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Ao assessor

O Sertão, de João Machado. Exposição na Galeria NIKON. Fotos para uso exclusivo de divulgação da exposição. DOC Galeria. contato@docgaleria.com.br

Fotografia: João Machado

 

Seu assessor, é verdade…

Nasci num quarto sem cama

Em meio à calamidade

Brincando em poças de lama.

Cresci vendo as brigas feias

Dos caciques das aldeias

Ungidos de estupidez

E deixando isso pra lá

Dum tempo desse pra cá

Vim rir a primeira vez.

 

Seu assessor, o ano inteiro

Meu pai muito trabalhava,

Mas se eu pedisse dinheiro

Nem querendo dar me dava.

Em vez de eu ir pra escola

Eu ia era jogar bola,

Mas sem dizer a ninguém…

Cresci sem ter um brinquedo

Mas tenho um anel no dedo

Do jeito que o senhor tem.

 

Seu assessor, todo dia

Num rancho com rachadura

Mãe ouvia cantoria

Com o rádio em toda altura.

Por isso num sonho pleno

Eu sinto desde pequeno

Resquícios de um paraíso,

Por ter, com toda energia,

Os ventos da poesia

Soprando no meu juí­zo.

 

Seu assessor, não me atrasa

Só falar de meu gemido…

Por isso só lá em casa

É que eu sou bem conhecido…

Não sou filho de Drummond

Meu verso não é tão bom

Pra seus olhos de pateta,

Porém, se eu fosse o senhor,

Eu não mexia na dor

Do coração de um poeta…

 

Seu assessor, eu só falo

Do que palpita em meu peito,

Prefiro o cantar de um galo

A seus livros de Direito.

Eu canto o gato na bica

“A sombra da oiticica”,

O couro de um tamborete,

Duas latas num galão

E outras coisas que estão

Além de seu gabinete.

 

Seu assessor, o meu pai

Só lá com dificuldade,

Mas para os cantos que vai

É levando honestidade.

Mesmo quase analfabeto

Me ensina tudo correto

Para o que preciso for,

Não tem contas na Suíça,

Mas entende de Justiça

Muito mais que o senhor.

 

Seu assessor, o meu nome

Já corre o sul do país,

Não porque matei quem come

Corda de mão de juiz.

É meu versinho “irrisório”

Que foi no seu escritório

Como um bandido que erra,

Mas hoje, de tão profundo,

Recebe palmas do mundo

Por falar de minha terra.

 

Seu assessor, o meu rosto

Torra no sol todo dia

Nem parece ter um posto

Nos gênios da Academia.

Eu sou assim meio bruto,

Abestalhado e matuto,

Magrelo da voz gasguita,

Mas alguém, em seu lugar,

Pode um dia lhe falar

Do menino de Estelita.

 

Seu assessor me perdoe

Por este verso mesquinho!

Que Jesus lhe abençoe!

Cubra de luz seu caminho…!

Se quiser ir lá em casa

Comer um milho na brasa

Vai ser recebido bem…

Terá lençol, rede e fronha

Que gente que tem vergonha

Não discrimina ninguém.

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Manoel Cavalcante

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