.

Parece-me que a inclusão do nosso Polycarpo nessa seleção nacional, publicada por uma grande editora, constitui verdadeira consagração do seu valor como ficcionista. O seu conto “Um Depósito de Coisa Fungível”, transcrito do livro “Encontros do Caminho” (1936), relatando, com teor crítico, episódios impagáveis , cheio de humor e sutileza, é uma culminância. Faz lembrar o melhor de Machado de Assis. Por coincidência, é o mesmo conto que escolhi para a antologia “ Contistas Potiguares” (Sebo Vermelho Edições, 2003).

R. Magalhães Júnior no seu “Panorama do Conto Brasileiro” insere nota biográfica sobre Polycarpo Feitosa, a qual achei por bem transcrever a seguir, por me parecer bastante reveladora.

Diz o antologista:
“Este é um dos casos literários mais curiosos do Brasil. Revela o desdobramento de uma personalidade, que atuou em dois planos inteiramente distintos, sem valer-se da nomeada conseguida num deles para influir sobre o outro. A obra de Policarpo Feitosa é, ainda hoje, um enigma para muita gente. E poucos são os que se dão conta de que o excelente contista que escrevia sob esse nome, tem alguma relação com Antônio José de Melo e Souza, jurista e homem público, que foi por duas vezes governador do Rio Grande do Norte, procurador geral do Estado e seu representante no Congresso Nacional. Sempre manteve a maior discrição sobre suas atividades literárias e nunca usou o seu nome, nos romances e livros de contos que escreveu e publicou. Um desses volumes,” Encontros no Caminho” (Sic), foi publicado em 1936, e é nele que se encontra a deliciosa narrativa que transplantamos para esta antologia, “ Um Depósito de Coisa Fungível”. Já no fim de sua vida, morando no Recife, Antonio de Souza doou esse conto,em carta para o organizador desta antologia, para que o adaptasse para teatro ou cinema. Quase todos os seus contos são acompanhados de extensas citações, que demonstram suas abundantes e boas leituras, desde os clássicos, como Virgilio, aos neoclássicos, como Machiavelli, Shakespeare e Moliére, a escritores do século passado, como Charles Dickens, Leopardi, Stendhal, etc. todos lidos no original. Entre outros livros, Antônio de Souza publicou “Alma Bravia”, “Dois Recifes com sessenta anos no Meio”, “Gente Arrancada”, “Gizinha” e “Os Moluscos”. Morreu no Recife, com mais de 70 anos, a 5 de julho de 1955”

Não tenho conhecimento se Magalhães Júnior chegou a adaptar o conto de Polycarpo Feitosa para teatro ou cinema.

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Nunca é demais afirmar que Antônio de Souza é o personagem da História do RN que sofre o mais injusto esquecimento. Fala-se muito e muito se escreve sobre ilustres governadores do Estado – Pedro Velho, Alberto Maranhão, Juvenal Lamartine, José Augusto, Aluízio Alves, etc. – mas, nunca se diz que Antônio de Souza foi um dos melhores governadores que já tivemos, senão o melhor. Honradez, tino administrativo, conhecimento da problemática socioeconômica, tudo depõe a seu favor. Mas, não é reconhecido.

No campo da literatura, as homenagens vão, quase sempre, para Câmara Cascudo, Auta de Souza, Jorge Fernandes, Zila Mamede e alguns outros, deixando de lado Polycarpo Feitosa. Dos seus cinco romances, apenas um – “Gizinha” – foi reeditado, e o seu único livro de contos permanece em primeira edição.

Dr. Souza, como era chamado, não fez parte da Academia Norte-rio-grandense de Letras – nem como acadêmico, nem como patrono. Não sei de logradouro, tampouco de instituição com o seu nome. Estudo biográfico em profundidade, nenhum! Em 2016 tracei o seu perfil, em breves pinceladas, num volume tipo pocket book, publicado pela 8 Editora, na prestigiosa Coleção “Presença”, sob o título “ Polycarpo Feitosa – O Excêntrico Dr. Souza”. Pretendo ampliar esse trabalho, e para tanto venho juntando valiosos subsídios, muitos destes coletados com a ajuda de Thiago Gonzaga.

Antônio de Souza é motivo de orgulho para o Rio Grande do Norte.

Creio que não tarda o dia em que se dará a esse grande homem e grande escritor, o lugar que bem merece na História da literatura e da vida pública do nosso Estado.

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