O ‘barulho’ de Art Bakley & The Jazz Messengers

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Em um país de cultura musical tão percussiva como o Brasil, é um choque saber que gêneros tão próximos a nós outros desprezaram a bateria em sua formação.

Foi assim com o jazz que, até os anos 1950, tratava seus bateristas como ‘aqueles que fazem barulho’.

O julgamento partia do lado europeu, nascedouro do jazz, ao contrário da relevância que a percussão sempre teve na música africana.

O suingue, por exemplo, só ascendeu em países onde houve miscigenação, casos de Brasil, Cuba e Estados Unidos; por isso a recusa dos europeus em aceitar bateristas como músicos, nas décadas iniciais do século XX.

Até que três nomes surgiram para impulsionar uma nova linguagem ao instrumento coordenador do discurso jazzístico:

Kenny Clarke, Max Roach (talvez o maior de todos os tempos) e Art Bakley, sem dúvida o mais furioso.

Sujeito afamado após participação na banda de Fletcher Henderson e de tocar com Charlie Parker e Dizzy Gillespie, Bakley faz parte de tudo quanto é sala da fama da música americana.

Após uma viagem à África Ocidental, naquela mesma década, ele ampliou as possibilidades da bateria e criou um estilo sonoro único, ao fundir base folclórica e expressões de vanguarda em discos antológicos.

Um deles foi The Big Beat (1960), seu maior terremoto musical, em uma época repleta de pedras fundamentais.

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Vários instrumentistas renomados, como Wayne Shorter e Lee Morgan, passaram pelo The Jazz Messengers, principal projeto encabeçado por Art Bakley, cujos álbuns clássicos The Big Beat e Moanin’ estão na lista de todos os tempos no panteão jazzístico

Um time de primeira formava o Art Bakley & The Jazz Messengers.

No sax tenor, ninguém menos que Wayne Shorter, um dos maiores instrumentistas que a terra viu surgir, futuro líder do Weather Report, banda de jazz-fusion que revolucionou os anos 1970, e ainda em plena atividade.

No trompete, Lee Morgan, outro artista presente na lista dos principais, dono de um fraseado blueseiro e autor de um dos discos mais reverenciados que se tem noticia: The Sidewinder (1963).

Já Bobby Timmons, no piano, era o compositor de vários dos clássicos lançados por Art Bakley, como Moanin’, faixa que nomeou o álbum de dois anos antes que, juntamente, com The Big Beat, é considerado o suprassumo dessa galera.

Jymie Merritt, no baixo, completava a escalação com o mesmo brilho dos outros.

Lançado pela Blue Note, The Big Beat tem clássicos eternos do jazz, como Dat There e Lester Left Town.

Dificilmente você não as reconhecerá, caso goste de música instrumental.

Escutar o que faziam os ‘Mensageiros do Jazz’, em plena vitalidade e elevado nível de execução instrumental, funciona como uma sacudida na preguiça dos menos afeitos ao gênero.

O disco encanta por sua concepção rítmica e suingue, cuja capacidade de iludir o sentido do ouvido com a sensação dúbia de regularidade e negativa métrica, nos transporta a lugares tão desconhecidos, hoje em dia.

Os seis temas apresentam melodias soberbas – três compostos por Shorter, The Chess Players, Sakeena’s Vision e a supracitada Lester Left Town.

Bakley (1919-1990), artista engajado politicamente, foi rebatizado Abdullah Ibn Buhaina, durante a febre islâmica que pegou meio mundo negro, no final dos 40s.

Antes de chegar ao topo do bebop, ele tocava piano para mineiros da região de Pittsburgh, sua cidade natal.

Ganhou tanta grana com gorjetas que montou uma banda com 14 integrantes.

Daí em diante, virou um dos expoentes de um instrumento outrora condenado à coadjuvância.

Em The Big Beat, ele atingiu o apogeu como bandleader e como gênio criativo, complementado por um grupo de virtuosos que marcaram história no jazz.

O hard bop aqui encontra guarida, naquela suposta confusão instrumental em torno de uma base melódica que o estilo consegue impor – e de alguma forma ser um som dos mais empolgantes.

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