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Ao mestre Deífilo Gurgel

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No último domingo este caderno registrou o reencontro das duas maiores figuras vivas do nosso folclore: Dona Militana e Deífilo Gurgel. A matéria quis mostrar a situação da romanceira após delicada cirurgia de angioplastia, aos 84 anos do segundo tempo. E deixou em segundo plano este areia branquense, de rio e de mar; de voz pausada, grave e palavras humoradas e sempre simpáticas. Os 82 anos de Deífilo merecem o respeito da sanfona de 8 baixos de Januário. É hoje o maior folclorista vivo do Brasil, reconhecido por gente do meio a quem tive o cuidado de perguntar e embasado pelas próprias palavras de Deífilo, ao dimensionar a obra de outros grandes folcloristas do país.

Sua paixão pelo folclore e cultura popular recai também nas figuras humanas responsáveis pelo valor cultural em cada manifestação folclórica estudada. Este talvez seja o grande diferencial da obra de Deífilo – muito maior que seus dez livros publicados. Sua essência simples o coloca em pé de igualdade a estas figuras humanas notáveis, geralmente em condições deploráveis de vida. Ouve histórias informais, encaminha a conversa para onde quer de maneira sutil e garimpa o joio raro de quem conhece o assunto em suas profundezas abissais. Esta metodologia se junta aos anos de estudo e pesquisa formadores do alicerce de conhecimento necessário para mirar o alvo com mais precisão.

Dessa maneira, Deífilo Gurgel desbravou este Rio Grande durante duas décadas para documentar as mais diferentes e remotas manifestações da cultura popular. Nessas passagens mais das vezes solitárias, sem apoio algum, descobriu nomes como o coquista Chico Antônio e a citada Dona Militana. Deu vida ao maior mamulengueiro do Brasil, Chico Daniel. Trouxe à baila Manoel Marinheiro. E não fosse a insistência da mídia pela figura de Dona Militana, como ele mesmo reclama, outras riquezas estariam nos noticiários, como os grupos de Chegança e Fandango de Canguaretama; o Cabocolinho de Ceará-Mirim, e outras dezenas de grupos e nomes.

No quesito romanceiro, a notoriedade de Dona Militana tem apagado a importância de nomes como Juvina Monteiro, em Rio do Fogo – das mais importantes do país; a romanceira conhecida como Maria de Aleixo, moradora de Alcaçuz; e Maria de Vítor, residente na Praia de Caraúbas. Talvez seja erro também da mídia a mira voltada ao alvo de Cascudo quando temos Deífilo, que, se tem Cascudo como mestre, conseguiu ir além de antecessores como Veríssimo de Melo, Gumercindo Saraiva, Oswaldo de Souza, Nestor Lima e Jayme Wanderley.

Uma prova dessa grandeza virá no segundo semestre: um livro intitulado Romanceiro Potiguar, com material inédito de romances coletados durante suas andanças litorâneas e sertanejas. Trabalho que o coloca entre os grandes pesquisadores da história do romanceiro no Brasil, condenado a suportar a falta de prestígio às manifestações da cultura popular mais representativas das nossas raízes culturais.

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Comentários

0 comments

  1. Vitor 6 setembro, 2009 at 07:49

    O maior folclorista do Brasil ainda vivo Deifilo Gurgel merece honras e meritos do povo norte-riograndende por suas pesquisas feitas na aréa do folclore potiguar no estado do RN. O que seria da cultura do RN sem Deifilo ? Viva Deifilo Gurgel !

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