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Aquarius: (in)cômoda resistência

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Os filmes de Kleber Mendonça Filho me produzem sentimentos ambivalentes e, por isso mesmo, muito ricos e profundos. A luz de Boa Viagem me é muito familiar, porque é também a luz da Praia dos Artistas ou de Ponta Negra, praias urbanas natalenses que já não possuem a magia de outrora, mas perduram, resistem, como o apartamento de Clara resistiu ao fogo e ao ferro da especulação imobiliária. Clara, até quando? Falo de Clara, porque falo do novo filme de Kleber: “Aquarius”, claro!

Clara! Claro! Claríssimo! Resistir é uma atitude cultural e política que necessita coragem. E muita. Decidir remar contra a maré cheia de tubarões não é e nunca será fácil. Mas é algo absolutamente necessário, para que os valores e princípios todos não se percam e os sonhos não morram na praia, sem salva-vidas. A história e o patrimônio artístico e cultural merecem respeito e atenção, algo que quase nunca se tem visto, destacadamente num país iconoclasta ao extremo como é o Brasil. Recife ou Natal e a realidade é a mesma: cupins de demolição se multiplicando em proporção geométrica (“trouxeram a colônia completa”). Trouxeram a colônia e a exploração da colônia. E assim tem sido ao longo dos séculos. Explora-se a terra e a gente que está na terra. E o cupim vai roendo. Até que encontre madeira de lei, (in)cômoda, que resiste pra valer. Então, a coisa já não é tão fácil.

Resistir é essencial. Resistência cultural e política, diante da dominação completa que alguns pretendem. Aos sobrenomes oligárquicos impor os nomes das coisas e das pessoas. Cada indivíduo tem seus sentimentos, maneiras distintas de valoração e de percepção do que existe no mundo. A massificação e a vulgarização sob falso manto (ou tela de proteção que cai do prédio padronizado enquanto a canção antiga toca na vitrola e a mulher dança com frescor) não são realidades que se possa aceitar quieto, calado, alienado pela eternidade obscura. É preciso mesmo navegar e se banhar no mar dos tubarões, mesmo que somente até a cintura.

É preciso sempre resistir ao câncer da vulgarização. É preciso manter o olhar puro e amoroso – um olhar erótico mesmo – mas não ingênuo e inerme. Há sempre alguma arma intelectual a se utilizar e uma oportunidade de responder psicologicamente à agressão externa, sem que se perca mais nacos da própria carne. E se temos arrancados pedaços de nós, não nos entreguemos por completo, sem lutar. Jamais. A luta é o que nos faz vivos. E se não podemos ter o corpo inteiro, sem máculas ou cicatrizes, que mantenhamos as consciências e inteligências intactas e o pensamento profundo e ereto, para preservação dos nossos mundos, particulares mundos, que a ninguém é dado invadir e violar.

Como foi magnífica a escolha de Sônia Braga para o papel principal de “Aquarius”! Que feliz lembrança e resgate oportuno da imagem dessa mulher que simboliza toda essa resistência (feminina, registre-se) da qual falamos e que almejamos ver espraiada por todo o país. A sua beleza morena e forte é a própria brasilidade, a própria condição daqueles que ultrapassam riscos e dores e se mantêm de pé e abraçados firmemente às suas crenças. Não vale a pena se acovardar diante dos golpes que a vida e a história nos oferecem. Olhar adiante e continuar sonhando, construindo mundos diversos, cheios de cores e flores naturais, diante do mar da existência e da resistência. Todo peito tem feridas (“Hoje, trago em meu corpo a marca do meu tempo”, Taiguara). E todas as feridas e cicatrizes são sagradas, quando se mantém a dignidade e a coragem para a boa luta. Acredite. Neste mundo ainda existe “madeira de lei que cupim não rói”. Capiba, outro grande pernambucano, assim como Kleber Mendonça Filho, já nos dizia e nos lembrava isso.

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Lívio Oliveira

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