Crônicas e Artigos

As cores perenes de Dorian Gray Caldas

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“Mais afeto/pela terra/e por tudo/que ela encerra.” (trecho do poema “A verde mediação”, de Dorian Gray Caldas)

Nos últimos meses, havia intensificado os meus contatos pessoais com Dorian. Sentia uma necessidade curiosa e crescente de estar mais perto do homem refinado e gentil, artista múltiplo e intenso, poeta sensível e profundo. Não acreditava que viria uma interrupção tão brusca, tão dolorosa. Eu contava mesmo era com a possibilidade de estreitar ainda mais os laços, que também tinham e têm extensão afetiva (há tempos) com Adriano, Dione e Dona Wanda.

Ao final de uma das visitas que fiz ao mestre, disse a Dona Wanda, já na calçada, que gostaria de levar Dorian para dar uns passeios de carro, flanar pelas praias urbanas, deslizar pela ponte que leva o nome do seu amigo Newton Navarro. Isso poderia até servir de inspiração para mais uma de suas belas marinas. Aliás, nessa visita, vi Dione pintando uma tela, uma imagem da ponte, com agradáveis tons de azul ao fundo, algo meio abstracionista. Dorian, sentado ao lado, olhar de pai cuidadoso e de artista meticuloso, fazia observações pontuais. Sentei-me diante do mestre e fiquei ouvindo também as suas memórias e lições de vida.

Confesso que havia comoção em mim diante do seu olhar e da sua voz. Nada e ninguém poderiam ser tão bons e verdadeiros quanto aquela personalidade com lisos cabelos brancos diante de mim e de um mundo ideal e cheio de belezas que nitidamente se abria quando falava. Dizia coisas sobre um tempo e uma geografia ideais, a arte e os artistas povoando, a poesia se incorporando às brisas mornas e a luz guiando cores na paleta imemorial.

Dorian, Dorian Gray, Dorian Gray Caldas…esse nome tão cheio de mistérios! Explicou-me que o inusitado levou com que o seu pai o aplicasse ao filho varão que ainda nada sabia de Oscar Wilde. E falava-me Dorian acerca da intensa e mística relação com a arte, artista que dela e com ela viveu, refletindo-se em espelho sem conflitos, porque a arte lhe correspondia em paixão intensa e coerente. E sempre fazia com que ele se renovasse e buscasse caminhos novos e criativos. O retrato de Dorian era fiel no principiológico mundo da estética.

No derradeiro dia do mestre, naquele dia de despedida, vi que o verde da grama e o marrom-avermelhado da terra que o recebia estavam, paradoxalmente ou o contrário (?!), mais vivos, em combinação perfeita com as pétalas de rosa que caíam sobre o seu peito, que tanto pulsou entre nós, traduzindo ardentemente os sentidos e as inteligências acerca de todas as coisas – mares, nuvens, sóis, casas, gente nas casas e fora delas –, aguardando sua passagem, seu sonho mais elevado por sobre todos nós, gigante que era e que continua a ser em memória, “múltiplo e fecundo humanista”, como o descreveu muito bem, sintética e sabiamente, o escritor Manoel Onofre Júnior.

As cores de Dorian são as últimas e as primeiras. Estão perenizadas no mundo. Não se acabam. Basta olhar para o céu e para o mar de Natal. Tudo está em sua origem, onde a arte foi toda gerada de uma só vez, sendo liberada aos poucos no decorrer da longa e frutífera existência.

Quanta generosidade nos seus gestos! Quanto amor em suas mãos, que guiaram com suavidade o lápis da poesia e os pincéis e demais instrumentos das artes: tudo poesia escrita ou visual! Tudo puríssimo e elevado! Tudo em Dorian Gray Caldas trazia belezas para os nossos olhos e ouvidos embevecidos. A palavra primeira e a derradeira, sempre exatas. As cores originárias e as que vieram no decorrer do caminho, até a última pincelada no quadro da vida: verdadeiras, apaixonantes, profundas, perenes. Dorian pode ser definido mesmo assim: perene, como homem e como artista. Dorian é imortal, na acepção mais perfeita. A vida ainda pulsa nas cores e nas palavras que nos deixou, como eterno legado.

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Lívio Oliveira

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