Apaixonada defesa da literatura

Tácito Costa
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Em texto publicado aqui há poucos dias fiz breve referência ao livro “A verdade das mentiras”, ensaios de Mario Vargas Llosa sobre obras literárias, que estou lendo salteado. São textos curtos e gostosos de ler.

Dou preferência aos que ele comenta que eu li. Como “Trópico de Câncer”, de Miller, “Lolita”, de Nabokov, “O coração das trevas”, de Conrad, “O gattopardo”, de Lampedusa, “Afirma Pereira”, Tabucchi.

Mas também podemos ler um ensaio sobre um livro que não conhecemos e gostar. Por exemplo, não li “Herzog”, de Saul Bellow. Mas gostei do mesmo jeito do texto de Llosa.

A razão é simples. O escritor parte da obra analisada para falar sobre literatura. Com simplicidade e erudição.

Entre as obras enfocados figuram “O estrangeiro”, de Camus, “A revolução dos bichos”, Orwell, “Admirável mundo novo”, Huxley, “Auto-de-fé”, Canetti, “Morte em Veneza”, Mann, “O grande Gatsby”, Fitzgerald, entre outras.

O texto de abertura, que tem o mesmo nome do livro, “A verdade das mentiras”, eu li há alguns anos, não lembro se na Internet ou em alguma revista. Nele e no epílogo, sobretudos, Llosa faz uma apaixonada defesa da literatura.

Abaixo alguns trechos que marquei.

“De fato os romances mentem – não podem fazer outra coisa -, porém essa é só uma parte da história. A outra é que, mentindo, expressam uma curiosa verdade, que somente pode se expressar escondida, disfarçada do que não é.”

“Todo bom romance diz a verdade, e todo mau mente. Porque ‘dizer a verdade’ para um romance significa fazer o leitor viver uma ilusão, e ‘mentir’, ser incapaz de conseguir esse engano, esse logro.”

“Somente a literatura dispõe de técnicas e de poderes para destilar esse delicado elixir da vida: a verdade escondida no coração das mentiras humanas”.

“Uma grande obra literária sempre admite leituras antagônicas, é uma caixa de Pandora onde cada leitor descobre sentidos, matizes, motivos e até histórias diferentes. Esse é o caso de ‘Lolita’, que enfeitiçou os leitores mais superficiais ao mesmo tempo que seduzia, com sua fonte de idéias, de alusões e de delicadeza de sua feitura, o leitor ilustrado e culto que se aproxima de cada livro com o desafio que lançou aquele jovem a Cocteau: Étonnez-moi! “(Surpreenda-me”).

“Esta é uma das mais importantes funções da literatura: recordar aos homens que, por mais firme que pareça o solo onde pisam e por mais radiante que seja a cidade que habitam, existem demônios escondidos por todas as partes que podem, a qualquer momento, provocar um cataclisma”.

“Um romance bem-sucedido nos recorda que a realidade na qual estamos é insuficiente, que somos mais pobres que aquilo que sonhamos e inventamos.”

“Porque estou convencido de que uma sociedade sem literatura, ou na qual a literatura foi relegada, como certos vícios inconfessáveis, às margens da vida social e convertida pouco menos que num culto sectário, está condenada a se barbarizar espiritualmente e a comprometer sua liberdade”.

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Tácito Costa

Comentários

1 comment

  1. Ruben G Nunes 16 fevereiro, 2017 at 14:57

    Muito bom o texto. Bom de ler
    Bom de sacudir nosso Tempo e as pessoas sobre a eterna necessidade da Literatura.
    Bem como sobre suau crônica fragmentação em guetos. Que a enfraquece em retalhos e rebutalhos.
    Que seja uma colcha de retalhos. Mas uma colcha inteiriça.
    Ruben G Nunes

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