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Tempo e espaço são dimensões centrais em Aquarius

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Tempo e espaço são duas dimensões centrais em Aquarius, que vimos ontem em uma sessão sem muita gente, mas com aplausos esfuziantes ao final. A cena em que Clara (a personagem de Sonia Braga), a partir de Double Fantasy de John Lennon e Yoko Ono comprado em um sebo, “desenha” para a repórter o porque preferir as mídias físicas às digitais, é chave para entendermos a psiquê da personagem e do próprio filme. Se não fosse por seu didatismo exacerbado, ainda que necessário à situação, sobretudo pelo ridículo que encerra o comportamento da repórter, o brilhantismo da performance de Sonia Braga não teria um só senão ao longo deste segundo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho. Neste filme, que sucede “O Som ao Redor” (2012) na filmografia do diretor, temos a trajetoria dessa mulher na maturidade do seu corpo, que carrega as marcas de todas as idades e que resiste às investidas de uma grande construtora que tenta  comprar seu apartamento… que é o único que falta para demolir o velho e erguer o novo Aquarius.

Clara simboliza (sic.) o que não precisa mudar, o que permanece intacto, cria escudos para guarnecer a fortaleza do tempo e dos espaços que assenta sua vida. Praia, condomínio, apartamento, precisam permanecer, invioláveis, em suas possibilidades, nas marcas que o tempo deixou, na imensidão da memória e da História. Até uma discreta cômoda, posta na sala do apartamento de Clara, guarda memórias e fantasias que transcendem os desejos (i)morais de outra cepa – o que nos faz lembrar “d’o olhar do objeto” no cinema de Ozu, segundo as palavras de Kijú Yoshida quando analisa Era Uma Vez em Tóquio (1953). A força de Aquarius, que modela tempo-espaço a partir de uma heroína que é, ao mesmo tempo, personagem-atriz, está muito mais em não se apresentar, diretamente, como símbolo de resistência ou de denúncia, mas, inevitável e naturalmente, ser uma coisa e outra sem se reduzir a condição de espelho.

Aquarius ecoa tempos que a memória brasileira não parece conseguir se desvencilhar. (A memória da repressão da Ditadura Militar, ainda que de lampejo, é estampada na face da tia de Clara na sequência da comemoração dos seus 70 anos). Ecoa também a pornochamchada e a memória da música brasileira, com as canções como trilha orgânica e, praticamente, como uma personagem à parte pontuando cada momento.  (Ecoa aquele cabelo curto à moda Elis, mas que tem raízes mais dolorosas para a personagem). Clara evoca a própria Braga, que permanece com todas as marcas do tempo e da memória. Difícil olhar para a personagem e não lembrar a atriz: que se confundem, amálgamam-se na seqüência final – pois não é Clara ou Braga, a personagem ou a atriz, que sai do mar… são ambas em um só corpo-memória. Clara se torna assim, sob as lentes de Mendonça Filho, a grande personagem do cinema brasileiro contemporâneo. E permanecerá!

Na primeira parte do filme, direção de arte e figurino dão o tom, com o seu didatismo exacerbado para não termos dúvida do tempo, da época e do som. Se não fosse por sua estrutura capitular, que nos faz lembrar que um filme existe; por Aquarius ecoar o Cais de Estelita, que, apesar de não procurar uma relação mecânica, acaba por estabelecer uma analogia óbvia; pela música brasileira fazendo a ponte entre planos, cenas e seqüências, como o mais belo e orgânico elemento de transição sobrepondo-se ao corte seco; pelo flerte com o cinema de horror (como lembrou Ailton Monteiro no blog Diário de um Cinéfilo), Aquarius não poderia ser mais do que uma história que, transparente e de forma natural, passa diante dos nossos olhos. Sem deixar de flertar com o formalismo, espelhando estilos e escolas diversas, Aquarius nos deixa sempre certos que estamos diante de um belo exemplar do famigerado “cinema nacional”: contemporâneo ao vincular-se as questões mais prementes do seu tempo (como “Branco Sai, Preto Fica”), pungente (como “Amarelo Manga”) e sobretudo inventivo na sua simplicidade (como “Filme de Amor”).

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Marcos Aurélio Felipe

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